01/12/2025
Hoje, nosso irmão André Luiz ministrou um estudo bíblico notável sobre a doutrina da justificação pela fé — aquela verdade central que mantém o evangelho livre de qualquer infiltração de mérito humano. Ele nos recordou que a salvação não admite coautores: é obra exclusiva de Cristo, sustentada unicamente por Sua justiça.
Rendemos glória a Deus pela vida do nosso irmão, que serviu de instrumento para reafirmar à igreja essa coluna do evangelho.
Tomando esse impulso, e falando como pastor, resolvi expandir aqui uma das controvérsias mais emblemáticas que emergiram durante a Reforma — uma querela que não é mera disputa histórica, mas um eco permanente da luta pela pureza da doutrina pela qual somos salvos.
⚜️ A Acusação de Adulteração: Lutero, Romanos 3:28 e o Debate sobre o “Somente” na Doutrina da Justificação SOMENTE pela Fé. ⚜️
📖 “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.”
Romanos 3:28 (ACF)
Uma das críticas católicas mais persistentes consiste em afirmar que Lutero “adulterou” Romanos 3:28 ao incluir o termo “somente”. A acusação supõe que o reformador teria introduzido, de maneira artificial, o princípio da sola fide.
Todavia o debate, quando colocado nos termos reais da tradução, revela outra coisa: Lutero, de fato, não fingiu que a palavra estivesse nos manuscritos. Ele reconheceu sua ausência literal — e, ainda assim, defendeu sua inclusão por razões gramaticais, sintáticas, teológicas, contextuais e afins. Segundo ele, o alemão exigia a partícula para comunicar fielmente aquilo que Paulo já estava dizendo de maneira inequívoca: a justificação é EXCLUSIVAMENTE PELA FÉ, e não parcialmente por obras diante de Deus.
Ora, não preciso aqui entrar longamente nos debates sobre métodos de tradução (“equivalência formal vs. dinâmicas”), dificuldades linguísticas, ausência de termos equivalentes, hapax legomena, campos semânticos e tantas outras questões que qualquer tradutor minimamente sério reconhece. Além disso, ele trabalhava numa língua ainda em formação e, como um dos desbravadores da gramática alemã, precisava construir estruturas que comunicassem fielmente a força do grego paulino. Traduzir, para ele, ERA SERVIR AO POVO, não aos escrúpulos acadêmicos de seus adversários.
E é digno de nota: a tradução portuguesa baseada no Textus Receptus, como a Almeida Corrigida Fiel (ACF), não inclui “somente” — e mesmo assim transmite perfeitamente a exclusividade paulina. Defendo que a nossa língua portuguesa não exige a mesma ênfase que o alemão do século XVI demandava. Além de tal conceito da justificação se impor pelo próprio fluxo argumentativo de Romanos.
Agora, se formos consistentes, deveríamos então rejeitar doutrinas inteiras por ausência de uma palavra-chave? Lógico que não. Negaríamos, por exemplo, a própria doutrina da Trindade, já que algumas formulações lógicas e técnicas contidas nos credos universais (como "a Unidade na Pluralidade, a Pluralidade na Unidade" sobre a Trindade em que temos a doutrina bíblica de um só Deus em três Pessoas distintas) não aparecem explicitamente na Escritura — ainda que a doutrina esteja dispersa, coerente e solidíssima em todo o cânon com outros termos e expressões.
E quanto ao argumento de adulteração? Os católicos tampouco escapariam dele. A Vulgata, texto normativo durante séculos, traduz Lucas 1:28 com a célebre expressão “gratia plena”, uma intensificação interpretativa da forma grega κεχαριτωμένη.
📖 Ave, gratia PLENA … — Vulgata
📖 Salve, AGRACIADA … — ACF
Não há aqui qualquer escândalo teológico; o mesmo termo possui apenas duas ocorrências no grego, sendo a outra em Efésios 1:6, aplicado aos crentes em geral — inclusive de modo mais forte.
📖 “...pela qual nos fez AGRADÁVEIS [ἐχαρίτωσεν] a si no Amado.”
Portanto, se a acusação contra Lutero é coerente, ela se volta inevitavelmente contra séculos de tradição católica. Se, porém, admitimos que a tradução de um idioma para outro exige escolhas interpretativas responsáveis, então tanto Lutero quanto A TRADUÇÃO católica agiram dentro da normalidade linguística.
É exatamente nesse ponto que a resposta de Lutero se impõe — firme, provocativa e consciente — e merece ser lembrada.
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❝em Romanos 3 eu sabia muito bem que no texto latino e grego a palavra solum não está. Os papistas não precisaram me ensinar isso. É verdade: essas quatro letras s-o-l-a não estão lá. Esses cabeças de a**o olham para essas letras como uma vaca olha para um novo portão.
Mas não vêem que o próprio sentido do texto exige isso. E SE QUEREMOS EXPRESSÁ-LO EM ALEMÃO DE FORMA CLARA E VIGOROSA, ENTÃO ELE DEVE ESTAR LÁ — POIS QUIS FALAR ALEMÃO, NÃO LATIM NEM GREGO, quando assumi a tarefa de traduzir.
👉Essa é justamente a natureza de nossa língua alemã: quando ela estabelece uma afirmação entre duas coisas — afirmando uma e negando a outra — ela usa a palavra solum (‘somente’) junto com não ou nenhum.
Assim:
✔️‘O camponês traz somente trigo e não dinheiro.’
✔️‘Eu comi somente, e ainda não bebi.’
✔️‘Escreveste somente e não revisaste?’
Essas expressões, em vômito número no uso diário, mostram que, embora o latim ou o grego não o façam, o alemão o faz — e esta é sua natureza.
Pois dizer: ‘O camponês traz trigo e não dinheiro’ não soa tão completo e claro quanto dizer: ‘O camponês traz somente trigo e não dinheiro.’
A palavra somente ajuda a palavra não para tornar a frase alemã plena e clara.
Não devemos perguntar às letras das línguas latina ou grega como devemos falar alemão (como fazem esses a**os), mas devemos perguntar à mãe em casa, às crianças na rua, ao homem comum no mercado — e observar-lhes a boca, e traduzir conforme eles falam. Assim eles entenderão, e perceberão que lhes falamos alemão.❞ [*]
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Mas antes de tudo isso, Lutero — no seu costumeiro e afiado modo de apologista combativo — justificou sua tradução lembrando aos críticos o peso de seu próprio currículo, como quem diz: “Não falo por ignorância, falo porque sei.”
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❝E, para voltar ao assunto: quando o seu papista quiser fazer grande alvoroço inútil por causa da palavra sola (“somente”), diga-lhe logo assim: ‘Doutor Martinho Lutero quer que seja assim.’ E mais: ‘Papista e a**o são a mesma coisa. Sic volo, sic iubeo, sit pro ratione voluntas (‘Assim eu quero, assim eu ordeno; a vontade serve como razão’).
Pois nós não queremos ser alunos nem discípulos dos papistas, mas seus mestres e juízes. Queremos, ao menos uma vez, pavonear-nos e bater no peito diante dessas cabeças de a**os. E, como Paulo se gloriou contra seus santos loucos, eu também quero me gloriar contra esses meus a**os.
São eles doutores? Eu também sou.
São eruditos? Eu também.
São pregadores? Eu também.
São teólogos? Eu também.
São debatedores? Eu também.
São filósofos? Eu também.
São dialéticos? Eu também.
São leitores? Eu também.
Escrevem livros? Eu também escrevo.
E quero ainda gloriar-me disto: eu posso expor os Salmos e os Profetas — isso eles não podem. Eu sei traduzir — isso eles não sabem. Eu posso ler a Sagrada Escritura — isso eles não podem. Eu sei orar — isso eles não sabem. E, para descer um pouco: eu conheço a dialética e a filosofia deles melhor do que todos eles juntos. E sei com certeza que nenhum deles entende Aristóteles; e se houver entre todos eles um só que entenda corretamente um prefácio ou um capítulo de Aristóteles, que me esmaguem!
Não estou exagerando agora, pois fui educado na arte deles desde a juventude e conheço muito bem quão profunda e quão ampla ela é. E eles também sabem muito bem que eu conheço tudo que eles conhecem. Mesmo assim, esses homens ímpios agem contra mim como se eu fosse um hóspede estrangeiro em sua arte, alguém que tivesse chegado só hoje de manhã, que nunca tivesse visto nem ouvido o que eles ensinam ou são capazes de fazer.❞ [*]
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Como já disse, não precisamos do advérbio “somente” em Romanos 3:28. O próprio texto já exclui, de modo contundente, qualquer participação das obras na justificação. Antes de concluir, vejamos alguns outros textos que demonstram a força central da doutrina da justificação somente pela fé ao longo das Escrituras:
📖Romanos 3:28 (ACF) “Concluímos pois que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei.”
📖Efésios 2:8–9 (ACF) “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie.”
📖Gálatas 2:16 (ACF)“Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.”
📖Gálatas 3:11 (ACF) “E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé.”
📖 Romanos 4:4–5 (ACF) “Ora, àquele que trabalha não se lhe conta o salário como graça, mas como dívida. Mas, àquele que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.”
📖 Filipenses 3:9 (ACF) “E seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus pela fé.”
📖 Tito 3:5 (ACF)“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo.”
📖Romanos 5:1 (ACF)“Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo.”
📖João 3:16 (ACF) “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
📖João 3:36 (ACF) “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece.”
📖 Atos 13:38–39 (ACF) “Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este se vos anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê.”
Portanto, Paulo não deixa frestas: “justificado pela fé SEM [χωρὶς] obras da lei.”
Esse outro advérbio “sem” no próprio texto grego (χωρὶς) é uma das lâminas que corta qualquer pretensão humana. Quem exige a palavra “somente” como condição para aceitar a doutrina revela não zelo textual, mas resistência ao próprio sentido que o apóstolo impõe.
Referência:
[*] LUTERO, Martinho. Ein Sendbrieff Doctor Martinus Luthers. Von Dolmetzschenn und Fürbit der Heiligen. M.D.###. (Uma carta aberta do Doutor Martinho Lutero sobre a tradução e a intercessão dos santos). Wittenberg: s.n., 1530.
🔰SOLI DEO GLORIA🔰