Schola Cantorum São Carlos Borromeu

Schola Cantorum São Carlos Borromeu Psallite sapienter. (Cantai com sabedoria.)

O estudo de várias tradições de canto judaico (Babilônia, Pérsia, Síria e, principalmente, do Iêmen) já mostrou várias s...
12/11/2022

O estudo de várias tradições de canto judaico (Babilônia, Pérsia, Síria e, principalmente, do Iêmen) já mostrou várias semelhanças entre a música judaica (de tribos isoladas desde a época da destruição do Segundo Templo) e a música gregoriana, o que indica uma origem remota da música cristã na música judaica. As diversas tradições de cantochão que levaram ao gregoriano preservaram características dos tempos apostólicos, em que os cristãos ainda traziam muito da cultura judaica: a ausência de métrica regular no canto, o uso responsorial e antifônico do canto, a predominância de movimentos conjuntos, a recitação de salmos, a mistura entre estilo silábico e melismático, o uso de fórmulas padronizadas, etc. A igreja primitiva foi formada com base numa forte tradição judaica e não seria diferente, então, em questão musical. A recitação de salmos é praticamente a mesma coisa para os judeus e para os cristãos: há um tom salmódico (tonus), em recitação uníssona (tenor), dividindo o verso na metade, com uma fórmula para início e conclusão (entoação, mediante e cadência).

São diversos casos de incorporação da tradição musical judaica, os quais se preservaram mesmo depois de muito tempo de desenvolvimento independente da música cristã. No exemplo da figura 1, há uma recitação dos judeus do Iêmen, que eles usam não só para salmos, mas também para o pentateuco e outros livros das escrituras e, logo abaixo, um tom salmódico usado na tradição gregoriana, que é idêntico ao judaico. A figura 2 é uma melodia gregoriana registrada entre os séculos XII e XIV, usada nas matinas antes da Páscoa, que é bem semelhante à melodia dos judeus iemenitas. Outros exemplos são o tonus peregrinus do repertório gregoriano, ou a antífona Hosanna filio David, que encontram paralelos em melodias judaica. Outro canto tradicional do repertório gregoriano que tem forte origem judaica é o Te Deum: é uma mistura de trechos bíblicos, poesia judaica, aclamações, profissões de fé, salmos, etc.

Logo, muitas melodias do repertório gregoriano, mesmo as mais rebuscadas, são claramente salmodias mais elaboradas, que indicam uma origem melódica na forma tradicional de recitar os salmos.

O canto litúrgico é feito, na sua maioria, com textos bíblicos. Porém, há alguns tipos de composição que, ainda que de i...
08/11/2022

O canto litúrgico é feito, na sua maioria, com textos bíblicos. Porém, há alguns tipos de composição que, ainda que de inspiração bíblica, são autorais e têm permissão para uso. São elas:

Hino: na antiguidade, cantar um hino era sinônimo de salmodiar. Porém, a partir de meados século VI, o sentido de hino, como composição litúrgica, começou a mudar e hoje ele é entendido como uma composição autoral com texto poético e melodia repetitiva. O hinário gregoriano tem cantos de origem diversas, com poesia hebraica, ambrosiana, latina, etc. Esse tipo de composição foi um grande problema para a Igreja nos primeiros séculos, porque havia muita gente compondo hinos com textos heréticos, o que exigiu bastante restrição à prática. Muitos hinos tradicionais são usados hoje em dia na liturgia das horas (como o hino Veni Creator, que é cantado tanto nas Terças como nas Vésperas de Pentecostes), mas não como próprio da missa.

Tropus: é um tipo de inserção de frases no texto litúrgico. São frases autorais que ajudam na compreensão do texto litúrgico, tendo uma função educativa. Um tropo comum de ser usado aqui no Brasil é aquele "Senhor, que viestes chamar os corações arrependidos, piedade": essa frase entre "Senhor" e "piedade" é um tropo, pois o texto do ordinário é só "Senhor, piedade". Foi uma prática muito comum na Idade Média e era feita em várias partes da missa (Intróito, Kyrie, Glória, etc), mas caiu em desuso e chegou a ser proibida em alguns lugares. Só foi reabilitada para o uso geral com o Missal Novo, que forneceu, como opção de Ato Penitencial, uma fórmula de Kyrie Eleison ("Senhor, piedade") usando tropo.

Sequentia: na origem, era um tropo do Alleluia, porém, com o tempo, se desvencilhou da fórmula do tropus e passou a ser composta como textos poéticos latinos, se aproximando mais da fórmula dos hinos. Foi muito usada na Idade Média, mas passou a ser fortemente regulada para evitar abusos. Hoje em dia, só sobraram 2 sequências obrigatórias e 2 opcionais, cantadas antes do Alleluia. Algumas delas ainda podem ser cantadas como um canto alternativo em datas especiais, como o Stabat Mater, que pode ser cantada como um tipo de hino mariano na Sexta-feira da Paixão.

06/11/2022

Sobre a nossa herança judaica da salmodia

04/11/2022

Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth.
Pleni sunt Cæli et Terra gloria Tua.
Hosanna in excelsis!
Benedictus qui venit in Nomine Domini.
Hosanna in excelsis!

30/10/2022

Está chegando a festa do nosso padroeiro!!! Acompanhem nossa programação! 🙏🏻🙌🏻⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️⬇️

Historicamente, a escolha da música litúrgica tem essas motivações:- Função no serviço litúrgico: há diversas funções pa...
29/10/2022

Historicamente, a escolha da música litúrgica tem essas motivações:

- Função no serviço litúrgico: há diversas funções para a música, como ser um rito em si ou acompanhar um rito; há diversas fórmulas usadas no serviço litúrgico: Intróito, Kyrie, Gloria, Profissão de Fé, leitura, etc, cada uma com uma tradição específica de como se compor a melodia e o texto. Evidentemente, pode have mudança no serviço litúrgico: a música de comunhão começou a ter um papel mais importante conforme a comunhão começou a ser mais frequente, por exemplo.

- Períodos do ano: a música acompanha os períodos do ano não só nos textos (o próprio de cada dia), mas também nas composições musicais; períodos como a Quaresma usam melodias mais silábicas, enquanto a Páscoa tem longos melismas; a Missa durante a semana é bem simples, enquanto a dominical é solene; no calendário local, você também pode ter uma missa temática em memória de um santo ou uma solenidade de um padroeiro, por exemplo.

- Períodos do dia: o dia litúrgico começa na Vesperas do dia anterior, tendo como o momento mais importante a missa (que, historicamente, era de manhã); há momentos do dia de maior simplicidade no serviço (Laudes e Vesperas, por exemplo) e momentos mais longos e elaborados musicalmente (Matinas/Ofício de Leitura e o próprio da Missa).

Estes três fatores estão presentes na escolha do repertório litúrgico e devem sempre ser levados em consideração. Há momentos na história em que o repertório foi simples e congregacional, e momentos em que foi complexo e profissional, mas a questão fundamental é como cantar corretamente, e essas são as três motivações para a escolha do repertório.

Fonte: Western Plainchant, David Hiley, 1993.

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