30/04/2026
LIVRO: NA PRÓXIMA DIMENSÃO
CARLOS ALBERTO BACCELLI
DITADO PELO ESPÍRITO INÁCIO FERREIRA CAPÍTULO 1
Ora, eu estava morto e, no entanto, da vidraça em que observava o
movimento lá fora, a paisagem humana, em quase tudo, me lembrava o mundo que eu havia deixado... Será que eu o havia deixado mesmo? Era a pergunta que, por vezes, me visitava o pensamento. Eu não habitava nenhuma região
etérea, feita, como imaginava, de matéria quintessenciada; aos meus sentidos,
tudo era quase igual, inclusive eu, que pouco me modificara em minha
intimidade. Nos primeiros tempos de Vida Espiritual, sentira-me, sim, mais leve
e mais bem disposto, mas agora, que me integrara de vez na nova realidade, não conseguia constatar em mim tantas diferenças: eu continuava sendo o mesmo Inácio, com o mesmo sangue a correr em minhas veias... Passada a euforia da desencarnação, a Lei da Relatividade se encarregava de fazer com que a vida voltasse ao normal; de onde passara observá-las, as estrelas — sem exagero algum de minha parte — me pareciam ainda mais distantes... A rigor, eu não saberia dizer se me havia aproximado ou distanciado da Luz! De
fato, para os que morrem, a morte não encerra mistério algum; a nossa única expectativa que não se frustra é a que se refere à sobrevivência. Quanto ao mais...
Para lhes dizer a verdade, eu estava tendo que me esforçar para não ser
indiferente aos amigos que deixara — amigos e familiares, inclusive, às coisas que me haviam ocupado a existência inteira e que, então, me pareciam de suma importância. Logo que me sucedeu o desenlace físico, o meu espírito
não lograra desapegar-se do que prosseguia concentrando-me a atenção: eu era então um náufrago que não queria largar a tábua de salvação; mesmo na
condição de espírita, o Desconhecido, que se me escancarara, me infundia
medo, pavor... Num rápido retrospecto, a consciência não me absolvia de todo
e eu tinha receio de afastar-me, ou seja, de perder contato para sempre com tudo que eu havia sido. A condição de médico e Diretor Clínico do Sanatório Espírita de Uberaba, de certa forma, me resguardava e era o único valor ao qual eu podia recorrer, caso houvesse necessidade.
Ainda lutando para me adequar à nova realidade, quando vi que a minha
biblioteca estava sendo desfeita — o recanto em que eu passava a maior parte do meu tempo ocioso —, provoquei um encontro espiritual com Chico Xavier e,
por via mediúnica, solicitei àquela que fora minha esposa no mundo que não continuasse dispersando os meus livros: eu ainda necessitava deles, não para compulsá-los, mas é que, depois de perder o corpo, a sensação de perda que nos acomete é muito grande, para que nos conformemos em perder mais alguma coisa. Por que procurei Chico Xavier? É simples. Se eu tivesse
recorrido a outro medianeiro para o meu recado à companheira, é possível que ela tivesse duvidado da autenticidade do fenômeno e, além do mais, para enviar a ela uma mensagem através de um outro médium eu teria que trabalhar
a sintonia e não sei quanto tempo semelhante providência me consumiria... O
espírito não é um mágico e, muito menos, o médium, embora muitos deles, dos médiuns, confundam mediunidade com alguma espécie de magia.
Mas, voltando à vidraça que me permitia olhar o pátio do grande hospital,
cuja direção, no Mais Além, estava sob a minha responsabilidade (eu não sei quando é que vou me livrar deste carma!), quase me convencia de que aquilo era uma edição melhorada do velho Sanatório, que eu dirigira por mais de 50
anos. Alguns dos pacientes que eu tratara na Terra estavam internados ali — e, na minha ingenuidade espírita, eu devaneava em que a desencarnação
fosse uma espécie de pá de cal sobre as nossas provas... A cura do espírito, sem dúvida, era mais complexa do que supunha. Bendita a Reencarnação, bendito o Esquecimento!... Não fosse, digamos assim, o choque psíquico que a
reencarnação promove no espírito, o despertar da consciência não aconteceria
e a cura definitiva dessa doença chamada imperfeição jamais se consumaria.
Existem espíritos que, insanos no Mundo Material, continuam insanos no Mundo Espiritual, à espera de um novo corpo que, para nós outros, funciona como
uma espécie de incubadeira...
Eu rejuvenescera, é verdade, e, principalmente, largara o hábito de fumar, mas, confesso-lhes, me incomodava ser ainda o mesmo Inácio, sem a
mínima possibilidade de subir um centímetro a mais na escala indefectível dos
valores espirituais podia, sim, volitar, mas tão-somente da Dimensão em que
me encontrava para baixo, e vice-versa... Se eu quisesse ascender, com certeza teria que me prevalecer de uma máquina que me conduzisse, anulando
o peso do meu corpo espiritual na gravidade — na minha opinião, a mais sábia das Leis do Criador.
Às vésperas de desencarnar, eu pensava assim:
Quando eu me libertar deste fardo que me oprime, poderei, livre, como os pássaros, adejar o firmamento, e o Incomensurável, para mim, não terá o
menor sentido; visitarei outros orbes, físicos e extra-físicos, e manterei contato com outros habitantes das diversas moradas da Casa do Pai...
Ledo engano! Sem dúvida, a nossa linguagem comum é a do
pensamento, todavia nos espíritos que povoam Dimensões Superiores o
idioma é mais erudito e não conseguimos interpretá-lo com facilidade: “falam”
tão rapidamente e de forma tão sintética, que não lhes acompanhamos a velocidade do raciocínio... Não estranhem que seja assim. Num mesmo país,
como, por exemplo, no Brasil, todos falam a língua pátria, no entanto aqueles que se situam nos extremos da cultura se expressam de maneira quase ininteligível para os demais. O homem de conhecimento mediano não saberá o que um adolescente das favelas do Rio de Janeiro diz com os seus termos de
gíria, nem tampouco entenderá aquele que somente se expressa com palavras
dicionarizadas; os chamados “grafiteiros”, com os seus modernos hieróglifos, talvez sejam precursores de uma linguagem escrita constituída de sinais...
O certo é que eu continuava sonhando com as Dimensões Superiores —tão-somente sonhando... Tudo que havia feito na Terra não fora suficiente para
me facilitar o acesso às regiões onde a dor não se revela ainda tão humana.
Espero que os meus leitores, mormente os espíritas, não considerem
desalentadoras estas minhas palavras; existem companheiros de Doutrina que estimam sonhar com “Nosso Lar”, a colônia espiritual a que André Luiz se refere em um de seus magníficos trabalhos enviados ao mundo. Não, os
espíritas não devem trocar o Céu dos católicos pela região espiritual de “Nosso
Lar”, cidade que se localiza nas vizinhanças do orbe, muito distante de servir de parâmetro para as organizações situadas noutras Dimensões, inclusive
àquelas que se erguem nas faixas do Umbral.
Imerso nestas reflexões, escutei que alguém batia à porta do meu gabinete — sim, por aqui ainda temos portas e gabinetes, e, quando visitamos
alguém, necessitamos fazer-nos anunciar.
— Olá, Inácio! — saudou-me o amigo Odilon Fernandes, aparecendo
para uma visita.
Como é que está você?...
Além do que mereço, mas aquém do que careço — respondi, sem perder o hábito de fazer trocadilhos.
— Então, você está igual a mim — redargüiu com descontração. — A
maior surpresa da morte, depois da constatação da própria imortalidade, é, sem dúvida, a de que não passamos de seres humanos, limitados por dentro e por fora...