23/08/2026
Pe. Samuel Pereira Viana
HOMILIA NO XXI DOMINGO COMUM A
Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Cristo!
Irmãos e irmãs, hoje novamente o Senhor nos coloca diante de sua sempre atuante Providência. Mesmo que pareça dormir, Ele sempre vigia: «não cochila nem dorme o guarda de Israel» (Sl 121,4).
Deus se mostra conduzindo o seu povo e intervindo em seu destino, sem com isso retirar do homem a liberdade nem ferir o plano de salvação (Is 22,19-23). Sobna, que exercia a função de guardião do palácio do rei Ezequias, é destituído porque se entregara aos próprios interesses: construíra para si um mausoléu na rocha e desperdiçara recursos num momento de grande dificuldade para o povo. Em seu lugar, o Senhor coloca Eliacim, a quem confia a chave da casa de Davi: «o que ele abrir, ninguém fechará; o que ele fechar, ninguém abrirá».
Tudo isso nos prepara para o Evangelho (Mt 16,13-20), no qual a Pedro é dado o «poder das chaves». Esta expressão é rica de significados. O contraste com Sobna é claro: enquanto aquele se entregara aos próprios interesses, desprezando a Deus, ao rei e ao povo a quem devia servir, Pedro receberá de Deus Pai a revelação e a força para cumprir a sua missão. Fraco, sim, mas não infiel!
Quando São Paulo canta «a profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus» e a impenetrabilidade dos seus caminhos (Rm 11,33-36), recorda-nos que somos todos chamados a permanecermos fiéis ao Senhor. Mesmo que sejamos favorecidos, «tudo é dele, por ele e para ele».
Ora, tudo quanto o Senhor nos concede — sejam postos de governo, de serviço ou bens — somos chamados a desempenhar como serviço dirigido a Ele e à sua glória, para o bem do seu povo. E a sua glória, nunca é demais lembrar, «é que o homem viva», como dizia Santo Ireneu de Lião; mas «a vida do homem é a visão de Deus» (Adversus Haereses IV,20,7).
O texto do Evangelho que narra a profissão de fé de Pedro — «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo» — pode também ser encarado por nós como esta dupla missão que, no fim, se tornam uma só: o encontro e a participação na vida feliz de Deus. Para isto Pedro recebe o poder das chaves, com tudo o que ele significa: poder de julgar, de atar e desatar, de ensinar com autoridade, de governar, de decidir quem entra e quem sai, de perdoar ou não perdoar. Tem uma só finalidade: tendo origem em Deus Pai e sendo dado por Cristo, o Filho, deve ser sempre exercido segundo a vontade de Deus, e não segundo Pedro. Aquele que detém as chaves tem a responsabilidade primeira de introduzir os que batem, segundo as regras de acesso.
Observem que só depois de o Senhor ter ouvido as opiniões das pessoas é que pergunta aos discípulos: «E vós, quem dizeis que eu sou?». Seriam eles os responsáveis por introduzir os que batessem ao seu convívio. Todavia, só depois de a verdadeira identidade do Senhor ser afirmada por Pedro, em nome dos Doze e da Igreja, é que ele recebe a incumbência e o poder das chaves.
Já Santo Agostinho, explicando a relação de Pedro com a pedra sobre a qual o Senhor edifica a sua Igreja, dizia: Pedro, de pedra, como cristão, de Cristo (Sermão 76). Qual é, pois, a pedra sobre a qual Deus edifica a Igreja e qual a chave para nela entrar? Qual a porta? A pedra é o próprio Senhor Jesus Cristo, o Messias; a chave que abre o acesso a Deus é a fé n’Ele como tal; e a porta, novamente, é o próprio Senhor. «Ninguém vai ao Pai senão por mim» (Jo 14,6).
O exercício do poder das chaves, se vivido sem Deus, não cumpre a sua finalidade: o responsável é logo substituído, como se deu com Sobna. Porém, quando exercido segundo a vontade de Deus, como serviço que é, por Ele sustentado, o que se tem é a firmeza mesma do serviço e o gozo das delícias do Palácio Real, que no caso é a vida eterna que consiste no conhecer ao Pai, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, seu Filho enviado (Jo 17,3). Este é o real poder das chaves confiado a Pedro e à Igreja: a todos levar a Jesus Cristo e ao Pai, guiados pelo Espírito Santo.
Caros irmãos e irmãs, «E vós, quem dizeis que eu sou?» Ele se interessa pela nossa resposta; não o deixemos esperando… Disso depende a nossa salvação. Não só a resposta, mas o viver segundo o que respondemos.
Lembremos mais uma vez o que nos diz Paulo: «Como são inescrutáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos!». Por mais que nos possa parecer difícil compreender a loucura do Amor de Deus em se fazer um de nós e nos salvar pela Paixão, e em escolher instrumentos inadequados que se deixem conduzir por Ele, acolhamos. O Amor não se compreende, contempla-se; o Amor não domina, oferece-se; o Amor não se compra, é um dom; o Amor não se exige, recebe-se; o Amor não se explora, se corresponde com a vida.
Esta é a vocação de Pedro, dos demais Apóstolos e também de todos os fiéis. Vivamos e amemos, procurando exercer o que o Senhor nos pede, visando a nossa salvação — que é graça! — e a dos outros, para podermos entrar na sua presença e g***r das suas delícias.
Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Cristo!