13/05/2026
137 anos de uma abolição que não foi abolição.
A Lei Áurea não veio acompanhada de terra, trabalho, moradia, educação ou dignidade. Os corpos foram libertos, mas as almas foram lançadas à própria sorte. O Estado que escravizou por três séculos virou as costas e disse: “agora se virem”. Sem indenização, sem reparação, sem política de inclusão. Libertos sim, mas jogados à margem de uma sociedade que seguia os mesmos códigos racistas de antes.
Não há o que comemorar.
Há o que reconhecer. Há o que honrar. Há o que reparar.
Os Pretos Velhos sabem disso.
Na cosmologia bantu, os mukurusu, nossos Pretos Velhos, são os que carregam a sabedoria forjada na sobrevivência. Eles não cantam vitória. Eles contam a história verdadeira. Eles ensinam que a liberdade não foi dada, foi conquistada a cada dia, a cada palmo de chão, a cada terreiro erguido escondido, a cada reza baixinha que ninguém ouviu mas Oyá levou aos céus.
O Pai Miguel, o Pai Benedito, a Vovó Catarina, eles rezam, e na reza deles está a memória de um povo que resistiu sem terra, sem direito, sem nada. E que mesmo assim mesmo assim construiu.
Construiu a cultura que o Brasil inteiro consome. Construiu a fé que sustenta milhões. Construiu uma cosmovisão onde o sagrado está na terra, no rio, na mata, no ferro de Ogum.
🔥 Hoje não se comemora. Hoje se resiste.
Resistir é reconhecer que a abolição foi uma mentira jurídica.
Resistir é honrar a memória dos que vieram antes.
Resistir é ocupar espaços que nos foram negados.
Resistir é manter acesa a chama do terreiro, a força do canto, o axé do tambor.
Resistir é lembrar que a liberdade ainda não chegou para todo mundo — e que lutar por ela é o nome do nosso caminho.
13 de maio: dia de silenciar os sinos e escutar o que os Pretos Velhos têm a nos ensinar.