25/12/2025
ISSO NÃO É CANDOMBLÉ É A CARNAVALIZAÇÃO DO SAGRADO
Estamos vivendo um dos momentos mais perigosos da história recente do Candomblé no Brasil. Um processo silencioso e ao mesmo tempo escancarado de carnavalização do sagrado tomou conta de parte das casas de axé no Rio de Janeiro e em São Paulo. O que deveria ser tradição, fundamento, ancestralidade e respeito virou performance, vaidade, ego e espetáculo para rede social.
O Candomblé diaspórico sempre teve como princípio preservar a tradição, não congelada no tempo, mas enraizada no fundamento. O que vemos hoje é o oposto:
menos fundamento e mais aberração.
Valores foram completamente invertidos.
O que era axé virou “pobreza”.
O que era sagrado virou “ultrapassado”.
O que era silêncio virou palco.
Ontem, comer a carne sacralizada era axé, partilha, comunhão com o Orixá. Hoje, na boca de pseudo-sacerdotes e pseudo-sacerdotisas, isso virou “coisa de gente atrasada”.
Onde antes havia Omolokun, Alarajé, Xim Xim de galinha, hoje surgem sushi, hot Philadelphia e gastronomia gourmetizada, como se o Orixá precisasse se adequar ao paladar da elite e não o contrário.
O adé chorão, símbolo de hierarquia, tempo e merecimento, virou adereço cênico.
Laço e rodinha foram esquecidos.
E agora vemos pessoas “incorporadas” em Orixá usando torço estilizado, orelhinhas, fantasias híbridas, inclusive em Orixás como Ogum e Omolu, o que é um completo despautério, uma violação direta do fundamento.
Isso não é evolução.
Isso não é ressignificação.
Isso é descaracterização.
Estamos transformando o Orixá em fantasia e o terreiro em passarela.
Estamos trocando ancestralidade por curtida, fundamento por estética, axé por aplauso.
E o mais grave: essa distorção confunde o leigo, especialmente os jovens que hoje aprendem tudo pela internet. Cria-se uma inversão perversa onde a matriz correta passa a parecer errada, e uma casa de décima geração de uma família que deturpou tudo por ego e vaidade passa a ser vista como referência.
Isso não é só um problema religioso.
É um problema político, social e racial.
Porque quando o Candomblé perde sua estrutura, ele perde sua função histórica de resistência, de organização comunitária, de preservação da memória preta. O sagrado vira produto. O Orixá vira personagem. A tradição vira mercadoria.
Isso não é Candomblé.
Isso é a carnavalização do sagrado.
Ainda há tempo.
Mas é preciso coragem para dizer basta.
É preciso responsabilidade com quem veio antes e com quem virá depois.
É preciso lembrar que axé não é performance e Orixá não é fantasia.
Que esse texto seja um apelo.
Um alerta.
Um chamado à consciência.
Porque se não acordarmos agora, amanhã não haverá mais o que preservar.
Autor : Pai Felipe de Logunede