08/02/2024
Historicamente, desde o período da escravidão, os próprios quilombos, que foram organizações políticas de resistência e enfrentamento à escravidão, o Quilombo dos Palmares teve mais de cem anos de existência incomodando a Coroa Portuguesa. As próprias revoltas, como Balaiada e dos Malês, diversas revoltas indígenas.
No Brasil, a gente às vezes é privado da nossa própria história de resistência. O que nos contam é que os negros foram escravizados e ponto, não falam que existiram resistências. É muito importante saber que os quilombos foram organizações políticas de resistência e até hoje temos comunidades descendentes de quilombos, os quilombolas, ainda lutando para ter direito à titulação das suas terras.
A gente tem movimento negro, frente negra brasileira, movimento negro que lutou por ações afirmativas quando foram adotadas no Brasil - a primeira universidade a adotar cotas foi UERJ em 2001, a segunda foi a UnB em 2004 e depois teve a lei federal de cotas em 2012. Essas conquistas são reivindicações históricas dos movimentos negros.
A própria questão de hoje ter aumentando o número de pessoas que se declaram negras no Brasil é luta dos movimentos negros. A gente vive num país que foi fundado sob esse mito da democracia racial, de que aqui não existiria racismo e quanto isso dificultou a construção de uma identidade negra, o fato de a gente não ter acesso aos nossos ancestrais, no sentido de que documentos referentes à escravidão foram destruídos, então eu não sei, por exemplo, se meus ancestrais vieram da Nigéria ou de Guiné Bissau. Isso gera um abismo, uma lacuna na construção da nossa identidade. O descendente de italiano sabe de onde o tataravô veio, a cidade na Itália. A gente não sabe.
Essas construções todas — e não foram a toa, são deliberadas —, essa ideia de que no Brasil somos todos mestiços, de que não tem como saber quem é negro, mas na hora de discriminar todo mundo sabe quem é, dificultou uma construção de identidade negra e os movimentos negros vêm denunciando isso, e isso também é forma de resistência.
E vieram conscientizando a população negra a respeito da nossa ancestralidade. As próprias religiões de matriz africana no Brasil, historicamente criminalizadas. Houve época em que as pessoas negras não podiam cultuar seus orixás — e aí vem o sincretismo, que muitas pessoas veem como negativo, mas pelo sincretismo conseguiram continuar cultuando seus orixás.
Se hoje ainda existem terreiros das diversas denominações de religiões de matriz africana, isso é uma prova de resistência também. É importante a gente visibilizar isso pra gente não resvalar nessa visão de que não existe luta. Se a gente olhar quantos líderes quilombolas foram assassinados nos últimos anos, lutando pelo direito à terra, quantos líderes indígenas, em regiões do Brasil que muitas vezes a gente não noticia porque não é Sudeste, não é Sul.
Então, existem várias formas de resistência, de lutas políticas de diversas organizações do movimento negro, que é importante ressaltar: se estamos ainda hoje no Brasil e somos maioria, é porque o povo negro vem resistindo, mesmo com tantas ações que visam o extermínio desse povo.