24/08/2026
Por volta do ano 57 d.C., menos de três décadas depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo, o apóstolo Paulo encontrava-se no final de uma longa etapa da sua actividade missionária. Ao escrever aos cristãos de Roma, provavelmente a partir de Corinto, preparava-se para regressar a Jerusalém. Mas os seus olhos já estavam voltados para uma nova fronteira: a Hispânia.
Paulo entendia ter completado uma grande etapa. Escreveu que, «desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico», havia anunciado o Evangelho de Cristo (Rm 15:19). Não queria dizer que todas aquelas populações estavam evangelizadas, mas que o Evangelho já possuía implantação suficiente para que pudesse avançar. Era característica da sua missão abrir novas frentes e estabelecer comunidades em centros estratégicos, de onde a mensagem pudesse irradiar.
É neste contexto que a Hispânia aparece explicitamente no Novo Testamento. Paulo informa aos romanos que esperava visitá-los «quando em viagem para a Espanha» (Rm 15:24) e, poucos versículos depois, reafirma: «partirei para a Espanha» (Rm 15:28). O termo grego é Σπανία (Spanía), designação da Hispânia romana.
Em meados do século I, a Península Ibérica estava plenamente integrada no Império Romano. Bética, Lusitânia e Tarraconense possuíam cidades, portos e extensas redes de comunicação terrestre e marítima. A Hispânia não estava, portanto, fora do mundo em que Paulo já se movimentava: encontrava-se no prolongamento ocidental das mesmas estruturas imperiais que haviam facilitado as suas viagens pelo Mediterrâneo.
Em seu fluxo apostólico rumo ao Ocidente, a cidade de Roma, coração do império, ocuparia uma posição estratégica nesse novo movimento. Paulo desejava conhecer aquela comunidade cristã e esperava ser por ela «encaminhado» para a Hispânia. O desenho da missão tornava-se, assim, extraordinariamente amplo: Jerusalém → Ilírico → Roma → Hispânia.
Há, portanto, um ponto historicamente seguro: por volta de 57 d.C., a Hispânia já fazia parte do projecto missionário de Paulo. Não se trata de uma tradição cristã posterior; é o próprio apóstolo quem o declara.
Outra pergunta, porém, permanece aberta: O apóstolo Paulo conseguiu chegar à Hispânia?