19/06/2020
"Caros irmãos, uma dimensão desta Solenidade é a reparação. Cristo reparou os pecados cometidos (cf. Hb 2, 17), e nós podemos 'pagar' as ofensas contra o seu Coração apresentando a Deus amor, onde há ódio e vingança; pureza de coração, onde há devassidão e ganância; piedade e adoração, onde há desprezo e ateísmo. O Coração não é só um órgão, mas é o amor que se deixou transpassar para fora de seu Coração, ardente de caridade.
A Liturgia teve boas razões para escolher como Evangelho deste dia esse trecho de São Mateus. Jesus fala explicitamente de seu Coração, que é manso e humilde. Jesus põe a humildade e a mansidão como condições para compreender sua pessoa e sua missão. O Coração de Cristo não exclui ninguém mas, do mesmo modo, que uma planta não cresce sobre a pedra, também a pessoa humana não se embebe de Deus, não cresce em santidade e não caminha para o céu, se não for humilde e mansa.
Jesus sabe - e cada um de nós tem uma experiência pessoal - que a vida apresenta seus fardos pesados e momentos de grande fadiga. Ele, então, se põe à disposição para nova força, se põe à disposição para encurtar distâncias e nos pede o evidente: um coração manso e humilde. Coisa evidente porque o orgulhoso jamais se deixa ajudar e jamais se deixa ensinar. Esses são os 'sábios' e 'entendidos' que Jesus afirma que Deus não revela seus mistérios. Na verdade, incapazes de compreender e avaliar 'a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo' (cf. Ef 3, 18-19).
É exatamente esta plenitude de amor que nós contemplamos no Sagrado Coração, que a ladainha chama inclusive de fornalha ardente de caridade. Fornalha que pode destruir nossos pecados, fornalha do fogo divino que Jesus veio trazer e que tanto ansiou que incendiasse o mundo (cf. Lc 12, 49). Jesus no início do Evangelho ouvido convida a todos a participar do Reino: 'Vinde a mim...' (cf. Mt 11, 28). São João Crisóstomo, ao comentar esse convite diz: 'Não só os chefes, mas também os súditos; não só os ricos, mas também os pobres; não só os livres, mas também os escravos; não só os homens, mas também as mulheres; não só os jovens, mas também os velhos; não só os sadios, mas também os doentes'.
É assim que o salmo de hoje expressa esse amor de Cristo pelos homens: 'O amor do Senhor Deus por quem o teme, é de sempre e perdura para sempre' (cf. Sl 102(103). Quem ama não é mais escravo da Lei, mas súdito do amor, monarca absoluto, verdadeiramente autônomo. O Coração de Jesus tinha diante de si os seus discípulos, mas a sua palavra ia mais além. Falava da sua Igreja e dizia: 'Vós todos que sofreis, vós todos que estais em aflição, vinde e Eu vos aliviarei'. Vós todos, em todos os tempos, vinde, e Eu vos aliviarei. Vinde, só temos que dar um passo. Vinde com confiança. Vinde todos. O Sagrado Coração que que as pessoas se assemelhem a Ele. Vamos com Maria, fazer a oferta da nossa generosidade. Vinde com paciência. Vinde ainda com perseverança. É assim o Coração de Cristo: atrativo dos nossos corações.
O aspecto do mistério da salvação que celebramos hoje não é muito diferente do que celebramos há uns dez dias atrás, o domingo da Trindade. 'Deus é amor', repete São João, como um refrão, na segunda leitura da Missa de hoje (cf. 1Jo 4, 8.16). Estas três palavras resumem todo o mistério das relações entre Deus e a humanidade. Já no Antigo Testamento, o povo hebreu havia percebido como era amado de modo particular por Deus e permanecia fascinado pela gratuidade deste amor, em primeiro lugar, e em seguida, pela fidelidade de Deus a este amor a despeito de todas as infidelidades de seu povo.
Caros irmãos, quem quer que ame verdadeiramente sabe que o amor é exigente. É para aqueles que desejam andar em seu seguimento, isto é, tornar-se seus discípulos e viver segundo seu ensinamento, que ele revela os segredos do Pai que permanecem ocultos aos sábios e entendidos. Ele próprio se apresenta como doce e humilde de coração. Israel descobre o amor e a ternura de Deus, não a partir de reflexões abstratas, mas a partir das vicissitudes da sua caminhada histórica. Deixar-nos amar pelo Senhor com ternura é difícil, mas é o que devemos pedir a Deus.
O amor de Deus por todos os viventes é universal. Se a vida tem os seus percalços, as suas dificuldades, os seus problemas, e Deus tem consciência disso, devemos olhar o amor de Deus por nós, que nos acolhe, que nos ama e que nos dá a força necessária para passarmos pela noite escura. Ninguém está excluído da salvação. Ninguém está excluído da redenção. Para isso, o Coração do Cristo nos pede é que sejamos como as crianças: sem maldade, sem orgulho da autossuficiência, sem a exigência violenta de quem se julga dono do mundo".
Reflexão sobre a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus.
Diác. Emerson Aguiar, MS.