05/04/2021
NAÇÃO ANGOLA: SUA HIERARQUIA E COSTUMES PRÓPRIOS
Todas as nações trouxeram particularidades para o Brasil. Mas o povo banto com seus Nkisi tão nossos amigos é, sem dúvidas, a “nação-mãe”! Nos deixou as maiores contribuições, seja na modalidade falada ou escrita da nossa língua, na medicina popular, no ensinamento dos segredos das suas ervas, na dança, na música, na culinária etc.
A sua hierarquia religiosa se enquadra da seguinte forma: os sacerdotes são chamados de Tata Riá Nkisi (homem) ou Mam’etu Riá Nkisi (mulher); o pai e a mãe pequena, de Tata Ndenge e Mam’etu Ndenge; os homens confirmados, de Kambundo ou Kambondu; as mulheres confirmadas, de Kota (quando os filhos de santo completam 7 anos passam a ser chamados de Kota também); os homens tocadores de atabaque, de Kuxika Riá Ngombe; o homem responsável pelos sacrifícios animais, de Kivonda; os filhos de santo, de Mona Nkisi (esse termo é de forma geral, mas se quiser especificar que é mulher usa-se Mona Muhatu Wá Nkisi e, se for homem, Mona Diala Wá Nkisi); o iniciado é chamado de Muzenza. Claro, que esses termos podem sofrer algumas alterações de casa para casa, pois há nelas as línguas kikongo e kimbundo variando.
Devemos atentar também que o oráculo de adivinhação do povo banto não veio para o Brasil com eles, mas ainda assim, em uma casa de tradição banto, esse sistema divinatório é chamado de Ngombo/ Nzimbo e não há a presença de Orunmilá, que é uma divindade ioruba, e sim Nkukua-lunga (divindade da adivinhação do povo banto). Outra desmistificação é a respeito do sistema, inexistente para o povo banto, sobre os signos dos caminhos, chamado pelos ioruba de Odu. A energia vital passada através dos rituais, chamada de àse (axé) pelos iorubas, é conhecida como Ngunzu ou Muki.
Se considerarmos que todo rito corresponde, em sua raiz, a um mito e que os mitos dizem respeito a uma forma de ver o mundo e a realidade, certamente, apenas poderemos constatar que as fusões e reinterpretações que são inseridas no chamado caldeamento de culturas, muitas vezes esvazia o significado original o que serve tanto como perda da tradição como elemento fragmentador dos mitos geradores dos ritos adotados. Então, partindo desse ponto de vista, a Mukange (máscara), que é característica da tradição congo-angola e marca específica de sua visão da manifestação dos Nkisi, reflete algo de seu mito espiritual, algo que merece ser considerado e meditado, para ser compreendido. Sobretudo, a singularidade da Mukange demonstra muito da visão congo-angola sobre o Nkisi, porque diferentemente da tradição ioruba, não se enfatiza a natureza da divindade em sua encarnação humana, mas a natureza divina e singular do Nkisi em seu iniciado e filho, que através do seu transe traz ao mundo, uma energia sagrada que jamais tomou essa forma, pois que cada filho seu reflete uma singularidade original.
Ou seja, devemos entender mais uma diferença da tradição banto, enquanto os iorubas acreditam que os Òrìsà, certa vez, em seus mitos de origem, tomaram a forma humana e quando se manifestam em seus filhos gostam de identificar-se com as mesmas coisas que são descritas pelo seu comportamento quando estiveram aqui no mundo humano, a tradição banto acredita que os Nkisi permanecem sempre no mundo abstrato do sagrado, de forma que quando o iniciado coloca a máscara e manifesta seu “Santo”, apesar de estar manifestando no plano humano a força de uma divindade, ele se despersonaliza pela máscara, demonstrando que não é ele quem dança quem se movimenta que se comunica, mas a entidade espiritual que através de sua cabeça pode vir ao mundo da relatividade. Enquanto que o adé (coroa) do Òrìsà ioruba enfatiza a identificação com um comportamento arquetípico dele, a Mukangê enfatiza a singularidade do Nkisi que encontrou um filho seu para se manifestar de forma completamente nova no mundo. Então não devemos confundir quando virmos em fotos ou em casa de tradição banto, que o uso das máscaras é uma normalidade. Infelizmente, temos hoje um grande sincretismo interno entre as “nações”, onde as tradições de um povo se sobressaíram mais que as de outros e muitos rituais acabaram sendo deixados de lado, por assim serem julgados como errados, já que as demais tradições não praticavam, tremendo equívoco. Hoje, podemos perceber que muitos sacerdotes decoram suas casas com máscaras, afim de retomar suas raízes.
Agora que já sabemos como o povo banto se organizou no Brasil em um espaço religioso, conheçam seus rituais no próximo post – Candomblé de Tradição Banto Parte 3.