31/07/2026
INCORPORAÇÃO E POSSESÃO
Quando falamos em incorporação, de modo geral associa-se ao apagão.
Essa ideia está muito mais ligada a possessão do que ao transe. Em África é comum vermos as pessoas possuídas pelos deuses. Elas entram em estado inanimado e de total possessão, onde faz-se necessário várias pessoas para segura-la.
No nosso Candomblé, o termo e o ato de possessão não são usados. Uma vez que sabemos que os deuses quando da incorporação no Candomblé, são meticulosamente ensinados. Daí a diferença entre transe e possessão.
Segundo minha tradição, o axé não se faz sozinho, ele precisa ser transmitido, de uma pessoa para outra, neste caso o Baba/Iya. O sacerdote em questão ao transmitir esse axé através da iniciação, da aquele neófito partículas de seu axe, lê-se, partículas do Orisa. Partindo deste princípio é mais fácil entender os termos Mãe e Pai de santo, pois quem lhe deu o Axé é mãe e pai daquelas partículas de espiritualidade pl8antadas em você durante a iniciação.
Existe um consenso em grande parte dos sacerdotes de Orisa, que essa partícula de espiritualidade precisa ser moldada, afinal, acabou de nascer e ainda está “crua”. E por isso é que ensinamos os Orisas do Candomblé a dançarem e reproduzirem atos de acordo com a cultura Candomblecista.
Tais posturas de doutrinação são ensinadas durante o transe do elegun, e digo novamente, não é segredo para ninguém que santo de Candomblé é ensinado!
Não é possível medir níveis de transe, mas a grande maioria de estudiosos que já escreveram e escrevem sobre o tema, descartam ou dizem ser raros o transe 100% inconsciente, o que caracterizaria a possessão, e possessão no candomblé, até então seria apenas o ato de bolar. Entretanto, cada um sabe de si, e cabe a cada um avaliar até que ponto o transe acontece.
Isso posto, não seria possível que os Orisas, possuindo seus adoxus fossem ensinados.
O transe nos permite lapidar a partícula do Orisa que foi plantada no Yawo, até o fim de seu ciclo iniciático. Danças e passos ritmados, momento de chegar, momento de ir embora, momento de abaixar, de levantar, etc, não nascem magicamente com a iniciação, isso dá-se no processo de “lapidação” do Orisa, ou melhor dizendo, de lapidação da parcela de Orisa plantada naquele corpo.
A temática daria linhas e linhas de dissertação, todavia, o essencial é aprendermos a separar o fenômeno de possessão ao transe.
PAI FOLHA