06/05/2026
Eu poderia falar de qualquer entidade da minha mãe. Vivenciei várias histórias com todas elas, mas escolhi falar de Mãe Maria de Angola.
Era uma sexta-feira, 13 de maio de 1977, e à noite teríamos uma festa de Pretos Velhos. Passei o dia cozinhando: fiz tutu de feijão, assei dois bolos e, no final da tarde, por volta das 17 horas, preparei o café.
Tocou a campainha. Eu estava sozinha em casa. Atendi e era uma senhora pretinha, de cabelos brancos presos em um pequeno coque. Ela me pediu uma caneca de água. Abri o portão e ela se sentou na lateral da pequena escada.
Voltei com a caneca e, enquanto ela bebia, ofereci um café fresquinho e uma fatia de bolo. Ela agradeceu, mas não quis. Insisti, mas ela recusou novamente. Agradeceu, disse “Deus te abençoe” e saiu.
Enquanto ela se afastava a casa era quase na esquina da Rua Fernão Tavares com a Rua Tuiuti, fiquei no muro olhando. Quando estava chegando na esquina, ela virou, me olhou e disse:
— Fia, de noite, quando eu voltar, eu bebo o café e como o bolo!
E virou na esquina.
Corri descalça, mas quando cheguei lá, ela já tinha desaparecido.
Fiquei quieta. Não contei para ninguém conforme as pessoas iam chegando, muito menos para minha mãe, que tinha ido ao supermercado.
Quando a festa começou, Mãe Maria foi a primeira a chegar, como sempre. Nos abençoou, se sentou, olhou para mim e disse:
— Nhã nhã (como ela sempre me chamou), agora a nega véia aceita aquele café e o pedaço do bolo que ocê me ofereceu!
Quase desmaiei.
Chorei por horas.
E até hoje, quando conto essa história, lembro de cada detalhe e choro novamente.
Vou sentir saudades o resto da minha vida daquela preta velha que me abençoava, me ouvia, me aconselhava, me orientava e tinha o melhor abraço do mundo.
A bênção, sempre, Mãe Maria de Angola.
Com amor sua Nhãnhã