27/02/2019
O trabalho e o descanso no Senhor
Na maioria das profissões é difícil dizer que alguém descansa enquanto trabalha. Isso porque dentro do próprio conceito de trabalho está a ideia de troca da força humana por uma atividade laboral, que permite a sobrevivência do trabalhador e de seus familiares pela remuneração. Quando trocamos a nossa força física ou intelectual ficamos cansados em algum momento, o que ocorre mesmo nas atividades aparentemente mais recreativas. Ainda que tenha havido algumas mudanças ao longo do tempo, ou que tenham surgido novas atividades profissionais, essa é a fórmula que existiu por milhares de anos e subsiste até hoje, já que as Escrituras nos ensina que com a grande queda o “homem comerá do suor do seu rosto” (Gn. 3:19).
No entanto, quando nos referimos ao evangelho, percebemos que é possível trabalhar para Deus e descansar em Deus ao mesmo tempo, porque tanto o nosso trabalho quanto nosso descanso em Deus tem natureza eminentemente espiritual. Descansar em Deus é confiar em sua graça e soberania, aquietando a própria alma de toda ansiedade. É acreditar que Aquele que domina o curso de todas as coisas se importa conosco. Esse descanso é outorgado pela presença do Senhor e por isso Ele disse a Moisés, mesmo em um momento de peregrinação pelo deserto, que lhe daria descanso (“a minha presença irá contigo e eu te darei descanso”, Êx. 33:14).
Trabalhar para Cristo, por sua vez, significa dispor da própria vida para servi-lo como Senhor, pois compreender o senhorio de Jesus é saber que não fomos chamados apenas para crer nele, mas também para obedecê-lo sem hesitar (Dt. 10:12; I Co. 7:22, Cl. 3:24). Como aponta Dionísio Pape “por mais surpreendente que pareça, o Novo Testamento se refere a Jesus como Salvador apenas 16 vezes; chama-o Mestre 64 vezes; mas proclama-o Senhor 650 vezes! ” (PAPER, Dionísio. Cristo é o Senhor. São Paulo: ABU Editora,2003, p.27.) A intenção do autor com tal paralelismo não foi fazer qualquer gradação entre as palavras, mas demonstrar que aceitar a Cristo como Senhor implica aceitar a sua autoridade em todos os níveis da vida. Ao menos 650 vezes no novo testamento, o homem é desafiado a afastar toda tentação de enxergar o evangelho antropocentricamente para ver que Cristo é o centro de tudo e nós que o servimos.
O trabalho para Deus nesse ponto vai além das atividades desenvolvidas nas igrejas, embora essa seja uma forma importante de manifestarmos o nosso serviço ao Senhor em comunhão com os irmãos, mas outras formas de trabalhar para Cristo pode ser através da evangelização (Mc. 16:15; 2tm. 4:5); da preocupação com o próximo (Lc 10:36-37); da demonstração de amor (I Co 13; Jo 21:16); da nossa vocação profissional (Ef 6: 7). O importante é não fazermos dissociação, servimos a Deus o tempo todo (Cl. 3:17).
Se o trabalhar para Cristo e descansar nele é, então, espiritual, não adianta fazermos a sua obra sem esse olhar e sentimento, pois restaria apenas o cansaço físico e o descanso prometido não seria experimentado. Equivale a fazer a sua obra sem amor, como mero metal que soa ou como o címbalo que retine (I Co 13:1). Nada mais que exterior! E, exteriormente, podemos estar moídos e fadigados, mas isso não nos faz mais ou menos crentes. As Escrituras não nos pede isso, já que o próprio Jesus nos disse que o “seu jugo é suave, e o seu fardo é leve” (Mt. 11:30).
O que nos leva a trabalhar para o Reino de Deus com amor é a conversão espiritual que temos e transforma a forma como enxergamos tudo na vida (II Co 5:17), de modo que o nosso trabalho para Ele não pode ser mero empenho físico. Ao servimos a Cristo com amor, Ele, em seu tempo, nos dá o descanso. Esse descanso se confunde com a própria satisfação presente dada por Deus ao servirmos e confiarmos nele (Mt. 11:29), bem como com a esperança eterna prometida em sua Palavra (Ap. 14:13).
Num primeiro aspecto, descansar em Deus é algo para ser vivido desde já, tendo paz em meio a toda desordem que o mundo possa apresentar (Rm. 14:17). Cristo nos deixou a sua paz, porque ela não está condicionada as coisas dessa era, sendo, antes, capaz de retirar o temor e toda confusão do nosso coração, mesmo em meio a tribulações (“deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”, Jo 14:27).
É essa a paz que nos faz deitar e dormir em sossego por estarmos seguros em Deus (Sl. 4:8). Ora, irmãos, se Ele nos dá a promessa da eternidade, por mais que a nossa natureza seja de autopreservação, temos a esperança de que, se algo acontece que nos ceifa até mesmo a vida, Cristo nos reserva um futuro ainda mais excelente. Isso é acalentador e igualmente mexe com a forma como lidamos com confiança no dia-a-dia, sabendo que há uma relação direta entre a promessa que guardamos com expectativa e o descanso que vivemos, mesmo na terra e em meio ao trabalho de Deus (Jo. 4:1-4) .
Aqui o nosso pensamento para servirmos com alegria e descanso em Jesus é crê que aquele que criou a própria vida, é capaz de nos fazer viver eternamente. João ao escrever seu evangelho baseado na criação o faz para nos mostrar isso ao dizer que no “princípio era o Verbo” e o Verbo era Jesus, que era Deus e criou tudo, pois “sem ele, nada do que existe teria sido feito”. E a “vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:1-4).
Autor: Luís Amorim
ABP Salvador – Aliança Bíblica de Profissionais
Fevereiro de 2019.
Crédito da imagem: UOL Notícias