Ilé Axê Yá Mowô Yeyê - TECRM

Ilé Axê Yá Mowô Yeyê - TECRM Templo (ILÉ AXÉ) de culto CANDOMBLÉ NAÇÃO KETU!!!!

15/01/2018

A MORTE NA CULTURA YORUBÁ

Nos últimos 07 dias fui surpreendido com a notícia da morte de entes queridos de Omorixás da TECRM-IAYMY e estive presente em dois velórios/sepultamentos. Não é uma sensação agradável. Velórios e sepultamentos trazem à tona um misto de sentimentos muito grande:dor, perda, vazio, desamparo, etc. Apesar da frase "Descanse em paz" ser o "carro chefe" dos cemitérios, raramente encontramos a "paz" nesses ambientes, pois ela é sempre suplantada pela "dor". A paz é privilégio dos que partem desse plano terreno para o plano espiritual, os que f**am não em o seu conforto, pois culturalmente não somos preparados e educados para entender a morte como um rito de passagem. Por termos forte influência da cultura européia em nossa formação, mesmo absorvendo a cultura Yorubá após a iniciação nos ritos do Candomblé, demoramos e por vezes não conseguimos enxergar a morte ap***s como rito de passagem de um plano físico para um plano espiritual. Nós seres humanos somos naturalmente egoístas, queremos aquilo que é nosso "coisas" ou "pessoas" eternamento a nossa disposição,eternamente junto de nós, porém tudo nesse mundo tem um tempo determinado, tem um destino traçado e porque não dizer "um prazo de validade".
É muito importante que pratiquemos o desapego, que vivamos cada dia como se fosse o último de nossas vidas, que não deixemos para amanhã o que podemos, fazer, falar e expressa hoje, pois os desígnios do tempo e do espaço não pertencem a nós, seres humano. A partir dessa consciência precisamos reforçar a ideia de que todas as nossas intervenções na vida das outras pessoas tem um poder ínfimo, pois o destino já está traçado e temos que cumpri-lo segundo a vontade de Olodumare.
Para os Yorubás não existe o inferno, não existe purgatório como na concepção cristã. Existem 09 "céus", nove Oruns, muito bem definidos e prontos para receber a todos que partem da Terra e são conduzidos por Oyá para uma nova existência. A partir dessa concepção podemos concluir que os desencarnados iniciam uma "nova vida", que estão ao nosso lado, sem as prisões da matéria e que de acordo com seu merecimento, por todas as ações e comportamentos no plano terreno, poderão nos auxiliar, zelar pelo nosso bem estar ou caso contrário necessitar de orações e rezas para auxiliar em sua elevação e seu "descanso".
Segundo os Yorubás os 09 céus estão dispostos da seguinte forma:

Orun Alààfia: Espaço de muita paz e tranquilidade, reservado para pessoas de temperamento brando, índole pacíf**a, pessoas bondosas e pacatas.

Orun Funfun: Espaço para os inocentes, espíritos de crianças, de pureza de sentimentos e intenções.

Orun Bàbá Eni: Espaço para os grandes sacerdotes e sacerdotisas, Babalorixás, Yalorixás, Ogans, Ekejis, enfim, espaço para todos os que possuem tempo e responsabilidade dentro do culto afro.

Orun Afèfé: Local de oportunidades, de correcção para os espíritos, possibilidades de reencarnação, volta ao Aye (terra).

Orun Ìsolù ou Àsàlù: Local de julgamento por Olodumarè para decidir qual dos respectivos Orùns o espírito será conduzido.

Orun Àpáàdì: Reservado para espíritos impossíveis de ser reparados. (o equivalente ao purgatório cristão)

Orun Rere: Espaço para aqueles que foram bons durante a vida.

Orun Buruku: Espaço ruim, IBONAN “ Quente como pimenta”. Reservado para as pessoas más. (o equivalente ao inferno cristão)

Orun Marè: Espaço para os perfeitos. Reservado à Olodumarè e todos os Orixás e divindades.

É importante observar a figura do Orun Ìsolù ou Àsàlù, como local de julgamento, por onde todos, independente da condição, passam e são julgados, para saber seu destino final. Portanto é importante ressaltar que nossas AÇÕES enquanto encarnados são de primordial importância para nosso julgamento e destino após o desencarne.

Independente da cultura (cristã ou yorubá) que pratiquemos ou tenhamos absorvido, o mais importante é o entendimento do rito de passagem, o qual todos teremos que enfrentar, mais dia menos dia.

Antes que esse dia chegue, pratiquemos:

1) Dizer que ama o próximo, sem reservas;
2) Fazer o bem sem olhar a quem;
3) Não ter remorso do que fizemos, se foi feito, existiu um motivo para tal;
4) Não alimentarmos o egoísmo;
5) Procurar o caminho da fraternidade. Muitas vezes um abraço,uma presença (principalmente no momento das perdas) é infinitamente mais valioso que belas palavras nas redes sociais;
6) Ser honestos, sinceros, verdadeiros e retos em caráter;
7) Respeitar o próximo;
8) etc, etc, etc.... a lista pode ser infindável.

Todos nós estamos nesse plano para buscar a evolução, através do amor, da dor, do sofrimento, das alegrias, das conquistas, das perdas, enfim, de todos os sentimentos e emoções inerentes aos seres humanos. Não estamos aqui a "passeio"! Temos uma função, temos um caminho, uma meta a ser cumprida, temos responsabilidade com aqueles que tem a vida afetada pela nossa existência e para isso devemos aprender com os erros, celebrar os acertos e mudar, sempre que necessário em busca da "melhor performance" na vida.

Que Olodumare abençoe a todos nós e nós proporcione vida longa.

Lembrete: a cor da morte no candomblé é o BRANCO e usá-la, mesmo que em parte da indumentária, é um sinal de respeito.

24/11/2017

Sobre a Democratização da Informação Religiosa

Tenho visto inúmeros textos na internet, postagens em grupos religiosos, facebook de adeptos do Candomblé, etc, sobre Candomblé de uma maneira geral.

Alguns são interessantes e agregam valor, já outros considero perigosos pois denotam que os segredos dessa religião estão sendo banalizados e expostos à pessoas não preparadas para recebê-los.

Há 42 anos atrás, quando fui iniciado, a informação era muito pouca e os Babalorixás e Iyalorixás não primavam pela arte de ensinar seus filhos, mesmo os Egbons, Ogans ou Ekéjis. Naquela época só aprendia quem "furava hunkó", quem ouvia as conversas dos mais velhos (fingindo trabalhar) e quem estava presente em todas as funções do Ilê, não perdendo um lance e procurando aprender depois num momento apropriado de descontração do Pai/Mãe de Santo.

Hoje, vemos abertamente Iyawôs, Egbons novos, Ogans e Ekéjis não confirmados desfiando um conhecimento impressionante na web, conhecimento muitas vezes sem um embasamento apropriado, sem um fonte fidedigna e normalmente sem referência bibliográf**a ou autoral.

Perigo!!!

Fala-se abertamente sobre Iyami, sobre Baba Egun, sobre Aje, sobre Aparakás e etc...

Fala-se abertamente sobre os objetivos dos rituais secretos, sobre os motivos de um bori ser feito antes do orô npa, sobre o orô npa ser feito antes do Iyanlé, etc...

Posso estar completamente errado, equivocado e também posso estar sendo retrógrado, mas acredito que essa democratização da informação num culto iniciático baseado em segredos seja totalmente danosa à perpetuação do mesmo.

Não vejo mais ninguém falando sobre ervas, banhos, confecção de pós, conjugação de ori, harmonização de qualidades e até mesmo sobre os defumadores, tão simples e tão execrados por uma maioria que acredita que "isso é coisa da Umbanda"...

Consequentemente também tenho observado um enorme contingente de omorixás que tem trocado de Orixá ou de qualidade ou mesmo de condição (Ogan para rodante, rodante para Ekéji, Ekéji para Abiaxé, Abiaxé para Abiku, etc). Omorixás que certamente estão sendo bombardeados por inúmeras informações incapazes de absorver e que terminam por gerar a dúvida.

Onde f**a o Obi mastigado? Onde f**a o apoti, no qual o Orixá sentou e confirmou tudo que foi feito? Onde f**a o orukó gritado no meio da sala, confirmando a existência daquele Iyawô para aquele orixá? Onde f**am os conceitos básicos e simples do Candomblé?

Soube do caso de uma Iyalorixá que está processando todos os seus filhos de santo que a abandonaram alegando que o santo estava errado ou que tinha faltado alguma coisa nas obrigações. Vale informar que o processo é extensivo aos seus novos zeladores. E também cabe ressaltar que existem vários zeladores aguardando o resultado desses processos e sua consequente jurisprudência para iniciar uma verdadeira batalha judicial contra seus desafetos....

Será que esse será o nosso destino?
Vale refletir....

17/06/2016

Xangô

Estamos no mês dedicado a este Orixá, junho, especif**amente o dia 29, dia de São Pedro para os Católicos e dia da Fogueira de Aiyrá para os Candomblecistas. Na maioria das casa de tradição Ketu, é comum vermos a realização da cerimônia da fogueira próxima à esta data. As casas são enfeitadas com bandeirinhas, motivos juninos, por vezes pipas e lanternas. Fogos de artifício são comumente utilizados numa das mais belas demonstrações harmônicas do sincretismo que é uma das bases culturais do nosso país e principalmente desta manifestação religiosa genuinamente brasileira que é o Candomblé. É necessário entender que antes de nossas raízes africanas serem resgatadas a partir dos anos 1990, o Candomblé foi recriado por princesas Nagô em terras brasileiras no final do século XIX, como forma de manter viva sua cultura ancestral, então por mais que prezem os puristas (e eu me incluo entre eles) que o sincretismo deve ser apartado dos nossos rituais. muito de sua essência continua impregnada nas manifestações realizadas que executamos, especialmente esta,que mistura a devoção aos santos do catolicismo, com a manifestação popular das festas juninas e a manifestação religiosa do Candomblé.
Mas abordagem histórica à parte, voltando a falar do Orixá, vamos observar seu caráter tribal, puramente africano, que difere bastante do encontrado em nossas terras...
Xangô é o REI DO MUNDO na tradição Oyó, rival de Obaluayê, rei do mundo na tradição Fon. É um Orixá muito vaidoso, viril, forte e poderoso. Diz-se que o hálito de Xangô é tão forte que queima como fogo, diz-se inclusive que eke "cospe" fogo pela boca, desde que Oyá lhe trouxe o talismã da terra dos Baribas, para assim conferir-lhe este poder. É um Orixá que está muito próximo ao mundo dos homens e por isso em suas manifestações de transe, em seus eleguns, gosta de abraçar, falar, confraternizar com os presentes e até mesmo sorrir. Diz-se que Xangô viveu em nossa terra, entre os homens e que após sua "morte" terrena, desceu ao mundo dos Eguns e daí advêm seu pavor da morte. É errado dizer-se que Xangô abandona o filho doente, ele somente se "afasta" por temer a morte, mas de forma nenhuma abandona aquele que um dia consagrou seu Ori ao seu culto. Podemos dizer que Xangô é um Orixá que exige exclusividade. Na África, onde é comum as pessoas se iniciarem para mais de um Orixá este costume é vedado aos iniciados de Xangô, que não admite dividir o Ori de seus iniciados com outros Orixás. Xangô é o Orixá da riqueza, gosta da prata, do cobre (metal mais valioso na antiguidade africana) e também do ouro, que encanta Oxum, sua esposa predileta. É o Orixá que detêm o poder da "chave" entre os dois mundos, o poder da "chave" que condena e absolve e o poder sobre a realização dos desejos da humanidade. Grande parte do ritual de iniciação praticado no Brasil é oriundo dos rituais de iniciação à Xangô na África. Seus filhos são fortes, corpulentos, por vezes gordos, vorazes por s**o, mesa farta, bebida em grande quantidade. As vezes são protagonistas de relações extra conjugais, mas nao abdicam da manutenção da família. Sua justiça é interessante, é valida para aqueles que gozam da sua simpatia e totalmente inválida para aqueles que tem sua inimizade, mesmo que a razão por vezes esteja em lado oposto às predileções pessoais. No culto a este Orixá encontramos 12 ministros, 06 que condenam e 06 que absolvem e através de ebós específicos conseguimos nos aproximar mais de um grupo de juízes que de outro, de acordo com nossa necessidade. É nosso grande Pai, nosso grande Rei e à ele devemos subserviência e submissão. Diz-se que não se deve usar o nome de Xangô em vão, quando não se tem absoluta certeza de que está do lado certo da justiça,pois mesmo aos filhos ele pune, caso estejam errados. Lembrem-se: o machado de Xangô tem duas lâminas, dois lados. Salve Xangô em toda sua onipotência e magnanimitude! Que a justiça e a força deste grande Orixá permeie nossas vidas e cubra nossas cabeças.
Kawô Kabiesilê Orixá Omorobá Losi Losi!!!

19/02/2016

Akirijebó

Esta palavra, em tradução livre, muito usada pelo povo de santo (pelo menos os antigos) signif**a "Cabeça de Ebó" e costumeiramente é utilizada para identif**ar os omorixás que se iniciam num Ilê, cumprem as obrigações de 01 e 03 anos em outros dois Ilês diferentes e tornam-se egbomis num 4o. Ilê distinto dos outros.

Normalmente são pessoas que não "esquentam esteira", não aprendem os fundamentos da casa que frequentam, furam hunkó de outras casas e colocam em cheque os Babalorixás e Iyalorixás que lhes dedicaram cuidado.

É facil identif**ar um Akirijebó: no início puxam o s**o do zelador, dão presentes diversos, se dizem extremamente fiéis ao Ilê, usam a palavra "amor" com uma facilidade incrível, são dedicados ao extremo e com intensidade incomensurável. Costumam falar mal do antigo axé e do antigo zelador com muita facilidade e citam defeitos diversos erros nos fundamentos recebidos como se fossem profundamente conhecedores dos orôs de cada casa.

É comum os Akirijebós trocarem de Orixá ou "qualidade" do mesmo Orixá diversas vezes na vida, sendo comum um Akirijebó se iniciar de Ogum Já e terminar de Ogum Megê por exemplo, ou mesmo se iniciar para Nanã e terminar a trajetória de candomblecista como filha de Iyewá.

Os Akirijebós "baixam" o "santo" momento. Trocam Ilá ou Ké como quem troca de roupa, abandonam igbás como quem troca de namorado e mudam as águas (nações) como quem bebe um drink, independentemente de ter se iniciado para um Vodun e tomar posto como filho de um Nkice.

A única faceta que os Akirijebós normalmente não alteram são os Exus (Catiços), raramente deixam de "baixar" suas Mulambos, Padilhas ou Malandros e Zés para baixar os Exus menos conhecidos como Mangueira, Morcego, Porteira, etc. Nessa área normalmente eles são fiéis e não aceitam alteração, no máximo um Encanto Cigano para abrir os caminhos.

A migração dos Akirijebós normalmente acontece de acordo com os fracassos ou insatisfações da vida. A cada tombo uma mudança de Orixá, a cada amor perdido uma mudança de axé e por aí vai.

Outro ponto interessante no desenvolvimento dos Akirijebós: a cada mudança de axé eles adquirem 07 anos de intenso conhecimento da língua Yorubá, Fon ou Kimbundo e passam a dissertar com maestria seus novos dialetos, com uma profusão de Axé oooooo, Olorun modupé ooooooo, Awure ooooooo e por aí segue.

Os Akirijebós normalmente se unem em grupos e costumeiramente angariam ex irmãos do antigo axé para as novas práticas.

Os Akirijebós normalmente se unem em grupos e costumeiramente angariam ex irmãos do antigo axé para as novas práticas.tpois raros são os Omorixás que podem se orgulhar de tomar todas as obrigações no mesmo axé que se iniciaram.

No Ilê no qual sou zelador acolho diversos filhos que foram iniciados em outros Ilês, porém sempre tenho o cuidado de me certif**ar da índole e do caráter dos mesmos, que normalmente saíram dos seus axés de origem por incompatibilidades pessoais e "NUNCA" falam mal da "fonte" em que beberam anteriormente. A esses eu bato palmas, estendo minhas mãos e compartilho meu axé, aos outros ap***s posso recitar "Akirijebó A te lerun ewó!"

Esse post me lembrou o Globo Repórter: "Quem são? Onde vivem? O que comem os Akirijebós?, hoje a noite no Globo Repórter"

Axé awure ooooooooooo!!!

04/01/2016

A Importância dos Igbás dos Orixás

Na África os igbás eram coletivos, cultivados por um determinado grupo/tribo (Egbé), onde todos os membros eram iniciados no culto de um determinado Orixá, por razões de ancestralidade. A crença africana se baseava no fato de que todos os membros do Egbé eram descendentes diretos daquele Orixá e portanto deveriam ser iniciados no culto do mesmo, centralizado em um único igbá, peji e ojubó e consequentemente nos seus festivais ou xirês o Orixá escolhia ap***s um de seus iniciados para se manifestar.

No Brasil, com a adequação dos cultos africanos sob um único panteão de divindades, independentemente de sua origem tribal, a pluralidade dos igbás foi necessária, pois na senzalas das fazendas e nos engenhos de cana, negros de diferentes tribos/egbés eram reunidos num grupo com ancestralidades diversas e cada qual deveria manter as suas características originais cultuando seus Orixás familiares.

No início, quando as primeiras casas de Candomblé surgiram, foram assentados um exemplar de cada Orixá e consequentemente de cada caminho que se apresentava exigindo iniciação nos oris de seus filhos. Até hoje, em algumas casas tradicionais o culto ao igbá individual é restrito e os filhos de santo não tem o direito de levar seus igbás para casa, mesmo após o Odun Ijê, pois os mesmos pertencem ao fundamento dos Ilê Axé e portanto não podem ser retirados do local.

Com a migração do Camdomblé para o Sudeste do Brasil, mais especif**amente para o Rio de Janeiro e São Paulo (posteriormente), o culto individualizado dos igbás foi se tornando cada vez mais forte, pois as casas surgidas após a migração, muitas vezes não tinham a mesma infra estrutura das casas matrizes e por outro lado os seus novos adeptos também não tinham o entendimento coletivo do culto aos Orixás, o que dificultou a propagação da forma original de culto.

Mais especif**amente a partir da década de 60 e principalmente na década de 70 o candomblé se fortaleceu no RJ e SP e muitos adeptos foram iniciados e com eles a pluralidade dos igbás foi sendo massif**ada.

Em sequência nas décadas de 80, 90 e no início dos anos 2000, com o retorno às raízes promovido entre os sacerdotes do Sudeste, os quais se dedicaram ao estudo das qualidades e caminhos dos Orixás, assim como ao culto de Ori em separado, a pluralidade dos igbás foi intensif**ada, pois iniciou-se a prática de "assentar" todos os "caminhos", "enredos" e "fundamentos" de cada Orixá cuidado por determinada pessoa.

Chegamos aos dia de hoje, onde não raro vemos Iyawôs com mais Igbás que muitos sacerdotes, zeladores de casa aberta, que necessitam cuidar de Orixás específicos para manter a harmonia de seus Ilês. Nos dias de hoje, com perdão da licença poética, é necessário um Peji Orixá para cada Iyawô, pois tantos são os fundamentos e tantos são os Orixás assentados que f**a difícil manter num mesmo quarto os Orixás dos demais irmãos de santo.

A cronologia apresentada foi necessária para embasar as questões que serão apresentadas:

1) O quê acontece com os os inúmeros igbás quando são abandonados pelo Iyawô/Egbomi?

2) Para onde vão todos os fundamentos necessários e concretizados nos assentamentos?

3) Podemos mudar de igbá assim como mudamos de roupa?

Apesar do culto desenfreados aos Igbás dos Orixás o princípio básico está cada vez mais esquecido: "O Igbá é a materialização da ligação do Ori do iniciado com seu Orixá".O Igbá é como uma planta, só tem vida quando é cuidado, quando recebe carinho, troca de energia e principalmente renovação periódica. Não se deve abandonar um igbá ou deixar de cuidar do mesmo por questões de foro pessoal/íntimo, pois quando fazemos isso estamos deixando enfraquecer a relação do Orixá com o mundo material e consequentemente afastando-o dos nossos Ori Inu (cabeça física).

Conclusivamente acredito que os Africanos,com seus igbás coletivos, estavam certos e como sou brasileiro, acredito também que as grandes mães das casas matrizes souberam traduzir e adequar o culto afro descendente sem descaracterizá-lo de maneira profunda.

Também acredito que o culto dos carregos, caminhos, enredos e fundamentos das qualidades dos Orixás seja necessário e particularmente pratico de maneira reduzida em meu Ilê Axé,pois não podemos ser a contra mão nem a palmatória do mundo do Candomblé, que é dinâmico, por tratar-se de uma religião viva que cultua as divindades representadas pelos elementos e fenômenos da natureza, em constante mutação e adequação.

A única coisa que NÃO CONSIGO ACREDITAR, nem ACEITAR é o abandono dos igbás ou a troca dos mesmos, por achar que determinado fundamento foi negado pelo seu zelador. Aceitar isto é o mesmo que renegar o okutá que um dia consagramos ao nosso Ori para ser a morada material do nosso Orixá.

Essa doutrina é para pensar, debater, perguntar, questionar, enfim.... EXERCITAR O AXÉ!!!

Um feliz 2016 a todos!!!

17/11/2015

Sobre os Orixás - Oxum

Oxum é a deusa das águas doces, mais especif**amente dos rios, divide com Yemanjá, sua mãe o domínio sobre o elemento "água", preferindo morar nas camadas mais profundas do rio enquanto Yemanjánas camadas superiores, mais revoltas em busca do caminho do mar.

É o Orixá que representa o princípio feminino, profundamente ligada à procriação dos seres vivos, à fecundação da terra e à toda forma de reprodução.

É a dona do ventre e protetora de todas as crianças, até que as mesmas comecem a falar e se tornem mais independentes, ou seja por volta dos dois anos de idade. Dizem que neste momento ela entrega as crianças à Yemanjá que deverá cuidar e educar.

Apesar de ser a dona do ventre é comum que suas filhas tenham certa dificuldade para engravidar ou que apresentem disfunções ginecológicas durante a vida reprodutiva com maior frequência que as mulheres filhas de outros Orixás.

Como deusa da procriação é simbolizada pelo vermelho vivo, representando o sangue menstrual. Consequentemente é representada pela pena do Odidé, O Ikodidé, que sacraliza o Ori de todos os iniciados, auxiliando no seu "nascimento".

Apesar de ser simbolizada pela cor vermelha, esta mesma cor é proibida a suas filhas, sendo portanto ewó (proibição) das mesmas. Existem alguns que são controversos em relação à esta proibição, mas prefiro ensinar da forma que aprendi e sigo até os dias de hoje.

Dentre os Orixás femininos é a mais nova, vaidosa, coquete e requintada, profundamente bajulada por sua mãe Yemanjá e seu marido Xangô, o qual em determinadas passagens mitológicas a mantinha presa em seu castelo com receio que fosse roubada por outro homem apaixonado e enfeitiçado por sua beleza.

É um Orixá extremamente voluntarioso, não admitindo ser contrariada em suas determinações. Diz-se que dá ap***s uma chance para seus filhos e que não volta atrás em uma decisão.

É simbolizada também pela pomba branca, animal que é ewó (proibição) em seu culto, por uma passagem mitológica na qual Oxalá lhe ensinou um feitiço para e transformar neste animal e daí poder fugir da prisão imposta por Xangô.

Amante do ouro, do luxo e da riqueza, quando manifestada deve ser adornada com muito metal dourado, tecidos amarelos, brincos, pulseiras e colares variados. Os tons de sua roupa tem a base no amarelo, porém aprecia o azul claro, o rosa claro, o salmão, coral, marrom e suas variantes e o branco.

As mulheres de Oxum seguem fielmente seu arquétipo e são,portanto, muito vaidosas, melindrosas, de certa forma egoístas, voluntariosas, coquetes, meigas e atraentes. São mestras no jogo da sedução e por vezes seduzem somente pelo prazer de se sentir belas, não tendo real interesse no parceiro eleito do momento.

Por ser dona da água é um Orixá de extrema importância nos rituais do candomblé, onde este elemento é fundamental. É a protetora do hunkó, do kelê, a dona da navalha e a criadora dos Iyawôs. Podemos dizer que sem Oxum não conseguiríamos iniciar uma pessoa no culto aos Orixás. O primeiro Iyawô, simbolizado pela Conquém (galinha d'angola) foi criado por Oxum como forma de abençoar os humanos com o contato direto com os Orixás e também por que "estava se sentindo muito sozinha... precisando de companhia".

Uma das curiosidades sobre este Orixá e que demonstra o quanto é mimada pode ser explicitada quando colocamos um presente para Yemanjá nas águas. Neste momento é muito importante colocar uma "lembrancinha" para Oxum também para que a mesma não se apodere do presente entregue à sua mãe,

Inúmeras são suas qualidades, e cada qualidade deste Orixá está relacionada à um aspecto do elemento água. Uma representa as lágrimas, outra os fluidos corporais, outra as águas das ervas, outra dos rios, etc... Como as mais conhecidas podemos citar: Opará, Ipondá, Ajagura, Karê, Abotô, Ayalá, Agboulá, Iberin, Okê, Bawila, etc...

Lição de casa: Entender a importância das águas é vital para a continuidade do culto aos Orixás.

Oré yeyê ô,ofi derí omon, Yeyê Oxum !!!

11/11/2015

Caminhos de Orixás / Qualidades de Orixás

Após a última postagem, quando falei sobre o Orixá Oxóssi, recebi um pedido para explicar o que são "caminhos" e "qualidades". Achei o pedido muito válido, pois mesmo pregando que o conhecimento genérico do Orixá é mais importante que o conhecimento detalhado das qualidades e caminhos, sei que os mesmos são de suma importância no culto praticado aqui no Brasil, então sem adentrar em questões muitos profundas vou compartilhar a informação que tenho...

Antes de tudo vou deixar explicitado que o que pratico e ensino é o que me foi passado pelos meus mais velhos e o que aprendi nos meus quarenta anos de iniciado.

Não tenho pretensões de achar que minha verdade é única e absoluta, até porque acredito piamente que o Candomblé não começou comigo e não terminará em mim, estou ap***s de passagem com a missão de disseminar a fé e a cultura baseada no culto aos Orixás.

Lenga lengas e divagações a parte vamos lá!

Podemos definir "Caminhos de Orixá" como as relação de um determinado Orixá com outro, ou seja, de acordo com os itans (mitologia), passados de geração em geração, os "caminhos" são os momentos exatos em que um Orixá cruzou o caminho de outro e teve alguma importância predominante no desenrolar de determinada situação. Traduzindo para o português claro e citando um exemplo, posso falar de Oxóssi Ibualamo que tem seu caminho com Obaluayê Azoni relatado em uma lenda na qual, após ter sido atacado por abelhas, juntamente com seu filho Logunedé, foi encontrado por Azoani e curado pelo mesmo através dos pós e poções que ele carregava em suas cabaças.

É importante ressaltar que "caminhos" são diferentes de "qualidades".

Podemos definir "qualidades" quando um determinado Orixá tem seus fundamentos, sua manifestação e porque não dizer sua própria origem, modif**ada pela ação ou intervenção de um outro Orixá. As "qualidades" de Orixá tem um aspecto muito mais profundo que os "caminhos" e f**a fácil de entender através do exemplo que usarei a seguir:

Oxum Opará, denominada como uma Oxum jovem,dona dos metais cortantes, dita como dona da navalha e muito agressiva, teve suas características originais modif**as pela relação próxima com Oyá. Seguindo o itan que fala dessa Oxum, Opará era mulher de Ogum, assim como Oyá e como todas as esposas era obrigada a f**ar em casa quando o marido ia para as batalhas, Oyá por ser uma mulher indomada e guerreira, amante de Ogum, acompanhava o mesmo nas batalhas, pois não tinha o cargo de esposa.

Oxum muito ciumenta (característica natural do Orixá) não admitia uma outra mulher desfrutando do seu marido longe do seu olhar e desenvolveu uma tática interessante... resolveu acompanhá-los nas batalhas, virou amiga íntima de Oyá e em troca de aprender a arte da guerra com a ex-rival, ensinou a mesma a arte e os encantos da feminilidade. A partir deste momento Oxum Opará teve suas características originais modif**adas, profundamente influenciadas por Oyá e portanto se destacou como uma "qualidade" com orôs distintos das outras Oxuns.

As "qualidades" influenciam o Orixá profundamente, modif**ando suas cores, seus elementos, suas comidas, a cor de suas firmas e miçangas e até mesmo seu comportamento.

Os caminhos influenciam menos e raramente modif**am os aspectos e características básicos do Orixá.

Lição de casa: Deve-se conhecer os aspectos e características genéricas de todos os 16 Orixás do panteão, antes de aprofundar-se no estudo dos "caminhos" e "qualidades" que somam mais de 200 (duzentas) variações distintas e que não seguem uma única receita de bolo, pois independentemente do relatado nos itans, ainda temos a manifestação do Orixá em determinado Ori (cabeça), que pode ter configurações infinitas, pois cada ser humano é um exemplar singular em potencial.

Reflitam!!!

Awon Orixá Ki gbogbo awurê!!!
(Que todos os Orixás nos tragam boa sorte!!!)

05/11/2015

Sobre os Orixás - Oxóssi

Tenho percebido em várias redes sociais, fóruns dedicados ao Candomblé e em diversos questionamentos feitos pelos membros do Egbé de Yemanjá, uma busca intensa e incessante sobre os orôs e informações detalhadas das qualidades/caminhos dos Orixás. Não vou questionar os motivos desta busca, prefiro, ao contrário, difundir as informações que sigo, pratico e dissemino sobre os Orixás de uma forma geral. Hoje inicio uma série abordando os Orixás do panteão de Ketu e nada melhor que iniciar pelo nosso Patrono e Rei Oxóssi.

Oxossi, deus dos caçadores, é o irmão mais jovem de Ogum, seu culto encontra-se quase extinto na África, nos países de língua Yorubá, no entanto é muito difundido no Novo Mundo, tanto no Brasil quanto em Cuba. Isto explica-se, talvez, pelo fato de Ketu, na África, haver sido completamente destruído e saqueado pelas tropas do rei do Daomé, no século XIX, sendo os seus habitantes
vendidos como escravos para o Brasil e para a Cuba.
A erradicação da população de Ketu chegou a tal ponto que, embora ainda existindo os locais onde Oxóssi recebia outrora oferendas e sacrifícios, já não existem atualmente, pessoas que
saibam ou desejem cultuá-lo.

Oxóssi é o Orixá das descobertas, das novidades e do desbravamento. Também é o Orixá das artes, do belo e da fartura. É um dos Orixás relacionados com a agricultura ao lado de Ogum e Orixá Okô, porém também é exímio pescador. Seu verdadeiro nome é ODÉ (caçador), termo encontrado em quase todas as suas cantigas e lendas, porém no Brasil, ficou mais conhecido por Oxóssi que é a junção das palavras Oxó (guarda noturno) e Wusi (popular), título recebido após matar o pássaro maligno enviado pelas Ajés para destruir a humanidade.

É filho mitológico de Apaoká, a jaqueira, árvore encantada que concentra o poder das Iyami Ajé em suas raízes. No panteão dos Orixás aparece como filho de Yemanjá e Oxaguian e irmão mais novo de Ogum, Orixás com os quais tem profundas ligações, orôs e caminhos. Também apresenta caminhos com Ossain, Oxum, Omolu, Oyá, Xangô e Oxalá. É identif**ado como pai de Logunedé, fruto do seu relacionamento com Oxum.

É um Orixá jovem, belo, forte, imponente e pouco agressivo. Apesar do seu caráter livre e desimpedido, pouco afeito a regras e costumes tem profunda relação com o "grupo" e com o bem estar do mesmo. Como um bom caçador está sempre pronto a prover o "grupo" com o resultado de suas caçadas e daí manter a fartura e subsistência do mesmo. Podemos dizer que Oxóssi é um Orixá com profundo espírito coletivo, daí ter sido alçado ao posto de Patrono e Rei de uma nação.

Suas contas são originalmente azul turquesa, mas encontram-se também diversas variações de tonalidade entre o azul piscina e o azul bebê. Entre as diversas cores de sua preferência o mesmo azul citado é predominante, porém também aprecia o verde (representando as folhas da floresta), o cinza (a pele dos elefantes), o vermelho (osun, pó ritual que afasta a morte) e o branco. Adora se enfeitar com as p***s, peles, couro, chifres e presas dos animais caçados e tem predileção pelo metal prateado, apesar de algumas vezes usar o dourado representando seus fundamentos com Oxum.

Seus animais prediletos são os galos plumados, cabritos novos, tatus, faisões e todo tipo de caça selvagem.

Seus locais de culto e oferenda são o interior das matas, beiras de rio e colinas selvagens.

Seus filhos são belos, agitados, distraídos, irrequietos, inovadores e faceiros. Costumam fazer amizades com facilidade e não raro se tornam o centro das atenções em meio à conversas com outras pessoas.

Quanto às qualidades isso é uma outra história, até porque de que adianta saber os orôs de todas as qualidades deste Orixá se não conhecemos o principal sobre ele.

Dentre seus caminhos podemos citar os mais conhecidos no Brasil e diretamente cultuados em nosso Egbé: Ibualamo, Inle, Erinlê, Isewê ou Igbô, Danadana, Aberujá, Akueran, Karê, Onisambô, Onikulê e Ajainpakô. Cada uma dessas qualidades tem características diferentes e variações no culto, porém o mais importante é que todas são manifestações do mesmo Orixá, compartilhando todas as características genéricas descritas acima.

Lição de casa: Conhecer as qualidades e caminhos dos Orixás é importante para a prática do culto, porém não é determinante para o conhecimento do mesmo. É como tentar comer a sobremesa antes do prato principal. Já imaginaram saborear uma feijoada depois de comer quindim?

Okê arô! Arolê! Okê Bambo Cimé!!!

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