06/04/2026
I.A. e o oráculo da minha avó
Articulista Gislaine Marins
“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, afirma o narrador de Ana Karenina, de Tolstói. Visto que esta é uma crônica, falemos das coisas felizes e daquelas que se parecem, por exemplo: a minha avó. Poderia ser a sua ou a avó da sua amiga, ou da sua prima. Quando tudo vai bem, um exemplo vale por todos.
Nós chegávamos na sua casa e tudo parecia no seu lugar, imutável, certo, desprovido de dúvidas. Acrescente-se a isso que ela era merendeira, figura essencial, matriz da nutrição, modelo calórico e bondoso de gerações e gerações de crianças. Não era apenas a minha avó, era a estrela do bairro. Quando ela saía com alguns netos pela rua, era um cruzar compassado de bom-dias e boas-tardes, que nos fazia ter orgulho e ciúmes.
Era uma vida feliz e pobre, como se ela tivesse nascido para se transformar em estereótipo. Merendeira sofre, ganha pouco em troca de um trabalho pesado. O salário era garantido, mas não bastava. A minha avó vendia flores para arredondar o salário e oferecia sorrisos como um desconto. E assim dava um jeitinho para manter a família em condições mínimas de dignidade.
Recapitulando: era uma mulher que lutava pela vida, como milhões de mulheres brasileiras. Era mulher de fé (evangélica, para dizer a verdade) e não faltava a nenhum culto. O pastor dizia e ela repetia. Em dia de temporal, ela ligava a vitrolinha e colocava no prato o disco da igreja: “com Cristo no barco tudo vai muito bem”. E distraía a criançada.
Era uma mulher que copiava: copiava as receitas, copiava as orações, copiava as lições de moral, copiava as explicações. E quando o repertório de respostas prontas parecia esgotado, havia o oráculo. Além de pagar religiosamente o carnê da felicidade, ela usava a tela para os dilemas da vida: “deu na televisão”. E era assunto encerrado.
Coitada da minha avó. Ela não tinha tido a possibilidade de estudar, estudar mesmo. Não o estudo das regras, a serem repetidas como um papagaio, não o estudo da literatura como um glossário de citações ilustres, mas estudo como possibilidade de elaborar respostas para o mundo. A minha avó não tinha autonomia de pensamento. Quando não tinha o que dizer, ela invocava a televisão, dando o seu veredito sem pestanejar.
Esses dias interrompi a aula para dizer aos meus alunos que a vida é dura: é preciso decidir se querem copiar as respostas da Inteligência Artificial ou verificá-las. Precisam decidir se querem fazer pesquisa ou usar a tecnologia como o livro das adivinhações. Se querem resolver problemas ou serem repassadores de dados não verificados. Se serão profissionais respeitáveis ou meros influenciadores à busca de curtidas para monetizar o que divulgam.
No fundo a Inteligência Artificial não é tão diferente da televisão, é apenas gigantesca, agrega muito mais dados e possui a capacidade de automatizar resultados de massa, reproduzindo-os como dado de fato. O trabalho humano continua sendo o mesmo: duvidar, estudar, elaborar hipóteses, dar respostas fundamentadas. Na medida do possível, escapar do destino de virar rebanho, que come, consome, concorda. Clica, não se cansa, não pensa. E, sem saber, é muito infeliz.