27/10/2022
DIA DE FINADOS É DEDICADO, ESPECIFICAMENTE, ÀS REZAS QUE NOS FAZEM RELEMBRAR AS ALMAS DE TODOS OS NOSSOS AMADOS QUE JÁ ATRAVESSARAM OS PORTAIS DA MORTE. Porém, nada se finda, absolutamente nada se acabou. A morte é somente uma iniciação!
Todas as religiões, todas as filosofias têm tentado explicar a morte; bem poucas lhe têm conservado o verdadeiro caráter.
O Cristianismo divinizou-a; seus santos encararam-na nobremente, seus poetas cantaram-na por uma libertação. Entretanto, os santos do Catolicismo só viram nela a exoneração da servidão da carne, o resgate do pecado, e, por isso mesmo, os ritos funerários da liturgia católica espalham uma espécie de terror sobre essa peroração, aliás, tão natural, da existência terrestre.
A MORTE É, SIMPLESMENTE, UM SEGUNDO NASCIMENTO; DEIXAMOS O MUNDO PELA MESMA RAZÃO POR QUE NELE ENTRAMOS, SEGUNDO A ORDEM DA MESMA LEI.
Algum tempo antes da morte, um trabalho silencioso se executa. A desmaterialização já está começada. Poderiam verifica-la por certos sinais, quantos rodeiam o moribundo, se não estivessem distraídos pelos fatos externos. A moléstia goza aqui de papel considerável. Ela acaba em alguns meses, em algumas semanas, em alguns dias, apenas, o que o lento trabalho da idade havia preparado: é a obra de “dissolução” de que fala o Apóstolo Paulo. Essa palavra dissolução é muito significativa: indica nitidamente que o organismo se desagrega, e que o perispírito se “desliga” do resto da carne em que estava envolvido.
Que se passou nesse momento supremo, a que todas as línguas chamam “agonia”, isto é, o último combate? Pressente-se, advinha-se.
Um grande poeta moribundo traduziu tal instante solene neste verso: “É ESTE O COMBATE DO DIA E DA NOITE.”
Com efeito, a Alma entra em um estado crepuscular, no limite extremo, na fronteira dos dois mundos, e é visitada pelas visões iniciais daquele em que vai entrar. O mundo que deixa, envia-lhe os fantasmas da lembrança e todo um cortejo de Espíritos lhe aparece do lado da aurora.
Ninguém morre só, pela mesma forma que ninguém nasce só. Os invisíveis que o conheceram, que o amaram, que o assistiram aqui, em nosso orbe, vêm ajudar o moribundo a desembaraçar-se das últimas cadeias do cativeiro terrestre.
Nessa hora solene, as faculdades aumentam; a Alma, já meio surpreendida, dilata-se; começa a entrar em sua atmosfera natural, a retomar a vida vibratória normal, e é por isso que, nesse momento, se revelam, em alguns agonizantes, fenômenos curiosos de mediunidade.
A Bíblia está cheia dessas revelações supremas. A morte do patriarca Jacob é o tipo perfeito da desmaterialização e de suas leis. Os doze filhos estão reunidos em torno do leito, formando uma viva coroa funerária. O ancião recolhe-se e, depois de reconstituir o passado, as lembranças, profetiza a cada um deles o futuro da família e de sua raça.
A vista se lhe estende mais longe ainda: percebe na extremidade dos tempos aquele que deve um dia recapitular toda a mediunidade do velho Israel: o Messias, e mostra, por último rebento de sua raça, aquele que resumirá toda a glória da posteridade de Jacob.
Nenhum Faraó, em seu orgulho, morreu com tanta grandeza quanto esse velho obscuro e ignorado, que explicava a um canto da terra de Gessen.
Voltemos ao ato da morte. A desmaterialização está completa; o perispírito se desprende do invólucro carnal, que vive ainda algumas horas, talvez, de uma vida puramente vegetativa. Assim, os estados sucessivos da personalidade humana desenrolam-se em ordem inversa àquela que preside ao nascimento. A vida vegetativa, com que o ser havia começado no seio material, é agora a última a extinguir-se; a vida intelectual e a vida sensitiva são as duas primeiras que partem.
Que se passa então? O Espírito, isto é, a Alma e seu envoltório fluídico e, por consequência, o “eu” leva a última impressão moral e física que teve na Terra, e a conserva durante um tempo mais ou menos prolongado, conforme o grau respectivo de sua evolução. Eis porque convém rodear a agonia dos moribundos de palavras doces e santas, de pensamentos elevados, porque são estes últimos gestos, essas últimas imagens que se imprimem nas folhas do livro subliminal da consciência; é a linha última que o morto lerá desde sua entrada no Além, ou antes, desde quando tiver consciência de seu novo modo de ser.
A morte é, pois, em realidade, uma passagem, uma transição e uma translação. Se devemos tomar à vida moderna uma imagem, comparemo-la a um túnel. Com efeito, a Alma avança no desfiladeiro da morte, mais ou menos lentamente, segundo seu grau de desmaterialização e espiritualidade.
As Almas superiores, que sempre viveram nas altas esferas do pensamento e da virtude, atravessam essa obscuridade com a rapidez do trem expresso que desemboca, em um instante, na plena luz do vale, mas é esse um privilégio de pequeno número de Espíritos evoluídos; são os eleitos e os sábios.
Não falaremos aqui dos criminosos, dos seres animalizados, de instintos grosseiros, que viveram, ou antes, vegetaram toda uma existência nos pântanos do vício e na enxurrada do crime. Para estes é a noite, a noite cheia de terríveis pesadelos. (Texto do escritor e filósofo espírita Léon Denis – Casa Espírita Allan Kardec de São Sebastião do Pontal, Minas Gerais)