08/03/2026
Dia 08 não é um dia confortável.
Não deveria ser leve.
Não deveria caber apenas em uma foto com flores e filtro bonito.
O 8 de março é um dia de encarar aquilo que muita gente prefere não sustentar no olhar.
Em 2025, somente no estado de São Paulo, foram 266 feminicídios registrados, o maior número desde que o crime passou a ser contabilizado. No Brasil, aproximadamente 1.470 mulheres foram assassinadas em um único ano. Quatro por dia.
E é importante dizer algo com clareza: esses são apenas os casos registrados.
São os que viraram boletim de ocorrência, inquérito, processo, estatística.
Eles não contam cada tapa que nunca foi denunciado.
Não contam cada estupro silenciado, cada humilhação diária dentro de casa, cada controle financeiro que aprisiona.
Não contam cada chantagem emocional que destrói.
Os números oficiais não medem o medo, o trauma e nem o silêncio.
E eu afirmo com a segurança de quem observa o mundo ao redor:
eu não conheço NENHUMA mulher próxima que nunca tenha sofrido algum tipo de violência ou abuso. Nenhuma.
Seja física, psicológica, sexual.
Seja aquela violência “pequena” que dizem não ser nada, mas que corrói por dentro.
E ainda assim há quem diga que é exagero.
Que é vitimismo.
Que “nem todo homem”.
Não… nem todo homem.
Mas quase toda mulher.
Muitas das mulheres assassinadas tinham medida protetiva. Denunciaram. Pediram ajuda. Fizeram o que mandaram fazer. E ainda assim morreram. O número de pedidos de proteção cresceu quase 1.000% em dez anos. Isso não é exagero. É desespero.
E essa violência não surge do nada.
Ela começa nas pequenas coisas que ainda são toleradas.
Na piada machista que todo mundo ri.
No amigo que desrespeita mulheres e continua sendo convidado para a mesa.
No comentário que reduz a mulher a objeto ou a futilidade.
E aqui entra uma responsabilidade que muitos homens ainda evitam assumir: se posicionar.
Porque quando um homem agride uma mulher, ele não surgiu assim do nada, ele foi permitido, foi protegido, foi silenciado por outros homens. Foi relativizado por uma cultura que ainda acha que mulher precisa se comportar para não provocar.
Porque quem cala, também permite.