22/04/2018
O SENTIDO DA ROTINA
“Em toda labuta há lucro, mas falatórios só levam à escassez.” (Pv 14:23)
Vivemos em looping: {comer(); dormir();trabalhar();repetir();}. Como escravos obedientes, nos submetemos aos caprichos do cotidiano e, nos passos de Sísifo, rolamos problemas apenas para vê-los caindo novamente sobre nós. Essa sensação de não chegar a lugar algum nos faz duvidar que exista sentido na vida. Mas não é a nossa rotina que produz estagnação, são nossas escolhas.
Por causa das duras condições agrícolas em Israel e Judá, era fácil pensar que o trabalho rotineiro não levava a lugar algum (Sl 127:2). Esse ditado rompe com essa ideia, dizendo que a “labuta” (heb. ʿeṣeb, Pv 10:10, 22), esse esforço rotineiro no cultivo da terra (Gn 3:17; 5:29) tinha propósito. Ainda que cansativa, ela gerava excedente, “lucro” (heb. mōwtār, Ex 29:34; Dt 28:11).
O que certamente não levava a lugar algum eram os “falatórios”(heb. ûdĕbar-śĕpātayim, lit. “palavras dos lábios”). Falatórios eram palavras vazias e mentirosas, sem serventia (Is 36:5; Sl 59:12). Os que agiam assim, ao invés de lucro, geravam “escassez” (heb. mǎḥsōwr) para si mesmos. Afinal, não lavrar a terra cujo cultivo é difícil, só podia ter um resultado: a fome (Pv 10:4; 20:4).
Hoje a rotina virou vilã. Na sociedade do descarte, cremos que só a novidade pode gerar sentido e mudança de vida, sejam iGadgets, filmes de Hollywood ou relacionamentos. Mas esses são os Sísifos de hoje: aqueles aprisionados em falatórios e especulações, incapazes de seguirem com a vida. Não despreze os pequenos e duradouros avanços que a labuta rotineira pode gerar em você.
[Silas Klein]