15/01/2018
A MORTE NA CULTURA YORUBÁ
Nos últimos 07 dias fui surpreendido com a notícia da morte de entes queridos de Omorixás da TECRM-IAYMY e estive presente em dois velórios/sepultamentos. Não é uma sensação agradável. Velórios e sepultamentos trazem à tona um misto de sentimentos muito grande:dor, perda, vazio, desamparo, etc. Apesar da frase "Descanse em paz" ser o "carro chefe" dos cemitérios, raramente encontramos a "paz" nesses ambientes, pois ela é sempre suplantada pela "dor". A paz é privilégio dos que partem desse plano terreno para o plano espiritual, os que f**am não em o seu conforto, pois culturalmente não somos preparados e educados para entender a morte como um rito de passagem. Por termos forte influência da cultura européia em nossa formação, mesmo absorvendo a cultura Yorubá após a iniciação nos ritos do Candomblé, demoramos e por vezes não conseguimos enxergar a morte ap***s como rito de passagem de um plano físico para um plano espiritual. Nós seres humanos somos naturalmente egoístas, queremos aquilo que é nosso "coisas" ou "pessoas" eternamento a nossa disposição,eternamente junto de nós, porém tudo nesse mundo tem um tempo determinado, tem um destino traçado e porque não dizer "um prazo de validade".
É muito importante que pratiquemos o desapego, que vivamos cada dia como se fosse o último de nossas vidas, que não deixemos para amanhã o que podemos, fazer, falar e expressa hoje, pois os desígnios do tempo e do espaço não pertencem a nós, seres humano. A partir dessa consciência precisamos reforçar a ideia de que todas as nossas intervenções na vida das outras pessoas tem um poder ínfimo, pois o destino já está traçado e temos que cumpri-lo segundo a vontade de Olodumare.
Para os Yorubás não existe o inferno, não existe purgatório como na concepção cristã. Existem 09 "céus", nove Oruns, muito bem definidos e prontos para receber a todos que partem da Terra e são conduzidos por Oyá para uma nova existência. A partir dessa concepção podemos concluir que os desencarnados iniciam uma "nova vida", que estão ao nosso lado, sem as prisões da matéria e que de acordo com seu merecimento, por todas as ações e comportamentos no plano terreno, poderão nos auxiliar, zelar pelo nosso bem estar ou caso contrário necessitar de orações e rezas para auxiliar em sua elevação e seu "descanso".
Segundo os Yorubás os 09 céus estão dispostos da seguinte forma:
Orun Alààfia: Espaço de muita paz e tranquilidade, reservado para pessoas de temperamento brando, índole pacíf**a, pessoas bondosas e pacatas.
Orun Funfun: Espaço para os inocentes, espíritos de crianças, de pureza de sentimentos e intenções.
Orun Bàbá Eni: Espaço para os grandes sacerdotes e sacerdotisas, Babalorixás, Yalorixás, Ogans, Ekejis, enfim, espaço para todos os que possuem tempo e responsabilidade dentro do culto afro.
Orun Afèfé: Local de oportunidades, de correcção para os espíritos, possibilidades de reencarnação, volta ao Aye (terra).
Orun Ìsolù ou Àsàlù: Local de julgamento por Olodumarè para decidir qual dos respectivos Orùns o espírito será conduzido.
Orun Àpáàdì: Reservado para espíritos impossíveis de ser reparados. (o equivalente ao purgatório cristão)
Orun Rere: Espaço para aqueles que foram bons durante a vida.
Orun Buruku: Espaço ruim, IBONAN “ Quente como pimenta”. Reservado para as pessoas más. (o equivalente ao inferno cristão)
Orun Marè: Espaço para os perfeitos. Reservado à Olodumarè e todos os Orixás e divindades.
É importante observar a figura do Orun Ìsolù ou Àsàlù, como local de julgamento, por onde todos, independente da condição, passam e são julgados, para saber seu destino final. Portanto é importante ressaltar que nossas AÇÕES enquanto encarnados são de primordial importância para nosso julgamento e destino após o desencarne.
Independente da cultura (cristã ou yorubá) que pratiquemos ou tenhamos absorvido, o mais importante é o entendimento do rito de passagem, o qual todos teremos que enfrentar, mais dia menos dia.
Antes que esse dia chegue, pratiquemos:
1) Dizer que ama o próximo, sem reservas;
2) Fazer o bem sem olhar a quem;
3) Não ter remorso do que fizemos, se foi feito, existiu um motivo para tal;
4) Não alimentarmos o egoísmo;
5) Procurar o caminho da fraternidade. Muitas vezes um abraço,uma presença (principalmente no momento das perdas) é infinitamente mais valioso que belas palavras nas redes sociais;
6) Ser honestos, sinceros, verdadeiros e retos em caráter;
7) Respeitar o próximo;
8) etc, etc, etc.... a lista pode ser infindável.
Todos nós estamos nesse plano para buscar a evolução, através do amor, da dor, do sofrimento, das alegrias, das conquistas, das perdas, enfim, de todos os sentimentos e emoções inerentes aos seres humanos. Não estamos aqui a "passeio"! Temos uma função, temos um caminho, uma meta a ser cumprida, temos responsabilidade com aqueles que tem a vida afetada pela nossa existência e para isso devemos aprender com os erros, celebrar os acertos e mudar, sempre que necessário em busca da "melhor performance" na vida.
Que Olodumare abençoe a todos nós e nós proporcione vida longa.
Lembrete: a cor da morte no candomblé é o BRANCO e usá-la, mesmo que em parte da indumentária, é um sinal de respeito.