08/07/2024
O SILENCIOSO CONTAR DAS FOLHAS.
Dias há em que as folhas cantam. Noutros, contam histórias em silêncio.
Ele chegou com o silêncio de seu Pai. Sem alarde, somente o leve soar dos guizos anunciando sua presença. Também, com o silêncio que o àfòmó abraça as árvores, instalou-se em nossos corações e passou a integrar nossas vidas.
Como no mito, chegou com feridas, dolorido, alquebrado na fé. Yemọja o acolheu e dele cuidou. Renovou-o. E ele a todos nós.
O amargor das decepções passadas transformou-se em entrega plena, em generosidade e grandeza, como o milho se transforma em gbúgbúrú através do calor. Ọmọlu foi refeito, Ọmọlu o refez. Desta vez, trouxe-lhe o orúkọ de Iji Olóore, o Benfeitor. Também em silêncio, Ọmọlu curou-nos, ensinando que as adversidades da vida se curam com o tempo, fé e devoção. Atótóo!
Recebeu o posto de Bàbálòsanyìn do Ilé Ìyá Ògùn Òpó Airá. Zeloso e ciumentíssimo - não negava e, mesmo, afirmava isso - não permitia que nenhuma folha fosse tocada, quanto menos retirada, sem sua presença, sem passar por suas mãos. Agrônomo de formação, irritava-se bastante comigo quando eu queimava o mato seco: "pai-de-santo adora uma fogueira, que ódio que me dá"! Ameaçava dar queixa de mim, sabe-se lá a que santo...
Marcelo Lindenmeyer era meu amigo desde os áureos tempos do Orkut, há 20 anos. Por metade desse tempo, Ọmọlu o colocou sob meus cuidados de sacerdote. Afirmava sempre que Ọmọlu não o deixaria sofrer, quando chegasse a hora de partir. O Pai ouviu seu pedido. Passou para levá-lo no dia 04 deste mês. Abraçou seu filho antes da parada cardíaca, literalmente, não permitindo sequer que ele tivesse dor. Estivemos com ele minutos antes, eu e um dos filhos de quem era Ojúgbọ̀nà. Restou um corpo inerte que, nos 3 dias que se seguiram, foi mantido reanimado por procedimentos médicos e pela esperança de todos. Todos incrédulos.
Ontem, 7/7, a terra acolheu e cobriu-lhe o corpo, após cumpridos os indispensáveis rituais, seguidos dos cânticos que nos relembram a fragilidade da vida, que começa e termina com um sopro.
Morte não é oposto de vida, mas de nascimento! Vida é tudo aquilo entre esses dois momentos. Existência é tudo isso e mais além. Mais o além! Os iniciados no mistério não morrem com o corpo físico, não desaparecem. Renascem e perduram existindo no além.
As folhas não cantam nos próximos dias. Silenciaram em respeito. Mais adiante voltarão a sussurar, aos poucos, contando histórias. Nossa história!
"Nós não somos.
Nós estamos sendo.
Pare de querer ser rocha.
Aceite ser rio."
(Alejandro Jodorowsky)