27/09/2022
CRIANÇAS - IBEJI – ERÊ - SÃO COSME E SÃO DAMIÃO - NÃO SÃO A MESMA COISA
No Brasil as cerimônias dedicadas ao Orixá Ibeji, por sincretismo, acontecem no dia 27 de setembro, dia consagrado a São Cosme e São Damião e também dia 12 de outubro, Dia das Crianças. Nestas datas, comidas associadas às crianças são oferecidas tanto aos Orixá como aos frequentadores dos Terreiros.
Uma criança pode nos mostrar o seu sorriso, a sua alegria e a sua felicidade, no seu falar, nos seus olhos brilhantes. A criança que temos dentro de nós nos mostra as recordações da infância. Quando fechamos os olhos e lembramos de um momento feliz, de uma travessura, da beleza de uma flor e de seu perfume, estamos vivendo ou revivendo uma lenda desse Orixá. Tudo aquilo de bom que nos aconteceu na nossa infância, foi regido, gerado e administrado por Ibeji, portanto, já viveu todas as felicidades e travessuras que todos nós, seres humanos, vivemos. Ibeji é tudo o que existe de bom, belo e puro.
Criou-se uma confusão com as palavras Erê e Ibeji, evidenciando que há uma relação, mas não se trata da mesma coisa. O Erê é o estado intermediário entre a pessoa e seu Orixá, é o aflorar da criança que cada um guarda dentro de si. Reside no ponto exato entre a consciência da pessoa e a inconsciência do Orixá. É de suma importância durante o ritual de iniciação, pois é ele que, muitas das vezes, trará as várias mensagens do Orixá do recém-iniciado.
O Erê aparece instantaneamente logo após o transe do Orixá. É o responsável por muita coisa e ritos passados durante o período de reclusão, conhecendo todas as preocupações do iniciado. Não pode ser confundido com uma criança, cuja nomenclatura em yorubá é omodé. O comportamento do iniciado em estado de Erê é mais influenciado por certos aspectos de sua personalidade do que pelo caráter rígido e convencional atribuído a seu Orixá. É por meio dele que o Orixá expressa sua vontade, que o iniciado aprende as coisas fundamentais da tradição religiosa, como as danças e os ritos específicos dele. Exerce muitas outras funções, pois virado no Erê, pode-se levar a fazer as funções fisiológicas do médium, transportá-lo ou conduzi-lo, se for o caso
Erê, normalmente, é muito irrequieto, barulhento, às vezes brigão, manhoso e involuntário.
Em algumas casas de Candomblé e Batuque são referidos como Erês ou Asêros que se manifestam após a chegada do Orixá.
Ibeji é o Orixá-Criança, em realidade, duas divindades gêmeas infantis, ligadas a todos os Orixás e seres humanos. Dá-se o nome de Taiwo ao primeiro gêmeo gerado e o de Kehinde ao último.
A palavra Igbeji que dizer gêmeos e o Orixá Ibeji é o único permanentemente duplo, formado a partir de duas entidades distintas que coexistem, respeitando o princípio básico da dualidade. Por serem crianças, são ligados a tudo que se inicia e nasce: a nascente de um rio, o nascimento dos seres humanos, o germinar das plantas, etc.
Na África, as crianças representam a certeza da continuidade, por isso os pais consideram seus filhos sua maior riqueza. Ibeji na nação Ketu, ou Vunji nas nações Angola e Congo é a divindade da brincadeira, da alegria e a sua regência está ligada à infância.
Ibeji está presente em todos os rituais do Candomblé pois, assim como Exu, se não for bem cuidado pode atrapalhar os trabalhos com as suas brincadeiras infantis, desvirtuando a concentração dos membros de um Terreiro. A sua determinação é tomar conta desde bebe até à adolescência, independentemente do Orixá que a criança carrega.
É um Orixá duplo e tem seu próprio culto, obrigações e iniciação dentro do ritual. Divide-se em masculino e feminino. Protegem os que ao nascer perderam algum irmão (gêmeo) ou tiveram problemas de parto.
As Crianças são a alegria que contagia a Umbanda! Manifestam-se nos Terreiros simbolizando a pureza, a inocência e a singeleza. Seus trabalhos se resumem em brincadeiras e divertimentos. Podemos pedir-lhes ajuda para os nossos filhos, resolução de problemas, fazer confidências, requisitar respostas e clareza para nossas dúvidas. Estas entidades, apesar da aparência frágil, conseguem atingir o seu objetivo com uma força imensa, atuam em qualquer tipo de trabalho, mas são mais procurados para os casos de família e gravidez.
Na Umbanda vemos a diferença entre as entidades e as divindades. A Criança apresenta-se numa manifestação de um espírito cujo desencarne normalmente se deu em idades infanto-juvenis. São tão barulhentos como os Erês, embora alguns sejam bem mais tranquilos e comportados.
São espíritos que já estiveram encarnados na Terra e que optaram por continuar sua evolução espiritual através da prática de caridade. Em sua maioria, foram espíritos que desencarnaram com pouca idade (terrena), por isso trazem características de sua última encarnação, como o trejeito e a fala de criança, o gosto por brinquedos e doces.
Ibeji, Ibeijada, Erês, Dois-Dois, Crianças, são esses vários nomes para essas entidades que se apresentam de maneira infantil. Assim como todos os servidores dos Orixás, elas também têm funções bem específicas e, a principal delas é a de mensageiro dos Orixás, sendo extremamente respeitados pelos Caboclos e pelos Pretos Velhos.
É uma falange de espíritos que assumem em forma e modos, a mentalidade infantil. Como no plano material, também no plano espiritual, a criança não se governa, tem sempre que ser tutelada. Na representação nos pontos riscados, Ibeji é livre para utilizar o que melhor lhe aprouver. A linha de Ibeji é tão independente quanto à linha de Exu.
Quando incorporadas em um médium, gostam de brincar, correr e fazer brincadeiras (arte) como qualquer criança. É necessária muita concentração do médium. Os pedidos feitos a uma criança incorporada normalmente são atendidos de maneira bastante rápida. Entretanto a cobrança que elas fazem dos presentes prometidos também é.
A Festa de Ibeji ou Cosme e Damião, é muito concorrida em quase todos os Terreiros do pais. No Brasil, o culto de São Cosme e São Damião - os médicos gêmeos e por isso padroeiro nas confrarias médicas, foi iniciado nos primórdios da nossa colonização, através da religião católica (na época, oficial) com a construção em 1530, de uma Igreja em Igarassu, no Pernambuco, a qual ainda existe.
Os festejos têm duração de um mês, iniciando a 27 de setembro (São Cosme e São Damião), passando por 12 de outubro, Dia das Crianças e terminando a 25 de outubro (São Crispim e São Crispiniano), pelo sincretismo que houve destes Santos católicos com Orixá Ibeji.
Nas festas de Ibeji, que tiveram origem na Lei do ventre-Livre, promulgada em 28 de setembro de 1871, pela Princesa Isabel, desde aquela época até nossos dias, são servidos às crianças um "aluá" ou água com açúcar ou bebidas doces (guaraná, refrigerantes), bem como o tradicional Caruru das Crianças.
Muitas entidades que atuam sob as vestes de um espírito infantil, são muito amigas, conselheiras, curadoras e têm mais poder do que imaginamos.
Esses seres, mesmo sendo puros, não são tolos, pois identificam muito rapidamente nossos erros e falhas humanas. Não se calam quando em consulta, pois nos alertam sobre eles.
A Falange das Crianças, embora brinquem, dancem e cantem, exigem respeito para o seu trabalho, pois atrás dessa vibração infantil, se escondem espíritos de extraordinários conhecimentos.
Dia: Domingo
Cores: Verde e Vermelho como base, Azul, Rosa e todas as cores
Elemento: Ar
Domínios: Nascimento e Infância
Comidas: Caruru, Frango, Feijão Fradinho, Cocadas, Doces diversos
Bebidas: Água com mel, Água com açúcar, Suco de frutas, Guaraná
Fio de contas: Azul e rosa ou todas as cores menos preto
Animais: Galinha, Pombo, Codorna
Símbolos: 2 Bonecos Gêmeos, 2 Cabacinhas
Flores: Rosa, Cravo, Jasmim
Saudação: Bejê ó ró! ou Oni Ibejada!
Mãe Liliana d´Oxum
Bibliografia:
– Cacciatore, Olga Gudolle, Dicionário dos Cultos Afro Brasileiros (1977);
- Comunidade da Pedra Branca – Apostila 1986;
- Comunidade da Pedra Branca – Apostila de Estudo e Formação, 1999;
– Verger, Pierre, Deuses Iorubas na África e no Novo Mundo (1981).