06/06/2026
A Graça evanescente
Existe uma visão entre os Arminianos, que Calvino defendia a possibilidade da perda da salvação e que tal doutrina era chamada de graça evanescente. Durante um debate fiquei espantado com a afirmação tão categórica e abri as Institutas, na tentativa de convencer o meu irmão Arminiano, pois sua interpretação de Calvino não estava correta.
Nada melhor que um calvinista para falar de Calvino, como um Arminiano de Armínio, pois o olhar das escrituras sofre influencia da teologia que professamos. Eu não me assevero de falar dos escritos de Armínio, leio às vezes, mas não posso me aprofundar, pois em função de estarmos em posições antagônicas, tenho por princípio me ater à teologias e teólogos que confessam os meus princípios.
Portanto quando eu afirmo que Armínio disse isso ou aquilo, eu posso estar equivocado, deixando para um defensor de Armínio uma explanação mais aprofundada de seus pensamentos.
Esse é o caso em questão, quando a Graça evanescente é estudada por um Arminiano, pois ele interpreta com uma posição que não pode ter o atestado, nem de Calvino e nem de um calvinista.
Não me colocando na posição de douto, mas de um estudioso que investiga o calvinismo, portanto não como um indouto, me proponho a desmentir uma acusação sem amparo nas institutas, pois Calvino não defendia a perda da salvação, entre eleitos, mas sim, a impossibilidade da salvação, na pessoa do réprobo.
Pelo princípio do Sola Scriptura quero deixar claro que as Institutas não representam a palavra de Deus e sim a palavra de um servo de Deus. Portanto a mesma não tem poder de mudar a mente e comportamento de ninguém, mas serve como norteador, para estudiosos calvinistas, que mantém uma proximidade teológica, ao pensamento de Calvino.
Gosto de deixar isso claro, pois na defesa do posicionamento calvinista sobre os reprovados, alguns Arminianos estão depositando na teologia e doutrina de Calvino, algo que ele nunca defendeu e a minha intenção é tirar a dúvida dessas pessoas, que insistem em debates, confundir os neófitos, que Calvino não possuía a certeza da salvação, ou segurança da eternidade, ou como ensinamos, na perseverança dos santos, pois no fundo concordava com Armínio, sobre o cair da graça, ou na queda dos iluminados.
Institutas 3 – Capítulo II - 11. A FÉ É OPERANTE, AINDA QUE NÃO EFICAZ NEM ABSOLUTA, ATÉ MESMO NOS RÉPROBOS.
Calvino entendia que os réprobos são às vezes afetados por sentimento quase semelhante ao dos eleitos, de sorte que, em seu próprio julgamento, de fato não diferem em coisa alguma dos eleitos. Para Calvino tal qual o joio no meio do trigo, assim é um réprobo no meio do povo de Deus.
Por esse entendimento Calvino tratava o réprobo como alguém que possuía fé, porém uma fé reprovada por Deus, em função de sua incapacidade teológica, por não ter nascido de Deus e sim em função de uma experiência intelectual, da vontade humana, sem a essência do novo nascimento.
Calvino entende que eles poderiam degustar dos dons celestiais, porém por provarem de uma fé temporária, nunca poderiam chegar à plenitude do relacionamento com o Senhor e isto tornaria sua culpabilidade maior, pois em vendo as manifestações e mesmo assim não crendo, tornariam a realidade de sua incapacidade e condenação, atestada por suas obras, destituídas da fé eficaz.
A estes réprobos é impossível a filiação divina, sendo incapazes de proclamarem, Abba Pai, pois a semente desta fé por ser evanescente, não é a mesma do eleito, por sua essência incorruptível, que a torna eficaz para a salvação.
Na visão de Calvino o entendimento do réprobo é confuso e não pode perceber sua realidade em Deus, sendo atormentados pelo pecado, haja vista não receberem o perdão dos mesmos, obra realizada por completa no eleito.
Outra questão levantada por Calvino é que a raiz da fé, por ser ineficaz, repousa na aparência e por fim na hipocrisia. Essas pessoas querem aparentar ser além de sua realidade, para compensar a falta, que apenas Deus poderia atestar, da experiência de fé salvadora.
Calvino entende que a fé capacitada a perseverar até o fim é dada apenas ao eleito, ficando o réprobo pelo caminho, desaprovado pela incapacidade da perseverança, que acontece não por opção do réprobo, mas sim pela vontade de Deus em não capacitá-lo até o final.
Institutas 3 – Capítulo II – 12 SÓ NOS ELEITOS É A FÉ REAL E EFICAZ; NOS RÉPROBOS, ELA É APENAS APARENTE E INEFICAZ
Calvino trata os réprobos por “Chamados justos” e que os mesmos não podem avançar nas revelações de Deus, pois as mesmas são objeto apenas da fé que é dada aos eleitos, por isso a fé do réprobo é evanescente, pois destituídos da revelação não podem perseverar e seguir sempre adiante, pois o brilho da luz de Deus, não é uma graça que ilumine suas mentes diante da realidade da manifestação divina em seu dia-a-dia.
Calvino alega que o réprobo é incapaz de apreender a vontade de Deus. Podem ouvir a voz, mas impossibilitados de assimilar o conhecimento, em decorrência da inabilidade da obediência, dada pela vontade de Deus apenas ao eleito. Mas uma vez ele atribui a essa condição de incapacidade de apreender de Deus, o motivo da evanescência da fé, que já havia especificado como ineficaz.
Calvino compara o réprobo a uma árvore de raízes sem profundidade, que por um tempo produz folhas e frutos, mas com o tempo morre, por sua superficialidade espiritual.
Calvino coloca em questão o amor dos réprobos a Deus, questionando a sinceridade de filhos que amam o Pai, como se os mesmos buscassem a Deus apenas por interesse e não apenas por se enxergarem como filhos e amados pelo Pai. Independente daquilo que o Pai pode proporcionar através desta filiação, Calvino trata os réprobos como mercenários no relacionamento com Deus.
Calvino entende que apenas o eleito pode amar a Deus, pois essa condição foi estabelecida pela vontade de Deus, quando derramou o seu amor, no coração do eleito, através do Espírito Santo.
Calvino defendia que a fé foi dada uma vez por todas aos eleitos e pertencia apenas a eles o direito de perseverar na mesma, desta forma a raiz que não provinha da fé de um eleito, gerava uma árvore que seria cortada pelo Senhor, aja vista que a mesma não fora plantada por Deus, portanto vindo de Deus o desconhecimento da paternidade e o direito de filiação, impossibilitado de reinvindicação, pelo réprobo.
Mateus 15:13-14
Ele, porém, respondendo, disse: Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são condutores cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova.