30/06/2026
JACI CORREIA MARASCHIN
Sacerdote, músico e mestre de uma liturgia brasileira
“Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; louvarei ao meu Deus enquanto existir.” Salmo 104:33
Jaci Correia Maraschin nasceu em 12 de dezembro de 1929, em Bagé, no Rio Grande do Sul, e faleceu em 29 de junho de 2009. O nome Jaci, de origem tupi (yacy/îasy), remete à lua. Sacerdote da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, educador, teólogo, escritor, poeta, músico, compositor, tradutor e professor universitário, levou para dentro da Igreja uma pergunta simples e difícil: como celebrar a fé com palavra, corpo, música, pensamento, beleza e povo reunido?
Sua formação começou pela música. Estudou piano, teoria musical e composição. Em 1951, ingressou no Seminário Teológico da Igreja Episcopal do Brasil; concluiu o bacharelado em Teologia em 1953 e foi ordenado diácono naquele mesmo ano, em Porto Alegre. Em 1954, recebeu a ordenação presbiteral. Seguiu para o General Theological Seminary, em Nova York, onde concluiu mestrado em Teologia, em 1956, e aprofundou estudos de canto gregoriano. Mais tarde, formou-se em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorou-se em Ciências da Religião pela Universidade de Estrasburgo.
Maraschin trabalhou em muitos lugares onde a Igreja pensava, cantava e formava gente. Ensinou no Seminário Anglicano, colaborou com a educação cristã da IEAB, participou da vida teológica ecumênica brasileira, ajudou a fundar e fortalecer a ASTE, atuou no Instituto Anglicano de Estudos Teológicos e formou ministros, pastores, pesquisadores, músicos, liturgistas e comunidades. Na Universidade Metodista de São Paulo, dedicou muitos anos à formação acadêmica em Ciências da Religião, acompanhando pesquisas sobre liturgia, música, corpo, arte, símbolo, ecumenismo, hermenêutica e cultura.
Sua contribuição litúrgica nasceu de uma convicção concreta: o culto envolve a pessoa inteira. Celebrar, para ele, não era preencher uma ordem de serviço, cumprir cerimônia ou repetir formas recebidas. Era reunir o povo diante de Deus com palavra, silêncio, gesto, espaço, canto, memória, beleza, justiça e participação comunitária. Maraschin conhecia a tradição, mas não a tratava como peça imóvel. Queria uma liturgia com raiz, capaz de respirar no chão brasileiro.
Na música, sua presença marcou o canto litúrgico brasileiro. Participou da comissão do hinário oficial da IEAB, compôs, traduziu, adaptou e organizou repertórios. O Novo Canto da Terra tornou-se uma obra importante para a renovação litúrgico-musical entre anglicanos e também em ambientes ecumênicos. Para Maraschin, o canto congregacional era parte da teologia da assembleia. Quando a comunidade canta, ela aprende, confessa, recorda, celebra e se reconhece como corpo.
Suas canções também circularam fora da IEAB, em repertórios, publicações, encontros e celebrações de diferentes igrejas. Sua presença em espaços ecumênicos, inclusive em instâncias ligadas ao Conselho Mundial de Igrejas, colocou sua obra numa conversa mais ampla sobre fé, cultura, liturgia e unidade cristã. Ele pensou a partir do Brasil, atento ao idioma, ao corpo e à música de seu povo, sem fechar essa escuta dentro de fronteiras pequenas.
Como teólogo, Maraschin aproximou tradição anglicana, filosofia contemporânea, hermenêutica, crítica social, teologia da libertação, literatura e artes. Sua escrita sabia que a linguagem religiosa empobrece quando tenta dominar o mistério. Por isso recorreu à poesia, ao símbolo e à estética. Não como adorno. Como modo legítimo de pensar a fé. Em sua obra, teologia e vida sensível caminham juntas: corpo, música, mesa, palavra dita, palavra cantada, silêncio.
Essa atenção ao corpo talvez seja uma de suas contribuições mais necessárias. Maraschin insistiu que a fé cristã passa pelo modo como se canta, escuta, caminha, celebra, reparte a ceia, organiza o espaço e acolhe a beleza. A liturgia forma a comunidade inteira. Forma a inteligência, mas também o gesto. Forma a memória, mas também a sensibilidade. Forma a doutrina, mas também o modo de estar diante de Deus e das pessoas.
Seu ecumenismo seguiu esse mesmo caminho. Unidade cristã, para ele, exigia escuta, reconhecimento, mesa comum, palavra partilhada e disposição para aprender com outras tradições. Maraschin foi anglicano com densidade, brasileiro sem folclore, ecumênico sem apagar diferenças. Sua obra ajudou a pensar uma fé capaz de dialogar com a cultura sem perder espessura espiritual.
Como poeta e escritor, deixou livros e ensaios que ainda pedem leitura atenta. A beleza da santidade, O espelho e a transparência, Igreja a gente vive, A (im)possibilidade da expressão do sagrado e outros textos atravessam liturgia, corpo, arte, sagrado, cultura, anglicanismo, pós-modernidade, liberdade, estética e experiência religiosa. Maraschin não escreveu para facilitar demais a fé. Escreveu para impedir que ela fosse reduzida a fórmula, costume ou administração religiosa.
Sua memória f**a nas comunidades que cantam, celebram e pensam a liturgia como vida partilhada. F**a onde a música não é acessório, onde a beleza não é luxo, onde a tradição não sufoca a criatividade, onde a palavra teológica ainda conversa com a poesia, onde o culto se abre à justiça, ao corpo e à cultura do povo.
Jaci Correia Maraschin foi mestre da fé porque ensinou sem estreitar. Foi músico porque escutou a terra. Foi sacerdote porque celebrou a vida diante de Deus. Foi teólogo porque soube pensar com a palavra, com o canto, com o silêncio e com a beleza.
Que nossa fé seja canto. Que a poesia nos ensine a celebrar. Que o serviço floresça em cada gesto. Que a Igreja reaprenda, com Maraschin, que celebrar é estar diante de Deus com o corpo, com a terra e com a comunidade.
“Queria dizer que ‘somos o que cantamos’. Talvez até mais, ‘como cantamos’.” — Jaci Correia Maraschin