01/05/2026
[Lembranças de uma boa fé]
Houve um tempo em que a boa fé era como um grão de mostarda. Vela e copo d'água. Galho de arruda na mão da vovó.
Nesse tempo, tudo cabia num gongá. Espremidinhos, tipo ' bota mais água no feijão que pra todo mundo vai dá'. Cabia Jesus, São Jerônimo, pombinha branca, pemba, fita do nosso senhor do Bonfim, amarrada numa quartinha tinha louça branca.
Nesse tempo a roupa era coarada em dia de sol quente. Emgomada com maisena, passada com ferro bem quente. Terreiro tinha cheiro de alfazema. Tudo se reaproveitava, até a lata de leite em pó virava turibulo pro defumador, e os cinzeiros eram feitos de lata amassada.
Nesse tempo, quando se conseguia uma graça de uma entidade, o agradecimento era com uma garrafa de marafo - não tinha isso de presentear com celular, não. O 'influencer' era o sacerdote orientando aquela comunidade, e filho respeitava a história de quem veio antes. Não se perdia tempo buscando a melhor pose pra se registrar gira, tudo era vivenciado com presença.
As fofocas? Sempre existiram. Mas ate essas eram ao vivo - até a maledicência se rendeu aos grupos do WhatsApp.
Com os novos tempos, muitas coisas mudaram. Muitos abusos, humilhações, graças à Exu, foram escancarados - mas também o dinheiro, a fama, as curtidas, assumiram a lugar da prateleira principal do gongá.
E a lembrança da boa fé, f**a guardada no coração de quem insiste, mesmo cansada, em remar contra à maré.
Quem viveu, viveu.
Com amor,
Mãe Emmanuelle.