26/11/2017
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Sóror Amália de Jesus Flagelado, a estigmatizada do Instituto Missionário Jesus Crucificado
Palavras de D. Francisco de Campos Barreto, bispo diocesano, sobre o fenômeno.
CAMPINAS, 10 — Depois que foi divulgado pela imprensa que sóror Amália, todas as sextas-feitas sofre o suplício da corôa de espinhos de Jesus Cristo a hora de receber a sagrada comunhão, na capela do Instituto Missionário, tem sido muito corrida a missa que ali se celebra, às 6 horas, daqueles dias.
Na semana passada o fenômeno repetiu-se de maneira impressionante, satisfazendo assim a ansiosa expectativa de elevado número de pessoas.
— D. Francisco de Campos Barreto, falando a um jornalista do "Correio Popular", desta cidade, sobre o caso da estigmatização e colóquios espirituais da Irmã Amália, que tantas e tão desencontradas opiniões tem suscitado entre os homens de maior evidência Intelectual no Brasil, disse o seguinte:
— Não vamos falar da irmã Amália, simplesmente a propósito do seu caso, deixaremos aqui algumas considerações em volta da discussão, que na imprensa so travou em todos os tons com o fim de amesquinhar o juízo e a consideração com o que a Igreja Católica costuma cercar os seus filhos, quando dotados das graças dos estigmas e dos extâses.
Já dissemos no seu jornal, quando procurados pela primeira vez, que o fato dos estigmas e dos extâses não é prova absoluta de santidade, embora virtuosas apareçam sempre as pessoas escolhidas para tais impressionantes manifestações. Certo autor francês enumera até agora 331 estigmatizados, dos quais 41 eram homens. Destes estigmatizados somente 60 após a morte, em virtude de seus milagres, foram canonizados e declarados santos pela Igreja.
Nisto já vêm os gratuitos afoitos escrevinhados de jornal que a Igreja, embora ocnsidere como graça especial os estigmas e os extâses não vai com tanta sede no pote, nem para afirmar, que todos os estigmatizados são santos e nem para impor nos fiéis a obrigação de acreditarem no sobrenatual dessas extraordinárias manifestações. E que para a Igreja para a consumação da missão do Jesus Cristo, bastam o Evangelho e os domgas, tomo tais proclamados pela infalível Cadeira de São Pedro.
Por ai as pessoas de boa fé, podem ver quão diferentes dos processos humanos são os juízos e a prudência da Igreja Católica, em se tratando de assuntos que estão afetos no seu governo.
A MEIA CIÊNCIA.
Dai o nosso espanto vendo os jornais de todos os matizes, procurarem e aceitarem a colaboração a torto e a direito de médicos, dentistas e sapateiros, espíritas, prostestantes, materialistas etc.. etc.
Em primeiro lugar que nota deram esses senhores que, metendo os pés pelas mãos, subiram a campo, explicando, combatendo, destruindo os factos da Irmã Amália tornandos púlicos?
Deram certamente franca demonstração de sua leviandade e incompetência para tratar de um assunto que ignoram e de um fato real, mas que eles nem viram nem tocaram, nem ouviram em toda a plenitude de suas multiplas e variadas circunstâncias.
Como acreditarmos nas suas supostas conclusões, tomando por base a ignorância do assunto de que pretenderam tratar?
Só a meia ciência desses senhores e a vaidade de falar à imprensa, justificam tais entrevistas.
A bem do interesse público, como aceitarmos e combinarmos as multiplas, variadas e até opostas opiniões manifestadas a esse propósito?
Uns atribuem essas manifestações á histeria, outros á hipnose, outros á auto-sugestão, ou ao subconsciente e até a simulação.
Ora, em nome de que falaram esses senhores todos? Certamente responderam eles, em nome da Ciência! Mas com qual dessas opiniões, ou desses Srs..., está a ciência, que é una e invisível, como a verdade ela traz em seu bojo?
Eis ai a que estado esses homens da meia ciência reduziram a verdade de estabeleceram a consuao no espírito.
Vendo a variedade e a oposição nas suas entrevistas, a propósito dos casos místicos da nossa fé, somos obrigados a dispensar tais doutrinas e seus doutores, visto como em franca contradição, não podem eles todos promanar da verdade e do bom senso. E depois disso, por que não evocar também para os filhos da Igreja Católica o direito de pregar e defender a doutrina, não só em nome da ciência humana, mas ainda em nome da revelação e da ciência divina?
Por ventura, o estudar e o saber humano, algum dia constituíram monopólio dos incrédulos e dos ímpios? Mas quem foi buscar os conhecimentos antigos, os conservou e os transmitiu á posteridade, senão a Igreja, os seus Papas e os seus religiosos, pacientes copistas no tempo em que não havia imprensa? Quem foi que no tempo mesmo em que os governos descuidaram da instrução do povo, para este abriu as escolas e universidades?
A resposta, diz-nos a História, foi a Igreja Católica, que ainda da conta por aluvião o número de seus estabelecimentos de instrução, que tem produzido a quase totalidade dos verdadeiros sábios, que com a sua ciência vêm honrando a humanidade.
Basta dizer que dos 163 sábios de verdade do século 19, 124 eram crentes, 12 incrédulos e 27 não tinham opinião filosófica ou religiosa bem definida.
Dai concluímos, que as ciências, não contituindo monopólio dos ímpios, não podem eles negar aos católicos o direito de fender e fazerem valer, á força que assuste a sua fé, sobretudo porque é na Igreja, que em todos os tempos nasceram as figuras que mais brilharam no mundo, pela sua virtude, como pelo seu saber. E que a muita ciência leva para Deus, enquanto a meia ciência afasta de Deus.
Dai, com razão, repetirmos que só a meia ciência animou a pretenção de uns tantos senhores, que afoitamento entenderam dar combate aquilo que na Igreja já está estudado, ventilado, discutido e decidido pelo juízo, pelo critério e pela assistência pelo critério e pela assistência que Deus lhe vêm dando, há vinte séculos.
ESTIGMAS E EXTÂSES.
— E qual a causa dos Estigmas, e dos extâses, principalmente os de sóror Amália?
— Vendo o que disseram sobre a origem e as razões dos estigmas e dos extâses tivemos ocasião de ter os maiores despropósitos.
Já foi dito que tais coisas não podem ser resultado da histeria cujos sintomas ainda não foram enquadrados em príncipios certos apesar dos estudos de Charcot.
Uma histérica está mais próxima da loucura e como todos sabemos, o seus actos são semelhantes ou mais ou menos irregulares e anormais.
Ora, não é isso que se nota nos estigmatizados católicos que, como pessoas, são cheios de virtudes e se apresentam calmas, obedientes, humildes, sem caprichos, nem vaidades, ditando, em seus extâses, uma doutrina perfeita, sobre e bem raciocinada, como provam os documentos já publicados, em parte, e que foram extraídos dos colóquios da Irmã Amália.
Afaste-se, pois, para longe essa hipótese da histeria como causa dessas coisas extraordinárias, lembrando-nos do que um efeito num pode ser superior a sua causa.
Quando á sugestão, porque perdemos tempo em aceitá-la como causa de efeitos tão extraordinários, quando vendo e observando, afirmamos que ela está fora das cogitações dessas boas almas, que perdem a Deus para livrarem das manifestações exteriores que sobre as mesmas chamam as vistas as alheias.
Mas, se a sugestão é a base de coisas tão extraordinárias, por que, então, em nossas múltiplas e graves necessidades, não apelamos para ela, adfim de resolver fácilmente nossas dificuldades?
Porque havemos de lançar o ridículo da sugestão, somente sobre essas místicas, com o fim de arrancar o influxo da sua fé os fatos extraordinários que elas apresentam?
A esses que tão ignorantemente atribuem á sugestção tais coisas, só a resposta que Theresa Neumann deu a um médico que lhe perguntou se ela não andava pensando sempre nas coisas religiosas que lhe aconteciam.
A esse tal, Theresa, a suave pastorinha, disse: Porque o senhor não sempre em boi, para ver se lhe nascem chifres?
Estamos certos que este argumento vai ser entendido pelos grandes e também pelos pequenos.
Restam ainda aqueles que contribuem tais fatos ao sub-consciente ou inconsciente, como diz Heredia.
Embora possamos adimitir atos inconscientes em nossa vida, não nacemos dos seus limites, atribuindo a esse "inconsciente" coisas que ele não pode explicar.
Demais porque vêm á baila em tais assuntos esse "inconsciente"? Tão somente, dizemos nós, para arrancar aos incrédulos de um beco sem saída. Eles não sabem e não podem explicar os fenômenos místicos, então apelaram para a teoria do "inconsciente" como refúgio da sua ignorância.
Sim, isso não passa de uma teoria hipotética, sem nenhum princípio básico, que garanta a verdade e a certeza de suas arrojadas afirmações.
Nós sabemos que toda ciência consiste no conhecimento certo das coisas por suas causas; ora, nesse negócio de sugestão, como tal "inconsciente", tudo não passa de conjecturas e méras teorias e, portanto, nada provado pelos verdadeiros cientistas e nada documentado pelos fatos reais.
Nesta altura, diante de dois fatos: um a existência dos estigmatizados e extáticos na Igreja Católica, outro — os sintomas apresentados pelos próprios estigmas — será necessário gastar tinta e tempo para discutir o "soi-dizant" estigmatizados apontados fora da Igreja Católica e mostrar o quanto eles diferem dos nossos verdadeiros estigmatizados e extáticos?
Falando para o povo — pois o sr. jornalista vai naturalmente reproduzir no "Correio Popular" esta palestra — limitemo-nos a dar a conclusão científica tirada dos fatos pelo célebre Poulain, que afirma que a "tese da existência dos estigmatizados por sugestão ou por coisa equivalente apresenta-se sem nenhuma prova experimental e que a existência dos extáticos naturais, nunca foi historicamente provada, porque se apoiam sobre um pequeno número de fatos, entre os quais não há um que resista á crítica severa do bom senso e da ciência dos competentes."
Dessas palavras, concluímos, como são gratuitas as afirmações dos que combatem a Igreja, estudando em jornais e livrinhos.
E que ainda neste assunto, com Claude Bernard, podemos afirmar que, humanamente falando, as causas primárias desses fenômenos que vimos sentindo como ignoramos e sempre havemos de ignorar a solução de mil intrincados problemas da natureza.
Quer isso dizer que, apesar dos prodígios de sua produção, muito limitada é ainda a força de nossa inteligência para um mundo de coisas que há de ser sempre um nó dordio mesmo para nossos sábios.
Quanto ao facto propriamente dos estigmas em si, uma notável diferença surge entre os que se dão nos crentes e aqueles que aparecem por meio da hipnotização, que alguns alegam para desfazer o valor sobrenatural dos primeiros.
Nos estigmas religiosos aparecem verdadeiras chagas, das quais sai bastante e verdadeiro sangue; enquanto nada de semelhante acontece nos outros casos em que se nota apenas um tumescência ou súor mais ou menos avermelhado, enfim, uma grosseira imitação.
Os primeiros duram anos ou se reproduzem periodicamente; enquanto os outros são passa geiros.
Os primeiros não se curam com medicamentos, antes, fecham-se por si e em pouco tempo, diferente do que se dá com os segundos.
Os estigmas religiosos são frequentemente acompanhados de muitas dores e dos extâses, o que não acontece com os outros. Depois de passado o momento das dores, as feridas dos estigmatizados já não doem, mesmo, sob a pressão que não acontece com feridas comuns, que são sempre doloridas, ponto esse observado na Irmã Amália, pelo Dr. Falcão de Miranda.
Diversamente do que se observa nas chagas naturais de certa duração. as dos nossos estigmatizados não oferecem nenhum odor desagradável, nenhuma inflamação, nenhuma alteração dos tecidos. E "note que nesses mesmos, as chagas não estigmatizadas sofrem a mesma evolução natural das feridas comuns."
E, de passagem, digamos aqui que todas essas condições dos estigmas religiosos se realizam na Irmã Amália.
Se vamos atribuir tão extraordinários fenômenos á simples sugestão ou ao "inconsciente", deveríamos deitar em conta desses mesmos fatores, todas as outras molestias.
E assim nas mesmas águas to tal "inconsciente" encontrariamos uma esplicação para todas as dificuldades da vida e sem embaraço eliminaríamos, o que é bem um absurdo!
Uma vez que, segundo os tais inconscientes do que dizem, afirmar que a vida religiosa é somente o desenvolvimento da atividade humana, podem se atribuir a erupção do sub-consciente as revelações de são paulo, dos profetas biblicos e dos santos! E com essa fecundíssima e infantil teoria lá se iria água abaixo todo o fundamento da religião!
OS MÉDICOS NO CASO
— Mas algumas pessoas estranham não se entregar Sóror Amália ao exame dos médicos para que estes se pronunciem sobre caso tão esquisito — observamos.
— Caso esquisito unicamente para essas pessoas, porque para a Igreja isso nada tem de novo, visto os seus estudos, observações e juízos já formulados para tais circunstâncias. Para o estudo da Igreja basta que tais pessoas estejam no gozo de seu juízo, da sua inteligência e vivendo na prática das virtudes Cristãs.
Os médicos, quando muito encontrarão nesse assunto para dizerem da sanidade dos estigmatizados, porque sobre os seus extraordinários fenômenos só á igreja pertence falar, de acordo com as normas severas do Santo Ofício.
E francamente permitam-nos perguntar á nossa vez, para que os médicos precisam ver esses casos?
Se eles são Católicos, os incrédulos não quererão acreditar na sua opinião, atribuindo tais fenômenos ao sobrenatural. Se são incrédulos, quem de nós será tão ingênuo e infantil de esperar tais esculápios atribuam esses mesmos fenômenos explicados á sua moda, a um sobrenatural que eles não crêm e adimitem?
Dai ficarmos no mesmo, como acontece com Thereza Neumann, que já visitada e observada por cerca de 300 médicos, continua com a sua vida misteriosa, sem que nenhum deles tenha lhe dado do cabal e conveniente explicação de que tudo não é sobrenatural.
Em suma: o caso de Irmã Amália, contínua a oferecer todas as características dos verdadeiros estigmatizados e extáticos da religião Católica.
Dia virá em que estas palavras serão confirmadas.
+ IMPRIMATUR - Dom Francisco de Campos Barreto (08 de Março de 1932.)