Em 2016, um grupo de evangélicos escolheu agir em contraposição ao massivo apoio da igreja brasileira ao que entendemos ser um golpe de Estado – a deposição da presidenta Dilma Rousseff. Desde então, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito tem atuado na denúncia do estado de exceção sob o qual estamos e do qual não nos livramos simplesmente pela realização das últimas eleições. Autoexílio,
prisões políticas e condenações injustas, frequente instrumentalização política do poder judiciário, uso sistemático da mentira, especialmente no contexto eleitoral; crescente participação militar nas instâncias de poder e multiplicação de discursos e práticas de ódio visando intimidar e calar os defensores dos direitos humanos compõem um grave quadro de corrosão da democracia e de fragilização das instituições republicanas. Tudo isso a serviço de um projeto iníquo de retirada de direitos do povo trabalhador, crescentemente privado do pão e do futuro. A Frente está presente na maioria dos estados brasileiros e organiza milhares de irmãos e irmãs na luta por um Estado de Direito inclusivo, igualitário, justo e generoso. Por questão de fé:
- Mobilizamo-nos contra as desigualdades de classe, raça e gênero; contra as diversas formas de feminícidio, de genocídio dos negros e indígenas; contra a lgbtfobia; contra a intolerância religiosa e no combate a todas as formas de discriminação, opressão e violência;
- Atuamos contra a exploração predatória dos recursos naturais e a mercantilização da terra, da água e do ar; contra quaisquer modelos de desenvolvimento pautados no extrativismo insustentável e que desequilibrem as relações entre humanos e outras formas de vida;
- Enfrentamos os retrocessos sociais, promovidos pela elite política em sua associação às elites econômicas. Ambas instrumentalizam o Estado para perpetuar a exploração capitalista, retirar direitos sociais e escravizar o pobre. E professamos, em atitude confessional, que:
- Pecam contra Deus todos aqueles que ofendem o próximo e todos aqueles que ignoram, por ação ou omissão, a dignidade da Criação;
- Cremos em uma sociedade plural e afirmamos a laicidade como princípio fundamental à nossa convivência;
- A paz é fruto da justiça (Is. 32:17). A justiça do Reino de Deus é uma realidade em que todos desfrutam igualmente de tudo aquilo que Deus é e de tudo que Ele nos doa. É tarefa especial do Estado promovê-la;
- Servir ao Senhor neste tempo e lugar é insurgir-se contra os poderes da morte e da escravidão, mesmo que eles tenham aparência de piedade. Neste período, nos fazemos Palavra de Deus em todas Galileias do Brasil, em todos contextos de violência e injustiça e buscamos unidade nas lutas:
- Oferecemos apoio e celebramos a resistência junto ao povo de Deus nas ocupações e nos movimentos de moradia; nas favelas; nas roças e nos territórios militarizados;
- Buscamos aproximação com as parcelas organizadas da classe trabalhadora nos sindicatos, somando forças na campanha contra a reforma antipopular da previdência;
- Estabelecemos diálogo com as universidades, trocamos conhecimentos e alcançamos sínteses sobre a conjuntura brasileira, o fenômeno evangélico e os desafios comuns;
- Valorizamos a unidade democrática em torno da defesa da cidadania. Compomos articulações amplas na construção de um projeto de sociedade, na qual todos tenham condições dignas de vida, como disse Jesus em Mateus 25: 31-40. O Brasil vive uma transição religiosa e assiste à ascensão da direita evangélica. Seus grupos organizam uma bancada parlamentar, bloqueiam o avanço dos direitos humanos, manipulam imensos rebanhos por meio de pautas moralistas e a venda de soluções falsas ao povo. Tem sido assim também em diversos outros países do mundo. No entanto, descobrimos, dia após dia, que há espaço crescente para a sensibilização política e a organização desse segmento. Infelizmente, parte do campo democrático-popular ainda não reconhece a necessidade de aproximação com o povo evangélico, à exceção das ocasiões eleitorais. Nesse contexto, a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito busca firmar uma cisão na igreja brasileira e conclamar o povo de Deus ao arrependimento. Em nossa missão de proclamação, são tarefas incontornáveis:
- Combater a cultura de poder dentro das igrejas;
- Desconstruir o conservadorismo moral evangélico como regra pública;
- Contrariar o individualismo baseado na teologia da prosperidade. Reiteramos a defesa permanente do Estado laico, a transformação da cultura política brasileira, o fomento à consciência crítica acerca da defesa dos direitos assentada em um projeto político popular que garanta vida abundante para todos. Em nossa caminhada, desempenhamos um testemunho público que é confrontador dos poderosos; formativo, ancorado em princípios bíblico-políticos e empoderador daqueles que já discernem o Corpo. Mas a profecia está incompleta se for apenas a denúncia da opressão e da injustiça como pecado; sua realização requer também o anúncio esperançoso e engajado do juízo de Deus e os horizontes históricos de Seu Reino de amor, verdade e justiça. Por isso temos priorizado o trabalho de base na educação em direitos humanos e disputa da leitura bíblica; a nucleação territorial nas periferias; a elaboração de materiais de formação; bem como consideramos a identificação estética, própria da natureza do que é belo, entre fé e política, incorporando linguagens artísticas e recuperando a memória política do protestantismo nacional. Em meio às trevas próprias das ditaduras, há sinais de libertação. A mentira não é imune ao martelo da realidade. A Frente reitera seu compromisso com a reconstrução, em patamares mais avançados, do Estado de Direito no Brasil para que impere a justiça. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão satisfeitos.