05/03/2014
Comunicado por Ocasião do Ano de São José
Amados membros da Fraternidade,
Existem determinados personagens bíblicos cujos feitos deixam qualquer um assombrado e de “queixo caído”. Recordamo-nos aqui do patriarca Moisés que com um simples gesto, dividiu as águas do mar em duas grandes muralhas (Ex.14,21); ou de Josué que com sua ordem deteve o curso do sol (Jos.10,12-13); ou de Sansão que carregou nos ombros as pesadas portas de gaza (Juizes.16,1-3); ou ainda do profeta Elias que fez cair fogo do céu (cf. 1Rs 18,41-46).
Diante desses personagens, poderíamos nos perguntar: que fato ocorrido na vida de José de Nazaré poderia nos deixar perplexo? Que prodígio esse santo varão operou? Numa resposta apressada, poderíamos dizer que não houve nada em sua vida que pudesse nos deixar atônitos, entretanto, na nova economia da graça inaugurada pela vinda do Messias, a grandeza se esconde muitas vezes sob os véus da fragilidade humana. (chamou o que é fraco para confundir os fortes).
Sem sombra de dúvida, os feitos daqueles homens até hoje impressionam ao leitor das Sagradas Escrituras, mas o que significa sujeitar os elementos da criação diante da suprema honra de ser chamado de pai por Aquele que é mais forte do que o bramido das águas caudalosas e mais poderoso do que o rebentar das vagas? (cf. Sl 92,4). O que significa ter carregado às costas as imponentes portas de gaza, diante da grandeza de carregar nos braços Aquele que é a porta das ovelhas? (Jo 10,7). O que significa ter feito cair fogo do céu diante da glória de ver chegar o Sol da justiça? (Lc 1,78).
Assim como Deus olhou para a humildade de Maria, olhou também para a justiça de José. Ela é a SERVA, ele o JUSTO. Dessa forma, Maria e José, constituem o vértice do qual se expande por toda a terra a santidade (Exort. Apost. Redemptoris Custus, 15 de agosto de 1989, 7). Os dois, porém, tem em comum, a mesma obediência da fé. Diante do anúncio do Anjo, Maria diz o seu fiat: Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,35). Diante da mensagem do Anjo, José também da o seu fiat e faz conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara (Mt 1,24).
José é o Justo (Mt. 1,19), o esposo (Mt 1,19), o Obediente (Mt 1,24; Mt 2,13.20), o contemplativo (Mt 1,20), o casto (Mt.1,25), o guardião (Mt 2,13). O Senhor conjugou em José, como num sol, tudo quanto os outros santos têm, em conjunto, de luz e esplendor, exclama São Gregório Nazianzeno.
A Igreja em sua fiel e devotada piedade sempre prestou as devidas honras a São José, sobretudo nas pessoas dos Sumos Pontífices. Leiamos com atenção.
Pio IX estendeu a festa do Patrocínio de São José a toda a Igreja através do Decreto Inclytum Patriarcham (Insigne Patriarca), de 10 de setembro de 1847 e em 8 de dezembro de 1870 através do Decreto Quemadmodum Deus (Da mesma maneira que Deus), proclamou São José Patriarca da Igreja Universal.
Eram tempos difíceis aqueles pelas quais a barca de Cristo atravessava. A Revolução francesa como que num enorme tsunami devastava a fé católica e em seu lugar erigia o culto à deusa da razão, exacerbava o nacionalismo fundamentalista, incitava a prática do ateísmo e fomentava no interior da própria Igreja o separativismo.
Eis algumas das emocionantes palavras do Papa: “Assim como Deus constituíra o antigo José, filho do antigo patriarca Jacó, para presidir em toda a terra do Egito, a fim de conservar o trigo para os povos; assim, chegada a plenitude dos tempos, estando para enviar à terra o seu Unigênito Filho para a redenção do mundo, escolheu outro José, de quem o primeiro era figura; constitui-o senhor e príncipe de sua casa e de sua possessão, e elegeu-o custódio de seus principais tesouros... Por esta excelsa dignidade, concedida por Deus a seu fidelíssimo servo, a Igreja, após a Virgem Santíssima, sua Esposa, teve sempre em grande honra e cumulou de louvores o Beatíssimo José, e nas angústias lhe implorou a intercessão... Ora, estando a Igreja, nestes tristíssimos tempos, perseguida em toda parte por inimigos e opressa por tão graves calamidades, a ponto de julgarem os ímpios que as portas dos abismos prevaleceram contra ela, os Bispos de todo o mundo católico, em seu nome e nos dos fiéis confiados a seus cuidados, rogaram ao Sumo Pontífice que se dignasse constituir São José Padroeiro da Igreja Universal”.
Passados trinta anos, no dia 15 de agosto de 1899, o Papa Leão XIII assinalava o Decreto Quamquam Pluries (Ainda que por diversas vezes), sobre São José.
Ouçamos o Papa:
“Nos tempos calamitosos, especialmente quando o poder das trevas parece tudo usar em prejuízo da cristandade, a Igreja costuma sempre invocar súplice a Deus, autor e vingador seu, com maior fervor e perseverança, interpondo também a mediação do santo... Nós propomos para tornar Deus mais favorável às nossas preces e para que Ele, recebendo as súplicas de mais intercessores, dê mais pronto e amplo socorro à sua Igreja, julgamos sumamente conveniente que o povo cristão se habitue a invocar com singular devoção e confiança, juntamente coma Virgem Mãe de Deus, o seu castíssimo esposo São José”.
No 50º aniversário da proclamação do Patriarca São José como Patrono da Igreja Universal por Pio IX, o Papa Bento XV ratificou a necessidade e a importância da devoção a São José na Carta Encíclica Bonum Sane (Boa e Salutar):
“Se considerarmos as hodiernas calamidades que afligem o gênero humano, torna-se mais evidente ainda a oportunidade de intensificar o culto (a São José) e difundi-lo ainda mais entre o povo cristão... Nós, portanto, cheios de confiança no Patrocínio d’Aquele a cuja providente vigilância Deus se comprazeu em confiar a custódia do seu Unigênito Encarnado e da Virgem Santíssima, vivamente exortamos a todos os Bispos do orbe católico, para que, em tempos tão tormentosos para a Igreja, induzam os fiéis a implorar com maior empenho, o poderoso auxílio de São José” (25 de julho de 1920).
O Beato João XXIII na Carta Apostólica La Voce Che da Tutto (as vozes que de todos), coloca o Concilio Ecumênico Vaticano II baixo a proteção de São José:
“Ó São José! Aqui, aqui mesmo é vosso lugar de Protetor da Igreja Universal... sede sempre nosso protetor. Que vosso espírito interior de paz, de silêncio, de bom trabalho e de oração, a serviço da santa Igreja, nos vivifique sempre e nos alegre em união com vossa Santa Esposa, nossa dulcíssima Mãe Imaculada, num fortíssimo e suave amor a Jesus, Rei Glorioso e imortal dos séculos e dos povos”.
Em 15 de agosto de 1989, O Papa João Paulo II presenteia a Santa Igreja com uma belíssima Exortação Apostólica sobre São José, a Redemptoris Custus (Guardião do Redentor).
Assim escreve o Papa:
“Na esteira da plurissecular veneração para com São José, desejo apresentar à vossa consideração, amados irmãos e irmãs, algumas reflexões sobre aquele a quem Deus confiou a guarda dos seus tesouros mais preciosos... Desta forma, todo o povo cristão não só recorrerá a São José com maior fervor e invocará confiadamente o seu patrocínio, mas também terá diante dos olhos o seu modo humilde e amadurecido de servir e de participar na economia da salvação. Tenho para mim, efetivamente, que o fato de se considerar novamente a participação do Esposo de Maria no Mistério Divino permitirá à Igreja, na sua caminhada para o futuro juntamente com toda a humanidade, reencontrar continuamente a própria identidade, no âmbito deste desígnio redentor, que tem o seu fundamento no Mistério da Encarnação”.
O Papa Francisco, através do Decreto Paternas Vices (Singular Paternidade), de 1 de maio de 2013 manda acrescentar a menção a São José no Canon da Missa:
“Pelo seu lugar singular na economia da salvação como pai de Jesus, São José de Nazaré, colocado à frente da família do Senhor, contribui generosamente à missão recebida na graça, e aderindo plenamente ao inicio dos mistérios da salvação humana, tornou-se modelo exemplar de generosa humildade, que os cristãos têm em grande estima, testemunhando aquela virtude comum, humana e simples, sempre necessária para que os homens sejam bons e fiéis seguidores de Cristo... Em virtudes das faculdades concebidas pelo Sumo Pontífice Francisco, decreta o nome de São José, esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, seja a partir de agora, acrescentado na oração Eucarística II, III, IV da terceira edição típica do Missal Romano”.
A inspiração de dedicar esse ano a São José surgiu da mesma forma que as demais inspirações. Ela tem sua origem em primeiro lugar na certeza de que é sempre o Espírito Santo que vai suscitar a moção condutora para cada ano. Em segundo lugar de que Ele mesmo vai revelá-la através do próprio agir da comunidade.
Entre tantos acontecimentos, o que considero mais relevante é o fato da devoção a São José já estar presente na maioria das nossas casas. Houve também outros como o fato de escutar relatos pessoais sobre as graças alcançadas através de uma novena feita a ele; ou por saber que tem membros de nossa Fraternidade consagrados a ele; uma medalha que me foi dada ou mesmo um livro contendo suas orações, etc.
Ao olhar para a figura de José me surpreende o fato de que ele era um, igual a nós. Da família da qual fizera parte, poderíamos dizer que ele era o mais “fraco”. José não era Divino como Jesus e nem tampouco imaculado como Maria. Por isso mesmo se torna um modelo acessível para todo cristão.
Ao olhar para a figura de José como o guardião dos principais tesouros, dou-me conta de que também nós somos convidados a proteger o tesouro do Carisma que nos foi confiado das ameaças externas, daqueles que possam querer instrumentalizá-lo ao seu bel dispor e por que não dizer, até de nós mesmos.
Ao contemplar a figura de José reconheço que ele teve que sacrificar tudo para realizar o projeto de Deus. Esse traço de sua vida nos deve recordar que não existe seguimento sem renúncia; de que não existe comunidade de amor sem renúncia.
Ao meditar sobre o titulo de Justo que a Sagrada Escritura lhe confere, me vem rapidamente a mente, que José foi antes de tudo um homem ajustado a Palavra, portanto um homem moderado (abrandado, mitigado). “Que a vossa moderação se torne conhecida de todos os homens” (Fl 4,5). José cumpriu plenamente a vontade de Deus, sem para isso causar qualquer tipo de alarde ou frisson em torno de si. Sua discrição é um remédio salutar contra aquele modelo religioso que quer transformar os seguidores de Jesus numa espécie de pop star. Sua discrição é termômetro também para avaliarmos tudo aquilo que em nós é exagerado. Na nossa vida precisamos de alguém que nos ajude a nos ajustarmos continuamente.
Ao olhar para a paternidade de José conscientizo-me que a paternidade é uma responsabilidade para toda a vida. É preciso ser pai, mesmo quando os filhos crescem e já não precisam mais dele. É preciso ser pai dos filhos que se tornam pais. Ser pai é ser servo da vida e do crescimento dos filhos. Assim o foi José.
Ao contemplar José na carpintaria dou-me conta que os trabalhos mais simples também fazem parte do Mistério da Redenção. Nesse sentido José é um ícone da santidade cotidiana.
Ao considerar Jesus sendo educado por José, maravilho-me a imaginar que Jesus não obedeceu a duas vontades: a do Pai Celeste e a do Pai Humano. A escola de Nazaré nos ensina que não pode haver dicotomia entre vida espiritual e humana; entre obediência a Deus e aos legítimos superiores.
Por fim, José é aquele que nos ensina a morrer na Igreja. A tradição nos diz que José morreu antes de Maria e que foi assistido por Jesus nos seus momentos finais. A graça de poder morrer na Igreja é uma daquelas graças a qual se referia o Papa Francisco na sua homilia na capela da Casa Santa Marta no dia 6 de fevereiro de 2014: “E esta é uma graça; permanecer até o fim dentro do Povo de Deus. Ter a graça de morrer no seio da Igreja, no seio do Povo de Deus... Morrer em casa é uma graça! Isso não se compra! É um presente de Deus e temos que pedi-lo: Senhor dá-me o presente de morrer em casa, na Igreja! Pecador sim, todos, todos, todos somos pecadores! Mas traidores não! Corruptos não! Sempre dentro! E a Igreja é tão mãe que também nos quer assim: muitas vezes sujos; mas a Igreja nos limpa, ela é mãe!”.
Do modo como viveremos o Ano de São José
A primeira coisa é desejarmos nos aproximar dele através da Palavra e da Tradição, sobretudo daqueles documentos papais acima citados. Posso garantir que os textos são de uma riqueza impar.
A segunda coisa é nos habituarmos a pedir a sua intercessão.
A terceira é devotar-lhe um ato de piedade durante o decorrer do ano.
A abertura oficial do ano será no dia 19 de março, com Missa e Oficio Solene.
Nesse dia apresentaremos as nossas imagens para serem abençoadas. Elas deverão ser coladas num lugar de destaque da casa acompanhada da inscrição “Ite ad Joseph”*. Essa frase foi tirada de Genesis 41,55. Ide a José é o que responde o faraó ao povo quando, castigado pela fome, lhe pede pão. O texto que se refere originalmente a José do Egito foi reinterpretado pelo Papa Leão XIII á luz das necessidades pelas quais a Igreja passava naquele momento e que a intercessão de São José poderia ser um poderoso auxilio.
Após um breve comentário sobre o significado desse Ano para a nossa Obra, a imagem deverá ser colocada no lugar que lhe fora preparado. Ela deverá então ser incensada ou aspergida. Em seguida se rezará a ladainha a São José e a oração composta por Leão XIII (seguem em anexo), e se encerrará com um canto em sua homenagem.
Cada comunidade pode decidir a melhor maneira com a qual honrará durante todo o ano o Santo Varão. Por exemplo, rezar uma oração a ele dedicada, na quarta-feira, dia que a tradição litúrgica da Igreja dedica a sua memória votiva.
Para facilitar essa e outras iniciativas, comunitária e particular, está sendo organizado um pequeno compêndio com orações dedicadas a São José. Esperamos que até o final desse mês já esteja pronto. Os pedidos poderão ser feitos ao Ir. Kephas que o está organizando.
Rogo ao Bom Deus que em sua admirável providência nos deu o exemplo e a indefectível intercessão de São José que se digne por seu intermédio nos abençoar e a nos guardar.
Santo Ano de São José para todos nós!
Pe. Gilson Sobreiro, pjc