22/08/2026
É curioso como algumas práticas mudam de nome dependendo de quem as realiza.
Na igreja há velas, incenso, água consagrada, vinho, pão, vestimentas próprias, cânticos, procissões, objetos sagrados e reverência aos mortos.
No terreiro também existem velas, defumação, bebidas, alimentos, vestimentas, cantos, cortejos, objetos consagrados e culto à ancestralidade.
Mas de um lado chamam de liturgia. Do outro, de feitiçaria.
E talvez a maior ironia apareça quando falamos dos sacrifícios e sacralizações comuns as duas tradições.
Em muitas tradições afro-brasileiras, determinadas vertentes realizam o sacrifício ritual de animais, dentro de fundamentos religiosos próprios, frequentemente seguido do aproveitamento alimentar da carne pela comunidade.
E imediatamente aparecem acusações de “barbárie” e “crueldade”.
Curiosamente, nas grandes festas da sociedade majoritariamente cristã, milhões de animais também são abatidos.
No Natal, o peru vai para a mesa.
Na Páscoa, peixes e outros animais são consumidos em larga escala.
Nas confraternizações, bois, porcos e galinhas alimentam multidões.
A diferença é que o sangue do frigorífico vem escondido numa embalagem bonita do supermercado.
Parece que matar para alimentar uma festa é civilização, mas matar dentro de um fundamento religioso afro é selvageria.
Até o sangue ocupa lugares centrais no imaginário cristão:
Fala-se no sangue de Cristo, no Cordeiro de Deus, em sacrifício, corpo e sangue como elementos fundamentais de sua narrativa religiosa.
Mas quando outra tradição possui sua própria compreensão sobre vida, sangue, alimento, ancestralidade e sacralização, subitamente algumas pessoas descobrem o horror ao simbolismo sacrificial.
O problema, portanto, talvez nunca tenha sido a vela, o incenso, o sangue, o alimento, a oferenda ou o sacrifício.
O problema é, quem tem poder para chamar o seu ritual de sagrado e o ritual do outro de primitivo.
No templo, tradição.
No terreiro, superstição.
Na religião dominante, mistério.
Na religião negra e feitiçaria.
E assim o preconceito realiza seu truque mais antigo
Troque o nome das mesmas contradi�