Guerreiros da Malandragem

Guerreiros da Malandragem Página dedicada aos nossos queridos malandros e conhecimentos sobre, não ensinamos o mal!

💀👿👹💀👿👹💀👿👹💀👿👹Na época eu era dono de umaTaberna, a única ainda aberta Na estrada do Ouro a caminhoda Capital da colônia.E...
09/03/2021

💀👿👹💀👿👹💀👿👹💀👿👹
Na época eu era dono de uma
Taberna, a única ainda aberta
Na estrada do Ouro a caminho
da Capital da colônia.
Era conhecido então por
Joaquim Taberneiro.
Era mulato, então ter
Um negócio próprio era
O ápice, o maximo que
Alguém como eu poderia chegar.
Mas tudo que consegui na vida
Foi graças ao esforço conjunto
Com minha falecida esposa.

Porém é de outra mulher que
Vou falar agora.
Me lembro como se fosse hoje,
A taberna era pequena,
Só tinha oito mesas,
Mas o movimento era bom,
Então contratei uma dupla
De trovadores para cantar
Uma zuelas nas noites de
Sábado.
Foi em uma noite dessas
Que a vi pela primeira vez.
O lugar estava bem iluminado,
Acendi o dobro das velas habituais,
O povo todo aplaudia no
Ritmo da viola do trovador
Enquanto ele e o outro
Cantavam algo sobre
Uma mulher que tinha matado
O marido porque ele não
gostava do gato dela,
Cantigas malucas
Que fazem o povo rir.
Eu estava no balcão secando
Algumas canecas quando
A vi parada no fundo do salão.
Era linda, parecia muito
Uma dama dessas que se vê
Em pinturas,
Usava um vestido preto
E joias de prata,
Parecia ser rica e nobre,
Então estranhei, afinal
o que uma dama estaria
Fazendo naquela espelunca?
Eu era o dono, eu sei, mas
Tinha de admitir que
O lugar era mesmo uma
Espelunca.
Ela passou boas horas
Ali parada, encostada
Na parede olhando os
Trovadores com ar de sonhadora.
Não percebi quando foi embora,
Ela simplesmente se foi
Antes do sol raiar.
A semana passou tranquila,
E no sabado seguinte
Assim que os trovadores
Começaram a cantar
ela apareceu lá de novo.
Dessa vez fiquei de olho nela
E no fim da noite
Fui me apresentar,
De mansinho cheguei até
Ela e me curvei de modo galante.

🍺 — Boas Noites senhorita, está gostando da música?

Ela me ignorou completamente.

🍺 — Desculpe se estou a lhe incomodar, sou o proprietário da casa e queria saber se há algo que posso fazer para que a senho...
🌹 — O senhor está a falar comigo?

A olhei estranhando a pergunta.

🍺 — Sim dona moça, eu só vim...
🌹 — Pare já. Tudo o que as pessoas estão vendo é tu falar com a parede, elas não podem me ver. E para falar a verdade voce também não devia estar me vendo.

Olhei para ela desconcertado,
Achei que aquelas palavras
eram nada além de um
Passa-fora de uma dama
Que não queria ser importunada,
mas quando olhei
em volta percebi que muitos
dos clientes riam e cochichavam
Olhando pra mim.
Então percebi que aquilo
Tinha voltado a acontecer.
Aquilo que me refiro era
A questão de eu ver coisas
Que não deviam ser vistas.
Quando era menino
Via os espiritos dos escravos
Mortos vagando pelas ruas
Em torno das fazendas.
Mamãe havia me levado
Na benzedeira e após um
Longo periodo de trabalhos
Feitos na minha cabeça
Eu parei de ver tais coisas
E tive paz,
Mas agora estava acontecendo
De novo.
Virei as costas e fingi cambalear,
Mantive o olhar desfocado
Ate voltar para o balcão
e de propósito dei o troco errado
A alguns clientes,
Era melhor que pensassem
Que eu estava bêbado
A acharam que eu era louco.
No sábado seguinte a mulher
Apareceu lá de novo,
E no outro sábado, e depois
No outro, até que meses
Já haviam se passado.

Na vida eu tinha um único
sonho, uma coisa que queria
Mais do que tudo,
E como era coisa espiritual
Achei que um espírito
Podia ajudar.
Então eu decido falar com
Ela novamente.
Passei entre os clientes
Com a bandeja cheia
De canecos de cerveja na mão,
As canecas batiam umas nas
outras de tanto que eu tremia.
Quando estava bem perto
Dela cochichei:

🍺 — Queria falar com a senhora mais tarde, se for de se seu agrado. Peço que fique até os clientes irem embora.

Ela me olhou como se eu
Fosse um pedaço de
Estrume de vaca, mas fez
Isso, ficou até o fim.
La pelas quatro da matina
Fechei a casa, servi duas
Taças de vinho na melhor
mesa, apaguei todas velas
De sebo, elas fediam a toucinho,
Acendi na mesa a vela de
Cera de abelha que eu tinha,
Convidei aquela a dama a sentar
Ali comigo.
Ela sentou encarou as taças
Com deboche.

🌹 — Pra quê isso?

Ela passou os dedos pela taça,
Os finos dedos enfeitados com unhas
Longas pintadas de púrpura
Atravessaram o vidro
Completamente intangível.

🍺 — Quando eu era menino, via as almas. Eu ja as vi tocando em coisas, comendo coisas. Sei que a senhora pode beber isso se quiser.

Ela sorriu novamente
com deboche na feição,
Apanhou a taça e bebeu
um gole do vinho
Exatamente como uma mulher
Viva faria.

🍺 — Qual o seu interesse na taberna? Porque vem aqui todo sábado?
🌹 — Gosto da música.
🍺 — Da música?
🌹 — É. Meio século atrás, quando ainda havia sangue correndo em minhas veias... eu fui dona do maior Cabaré desta colônia. A parte que mais amava naquela inferninho era a música. Fazia tempo que não ouvia zuelas engraçadas como a que se canta nessa pocilga, por isso venho.
🍺 — Que interessante.
🌹 — Sei que sou muito bonita, mas você não me convidou só para contemplar minha beleza. O que você quer?

Suspirei fundo,
Sabia que podia ser
Um erro.
Mamãe sempre dizia
Que o diabo dá com a
Mão direita e depois
Tira com a esquerda,
Mas fazia anos que eu
Estava desesperado.

🍺 — A senhora sendo uma...
🌹 — Uma morta?
🍺 — É, a senhora saberia como... eu queria poder rever... é que eu amo muito uma pessoa.
🌹 — Tatiana?
🍺 — Como a senhora sabe o nome dela?
🌹 — Eu sei muitas coisas. Não sei como sei, mas sei.
🍺 — Pode me ajudar? Eu queria ver ela de novo.
🌹 — Ela morreu, não está mais no alcance de ninguém.
🍺 — Mas a senhora também morreu e...
🌹 — E fui condenada a vagar eternamente por esse chiqueiro chamado Terra, mas o peso que me condenou não condenou sua Tatiana. Ela foi para outro lugar, outro mundo.
🍺 — Não existe nenhuma maneira de alcançar a alma dela? Nenhuma... bruxaria?
🌹 — Só a mais perversa e imunda bruxaria pode enlaçar uma alma no outro mundo e trazer para cá, mas eu não vou fazer isso. Você tem que se conformar.

Conversamos mais um pouco
Mas ela não quis me dizer
Mais nada sobre aquele assunto.
Porem me contou de outros,
Me falou que vagava sozinha
Porque era odiada pelas suas iguais,
Que em vida havia sido muito má
E por isso na morte só o que havia
Era a solidão.
Vagava pelas estradas, pela floresta,
Pelos bares e bordeis,
Mas que eu era a primeira pessoa
Que em decadas lhe dirigia
A palavra de forma amistosa.

🍺 — E a senhora não sente remorso? Digo, por ter sido tão má?
🌹 — Eu não tenho uma gota de remorso.
🍺 — Então porque sinto tristeza na sua conversa?
🌹 — Auto piedade.
🍺 — Sente pena de si mesma mas não de todo o resto?
🌹 — Sim. Não me orgulho de ser assim, mas as pessoas são o que são.

Sei que vai parece bizarrice
Mas eu me afeiçoei a ela,
Fiz amizade com o fanstasma.
Todos os sábados ela vinha
Ver os trovadores e depois f**ava
Para batermos papo ate o sol
Raiar.
Isso durou anos.

Um sábado, após eu fechar
A taberna, sentei com ela
Na mesa, mas antes que
Pudéssemos começar a conversar,
Duas mulheres apareceram,
E quando eu digo apareceram
Eu me refiro a que em um
Piscar de olhos a mesa
de quatro cadeiras estava lotada,
Eu diante de dona Quiteria
E as duas moças nos
Outros assentos.
A da direta tinha parte do
Rosto oculto por uma franja
E a da esquerda parecia
meio que bêbada,
Ambas vindas do nada.

🌹 — Ora essa, a que devo a honra?
🍺 — Hum... boas noites... quem...
🌹 — Essas são Rosa Caveira e Maria Farrapo, não perca seu tempo Joaquim, elas não tem modos.

As duas mulheres
Me ignoraram completamente.

🌹 — O que vocês querem? — Quiteria falou com elas com secura na voz.
💀 — Menina teve uma visão. Você sabe que ela pode ter premonições.
🌹 — Jura Rosa...E eu com isso?
🌙 — Deixe de empafia! Foi com você a visão.
🌹 — E o que ela viu?
💀 — Uma mulher negra usando vestido branco, você, uma mulher albina, oito caixas de madeira de tamanhos irregulares, sensação de medo e perigo.

Dona Quitéria lançou
A cabeça para trás e
Gargalhou.

🌹 — Deixem de se intrometer, esse assunto não pertence a nenhuma de vocês.
💀 — Não precisa dizer o que tem nas caixas, apenas diga que não nos fará mal.
🌙 — E não minta, velha vadia, eu vou saber se mentir.
🌹 — As caixas guardam a magia mais perversa e imunda que já existiu nessa terra. No ouco do tronco da grande paineira rosa as margens da terra dos Xakriabá, protegidas com os encantos que impedem qualquer espírito de toca-las. Agora me deixem em paz, não há o que temer.

Em um piscar de olhos
Estávamos só nós dois
Na mesa novamente.
Todos os dias seguintes
Eu fiquei perturbado,
Eu havia crescido na terra
Dos Xakriabá, e eu conhecia
Uma painera rosa, a maior
Árvore da mata.
Me lembrei de quando
Ela disse que só uma magia
Perversa e imunda poderia
Me fazer ver minha esposa
Novamente, e era a coisa
Que eu mais queria na vida.
Era sexta feira e eu acordei
Decidido,
Me muni de facão e machado,
Montei no cavalo e enfrentei
Seis horas de viagem,
Enfim me vi diante da árvore,
Era a rainha da floresta.
A paineira tinha mais de dez
Metros de altura e um tronco
Que seria necessário cinco
Homens para abraçar,
Isso era muito anormal
Pois essas árvores não
Crescem tanto.
Mirei no tronco e dei
A primeira machadada,
Depois a segunda,
Trabalhei a tarde toda
Até que o buraco
era grande o suficiente,
E assim entrei.
O tronco era mesmo ouco,
Dentro achei as caixas,
Mas não eram oito e sim
Apenas seis caixas
De mogno,
Quatro eram cupridas como
estojos de violino,
Uma grande e retangular
como um baú, e então
Uma pequena do tamanho
de um livro.
Tentei abrir as caixas mas
Não consegui de modo algum,
Mesmo batendo com machado
Elas não abriam.
Carreguei o cavalo com elas
E fui saindo da mata,
Mas assim que cheguei na
Estrada ouvi uma gargalhada
Estridente, voz de mulher.
Sai na carreira e cheguei
Em casa já quase
Meia noite.
No sábado seguinte
Dona Quiteria veio de novo
E no fim da noite
A chamei para ir até meu
Quarto.
Quando ela entrou e viu
As caixas sobre a minha cama
Ficou paralisada,
Olhava para elas sem se mover
E por muitos minutos
Se manteve assim.
Então de repente senti
uma dor lancinante no peito
E cai deitado no chão,
A camisa vermelha de sangue.
Olhei pra ela,
Dona Quitéria tinha o braço
Erguido e entendi que havia
Rasgado meu peito com as unhas.

🌹 — Seu porco miserável! O que você fez?!
🍺 — E-eu achei... eu só quero ver a minha esposa, eu devolvo as caixas lá na arvore depois, eu juro! Por favor me ajude a ver ela, eu lhe imploro...

Ela não me respondeu,
Apenas ficou olhando para
As caixas por quase
Meia hora.
Tentei levantar várias vezes
mas não consegui.
Ela então começou a murmurar
Nomes de mulheres,
Entendi Padilha, Rosa Vermelha
e Sete Saias, mas os outros nomes
Não captei.
Moças foram aparecendo no
Quarto, era muitas mas por
Alguma arte diabólica o lugar
Parecia f**ar maior assim
mais mais uma chegava.

Uma mocinha pequenina
Deu um gritinho de susto quando
viu as caixas.
🌸 — Eu sabia! Eu sabia!
🎻 — Por Deus Quitéria, você disse que esses trecos estavam seguros.
🌹 — Padilha, eu não os retirei do lugar onde estavam e nem dei ordem para isso. Foi o porco que se meteu a besta. Agora se quiserem se defender, se não quiserem acabar como escravas, escondam essas caixas. Cada uma de vocês pegue uma e esconda, e eu preciso que alguém vá atrás de minha neta, ela pode ser usada pra...

Uma das mulheres,
A que tinha a franja
Cobrindo metade do rosto,
Percebeu que eu ouvia tudo,
Então olhou para mim,
Eu vi a meia face dela,
Era lindíssima,
Mas então ela escancarou
A boca em um esgar de pavor
E o seu cabelo da franja
Se ergueu no ar
Revelando a outra metade
Do rosto.
Era osso, a outra metade era
Uma caveira!
Gritei de horror ao encarar
aquilo, era pavoroso, repugnante!
Algo nela me malejou,
Minha cabeça bateu contra
O piso, desfaleci.
Nao sei quanto tempo fiquei
Desacordado, mas quando
Recobrei a consciência
Cinco caixas haviam desaparecido,
Apenas a menor estava sobre
A cama.
As moças tambem haviam partido,
Sobrando apenas dona Quitéria.

🌹 — Você queria tanto assim ver sua mulher?

Tentei me sentar mas o
Talho no peito doia demais
Então permaneci deitado.

🍺 — Sim. Eu a amo mais do que... mais do que a mim mesmo.
🌹 — Que mulher de sorte. Queria que alguém tivesse me amado assim algum dia.

Ela olhava para a caixa,
A face mergulhada em tristeza.
Então ouvimos alguém
gritar la fora, era a voz
Daquela moça mais jovem.
Quitéria olhou para a parede
Como se pudesse ver através
Dela, depois voltou a olhar para
A caixa, estava indecisa,
Mas se atirou na parede
e a atrevessou me deixando
sozinho no quarto.
Ouvi estalos, o teto estalava,
Olhei para as vigas do telhado
e rápida como um raio
Uma coisa branca desceu de lá,
Uma pessoa, ela desceu com
Tudo pisando no meu peito ferido,
Era uma negra vestida de noiva,
A saia esvoaçando na queda.

👹 — O nome da Neta, diga! Eu sei que você ouviu!

A mulher fincou o salto
de sua sandália no meu
Ferimento e pressionou.

🍺 — Aaaaa! Pare! Pare! Eu não sei!

Ela apertou mais forte,
Girou o calcanhar até
Me fazer urrar de dor.

🍺 — Eliza! Eu só ouvi o nome Eliza!

Ela saiu de cima de mim
E apanhou a caixa sobre a cama,
Então veio perto e pisou
Na minha garganta.

👹 — Obrigado. Diga a sua amiguinha que eu não vou perder essa chance. Ela vai me pagar, vou destruir ela. Diga isso a ela, e diga meu nome, eu sou Sete Catacumbas, tudo que ela fez comigo farei sete vezes pior com ela. A velha vai voltar, e o chicote vai estralar naquele rostinho.

Então ela apertou o pé,
Meu rosto ficou vermelho,
O sapato sobre o meu pescoço
não me permitia respirar.
O quarto tremeu, os móveis
sairam do lugar com o impacto.
A tal Sete Catacumbas gritou:

👹 — Ela quer entrar aqui, mas meu feitiço é forte, quando ela romper ja terei partido.

Minha visão ficou vermelha,
Via tudo avermelhado,
E daí apaguei.
Quando acordei, me sentei no
Chão, não havia dor em meu
Peito.
Dona Quiteria estava sentada
em minha cama.

🍺 — Onde está a mulher? A mulher de branco?
🌹 — Se foi. Levou a caixa. Meus Deuses... Joaquim você foi um tolo. Por conta de seu erro, sua intromissão, nunca mais verá Tatiana, nunca.
🍺 — Sim... fui tolo. Peço que me perdoe.
🌹 — Eu te perdôo, mas é você? Vai se perdoar? Perdeu a esposa para sempre.
🍺 — Não... sei que não a verei nessa vida. Mas quando eu morrer vou sim encontrar meu amor de novo.
🌹 — Quando morrer?

Ela tampou a boca abafando
Uma risada e apontou para o
Meu lado.
Olhei para onde ela apontava.
O corpo morto de um homem
Estava ali, a pele cinza, devia
Ter morrido a pelo menos duas
Ou tres horas.
O rosto dele era o meu.
Aquele corpo era o meu.

🌹 — Você já está morto Joaquim, e por morrido dentro de um feitiço, afinal aquela vaca enfeitiçou todo este cômodo para me impedir de entrar, isso lhe atingiu na alma. Você está impuro, e os impuros não vão para o céu. Acabou Joaquim, seu destino é ser como eu, um fantasma.

Não tive reação aquelas
palavras, apenas a encarei
Com o rosto inerte de emoção.

🌹 — Vamos seu grande id**ta, se mexa.
🍺 — Estou morto?
🌹 — Mais morto que pau de velho.
🍺 — E agora? O que eu faço? Pra onde vou?
🌹 — Venha comigo, eu sempre quis ter um servo, e agora tenho um.

Ela olhou novamente
Para meu rosto e dessa
Vez não segurou o riso,
Lançou a cabeça para trás
e gargalhou.

Créditos
💀👿👹💀👿👹💀👿👹💀👿👹
Felipe Caprini, Contos das Muitas Marias
Segunda Temporada — Conto 3
💀👿👹💀👿👹💀👿👹💀👿👹

👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄"Creck!"Eu sempre esse som quandome distraio."Creck..."Talvez eu seja mesmo louca,Já não sei.Fazia cinco mes...
03/03/2021

👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄
"Creck!"
Eu sempre esse som quando
me distraio.
"Creck..."

Talvez eu seja mesmo louca,
Já não sei.
Fazia cinco meses que estava
Internada naquele hospício.
Papai quando vinha
Me visitar dizia
"isto não é um hospício Eliza, é um convento"
E de fato o nome na placa
Na entrada era Convento de
São Bento Milagroso,
Mas só gente desiquilibrada era
Trancafiada lá.
Moças entregues ao pseudo
Amor das malditas freiras.
Mulheres velhas, secas,
E eu lhes digo que se essas
São as ditas "esposas de Cristo"
Não me admira nada ele
Não ter voltado.
Mas dentre essas malditas
Havia apenas uma que era
Gentil comigo, essa era a
Irmã Dulcenéia, uma freira
Jovem como eu e que também
era desprezada,
Era diferente, irreverente.
Só Dulcenéia acreditava em mim.
Toda vez que as freiras mais
Velhas viam irmã Dulcenéia
Falando comigo elas me
Olhavam feio e me mandavam
Voltar para o quarto.
Eu fui internada porque
Papai tinha medo de eu
Ir parar na fogueira,
Então me internou como louca.
Mas eu não era louca
Eu apenas tinha o dom de
Ver os espíritos dos mortos.
Sim eu os via, passavam
A esmo por todo canto,
Gente mal cheirosa,
De ar malacabado,
Espíritos desnorteados
Como mortos de fome
Ou vitimas de guerra.
Mas uma noite eu vi
Um espírito diferente.
Estava em meu quarto,
Que não era bem um quarto
e sim um cela com barras
De ferro na janela.
Era de noite e eu estava
Ali na janela observando
A movimentação dos escravos
De ganho indo embora
E o oficial da guarda
acendendo os lumieiros,
Então vi aquela mulher.
Eu sabia que era um espírito,
A gente que é médium
Sempre sabe o que vivo
E o que é morto.
Mas ela era diferente de todos
Os outros que ja tinha visto,
Andava pela rua com
movimentos suaves, como
Se deslizasse, usava um vestido
dourado que brilhava e tinha
Os cabelos negros caindo pelos
Costas. Era Belíssima.
Me grudei na janela para ver,
Cheguei a espremer a cabeça
Entre as barras de ferro.
E então a mulher parou no meio
Do caminho e graciosamente
olhou para mim.
O rosto era deslumbrante,
Era como uma estatua de Afrodite.
Quando aqueles olhos penetrantes
Encontraram os meus
Eu senti medo e sai da janela.
Sentada na minha cama pensava
"Que tipo de espírito era aquele?"
Pois ao contrário dos demais
Fantasmas obscuros,
Ela emanava luz.

💄 — Boas Noites meu bem.

Tomei um susto,
Movi a cabeça para o lado
lentamente e vi ali
Sentada na minha cama.
Era ainda mais bonita de perto,
Os lábios vermelhos
E os olhos verdes, escuros
De maquiagem negra.
Engoli em seco,
O maximo de palavras que
Um espírito ja havia trocado
Comigo foram rosnados ou
Coisas balbuciadas e
Lamentos sem nexo,
Então me assustei com a voz
Limpa e clara dela.

👱 — Hum... b-boas noites. Quem é a senhora?
💄 — Senhorita, pois sou ainda solteira. — Ela fez piada.
👱 — Pois bem, senhorita, qual é vossa graça?
💄 — Me chamam de Dama da Noite. E tu?
👱 — Meu nome é Eliza.
💄 — É um prazer lhe conhecer Eliza.

Ela me encarava fixamente
Me perscrutando.

👱 — E o que a senhora quer comigo?
💄 — Eu vim tirar-te daqui, faz muito tempo que a procuro.
👱 — Me procura? Por qual motivo?
💄 — Você corre perigo meu bem.
👱 — Perigo? Do que está falando?
💄 — Me diga meu bem, o que você sabe sobre a família de sua mãe?

De repente me vi conversando
com aquele espírito como se
Ela se fosse uma mulher viva.

👱 — De mamãe? Eu não sei muito pra dizer a verdade, ela morreu quando eu era pequenina.
💄 — Sua mãe era filha duma cafetina.
👱 — Ora como ousa dizer isso! — Me levantei da cama já nervosa.
💄 — Se acalme meu bem, acha mesmo que eu iria vir até aqui para falar mentiras? Sente-se, eu tenho de lhe contar o resto da história. É importante.

Me sentei novamente e ela
Contou, disse que minha avó
Materna se chamava Maria Quitéria
E que tinha gerado minha mãe
Por um descuido com
Um cliente.
Este cliente era meu avô,
Que criou minha mãe
Como se fosse filha legítima.

👱 — E qual a relação do passado de minha avó materna com essa história de eu estar correndo perigo?
💄 — É... sua avó não era apenas cafetina, ela era também uma bruxa.
👱 — Meu Deus o negócio é só ladeira abaixo heim...
💄 — Ora essa meu bem, de onde acha que vieram estes teus dons? Você é bruxa também. Uma não muito boa eu tenho de confessar, mas é. Existe um pertence de sua avó que só pode ser recuperado ou por ela mesma, o que já não é possível pois a muito está impossibilitada, ou por alguém vivo e de mesmo sangue. Vão vir atrás de ti para obriga-la a buscar esse objeto, e por isso eu vou tirar você... daqui... oh essa não!

A tal Dama da Noite
Desapareceu diante dos meus
olhos deixando a beirada
Da cama vazia,
então ouvi tres batidas
Na porta.

👱 — Sim?
👩 — Eliza? Está tudo bem ai? Posso entrar?

Respirei aliviada,
Era irmã Dulcenéia.

👱 — Sim claro, entre irmã.

Ela destrancou a pesada porta
E entrou, como era madrugada
Ela trazia nas mãos uma vela
E vestia uma simples camisola
Branca de dormir.

👩 — Tive um sonho com você, pra ser sincera um pesadelo. Vi o diabo assombrando seu quarto, uma sombra amaldiçoada rondando aqui. Vim rezar com você.

Me senti mal, só podia
Ser um aviso do divino.

👱 — Irmã, sei que não devo dizer essas coisas, a Madre superiora não gosta, mas... havia um espírito aqui dentro.
👩 — Eu acredito em você, vi em meus sonhos o lobo travestido de cordeiro, é um demônio Eliza, temos de rezar para São Bento afastar Satanás de nossas vidas. Vamos até a capela.
👱 — Mas eu não posso sair do quarto a noite.
👩 — É uma ocasião extraordinária, vamos, é aos pés de São Bento que vamos achar a salvação.

Ela saiu do quarto e eu
A segui, mas assim
Que cruzei a porta
Olhei em volta assustada
Pois de repente me vi em
Um saguão de um casarão
Abandonado, havia a
Nossa frente uma escadaria
forrada de carpete vermelho
E no topo dela a pintura
Retratando uma mulher moura
Muito bonita de vestes brancas.

👩 — Eliza que é isso? Onde estamos? Cadê o corredor? O corredor do convento... onde? Como?
👱 — E-eu não sei Irmã, não entendo.

Irmã Dulcenéia apanhou a
Medalha que trazia no colar
E começou a rezar:

👩 — Cruz Sagrada do Padre Bento, a Cruz Sagrada seja minha Luz, Não seja o dragão meu guia! Vade retro Satanás! Nunca seduzas minha alma, são coisas más as que brin...

💄 — Pare com isso! Sua desgraçada!

Olhei para a porta da sala
E diante dela estava
Dama da Noite,
Radiante em beleza.

👱 — Nos deixe em paz!
👩 — Corra Eliza! É o demônio! Ela que nos trouxe aqui!

Corremos escada a cima,
Entramos por um extenso corredor
Até chegar em uma biblioteca,
Tudo estava empoeirado
E cheio de teias de ar**ha.

👩 — Livros! Então aqui deve ter uma biblia! Procure Eliza, em posse da palavra de Deus o diabo não poderá nos tocar! Oh São Bento! Oh Nossa Senhora da Divina Conceição! Ajudai-nos contra o inimigo!

Estava assustada, confusa,
Então passei a procurar
Em cima de mesas e nas
Estantes tentando ler as
Lombadas dos livros sob
A fraca luz da lua que entrava
Pelas janelas de vitral.

👱 — Achei irmã!

Apanhei na estante o livro
Cujo a lombada tinha
Escrito em letras douradas
"Biblia Sacra"
Era pesado, muito mais pesado
Que um livro comum.
Tentei abrir o livro mas a capa
não se moveu.

👩 — Vamos ler o Salmo 91!
👱 — Deus meu eu não consigo abrir! Parece colado! As paginas não se movem!
💄 — Largue isso Eliza! — Dama da Noite apareceu na porta da biblioteca.
👩 — Não dê ouvidos a ela! É ela que esta lhe impedindo de abrir a biblia, ela teme a palavra de Deus! Mas eu sei Eliza que se você desejar do fundo de seu coração, desejar que isso se abra, então abrirá!
💄 — Isso não é um livro! Não!

Dama da noite se precipitou
Na minha direção,
Parecia se mover com
dificuldade e lentidão
Como se houvesse peso
em suas costas.
Desejei do fundo do
Meu coração que aquele
Livro se abrisse,
E então ele abriu.
O som de dobradiça enferrujada
Se movendo tomou conta
Dos meus ouvidos,
Olhei para aquilo que estava
Nas minhas mãos e o que
Vi não foi um livro,
Aquilo era uma caixa
De madeira.
Larguei no chão assustada
E de dentro da caixa
Saltou uma chave de prata
que tilintou pelo piso até
Chegar aos pés
Da irmã Dulcenéia.
Ela abaixou e apanhou
A chave com uma expressão
De extrema satisfação.

👩 — Eliza, Eliza, Eliza...
👱 — Mas o quê? Que é isso?
👩 — Feitiço de ilusão, tu acha que vê uma coisas mas a realidade é outra. Esta sempre foi minha especialidade. Por exemplo, sabe porque as freiras olhavam feio pra ti quando a viam falando comigo? Tudo o que elas viam era uma menina louca falando sozinha. Eu nao sou freira Eliza, eu... eu sou o Diabo.

Ela começou a gargalhar,
E então sua aparência mudou,
A pele se tornou escura,
Era a pele de uma moura,
A camisola se transformou
Em um suntuoso vestido branco
Como o de uma noiva,
Havia uma coroa de flores
em sua cabeça e muitas jóias
Por todos os lados.

💄 — Eu tentei ajudar, tentei evitar, mas não tenho forças aqui, essa é a casa dela.

A mulher de branco
olhou para Dama da Noite
com as sobrancelhas
Seguidas.

👩 — E eu estou impressionada, os sigilos que fiz eram para impedir a sua entrada aqui, mas você entrou. Meus parabéns Dama da Noite.
💄 — Vamos lá para fora e eu te mostrou do que sou capaz.
👩 — Não...de boba eu só tenho a cara.

Olhei para Dama da Noite.
👱 — E quem é ela?
👩 — O Diabo, eu ja disse. Eu sou uma morta, uma bruxa do passado.

💄 — Você ja conseguiu o que queria, agora vá embora!

Vi Dama da Noite cair
de joelhos ofegante.
A mulher de branco
Caminhou na minha direção
Com os olhos arregalados.

👱 — Dama da Noite... Faça algo, me ajude!
💄 — Não posso! Os símbolos, eles me deixam impotente! — ela apontou para o teto.

Olhei para cima e
Vi reluzir símbolos
Em vermelho, eram
Hieróglifos e estrelas,
Desenhos de cabeças de
Cabras e serpentes
engolindo a propria cauda.
Corri para fora da biblioteca,
Sentia o real sentido das
Intenções daquela
mulher de branco,
Então corri pelo corredor,
Ele pareceu muito mais longo
que antes, e ao olhar para tras
eu a vi, vinha girando,
Dançando pelo corredor,
Gargalhando.
Cheguei o topo da escada
Mas não pude descer,
Ela havia me alcançado
E me segurou firme
Pelo braço.

👩 — Jovem Eliza, para que a pressa? O convento f**a a quilômetros daqui, la fora é só mato.
👱 — Me deixe em paz por favor! Eu não tenho nada pra te oferecer!
👩 — Isso é verdade, nada mais para me oferecer, afinal já abriu a caixa e me deu a chave que abre as outras, todas as outras caixinhas misteriosas. Só que... voce tem sim o que oferecer, não para mim como eu mesma disse mas sim para as mocinhas, as tolinhas recém saídas dos cueiros, mocinhas como aquela tal Dama da Noite. Elas vão querer dar bom uso para esse sangue que corre em suas veias, para esse coração de Bruxa herdeira. E eu não posso me arriscar. É uma pena Eliza, você é tão bonita, loura e com esses olhos azuis poderia se casar e até ascender a nobreza. Mas...

Então ela me empurrou,
O tranco foi tão forte que
Vi tudo girar.
Senti o primeiro impacto,
Minhas costas bantendo
Contra os degraus,
O segundo impacto,
Meu quadril batendo
Contra a quina de um deles,
E por fim... "Creck".

Fiquei em pé rapidamente
e olhei para cima,
mas a mulher ja não estava
mais lá.
Então olhei para baixo
e berrei de horror.
Encarei atonita meu corpo
na base da escada,
De bruços com
A cabeça virada para trás.
O som de "creck" que ouvi
Foi meu pescoço quebrando.
Eu estava ali em pé
Vendo meu cadaver no chão.
Eu que toda vida vi as almas,
Agora era uma delas.

💄 — Eliza... venha.

Olhei para o lado e lá
Estava Dama da Noite
Com o rosto em uma
expressão de pura pena.

👱 — Eu... eu morri? Eu...
💄 — Sim meu bem. Venha comigo, vou ajudar você.
👱 — Mas... mas eu não vou para o céu? Quer dizer, eu sempre fui uma boa cristã...
💄 — Quando alguém humano toca em magia profunda, algo dentro de si se quebra, a natureza passa a não reconhecer mais a alma dessa pessoa. Não é permitida nossa entrada nem no céu nem no inferno, nem em nenhuma instância divina. Nós f**amos aqui, neste mundo.
👱 — Mas eu não fiz magia, eu não sei fazer isso...
💄 — Você rompeu o feitiço que matinha a caixa selada, e aquilo foi magia meu bem.
👱 — Não... não é justo...
💄 — Justiça não é um bem do qual as mulheres desfrutam nesse mundo. Vamos meu bem, eu vou lhe ajudar.

E ela me ajudou.
Me guiou pelos caminhos
Desconhecidos
E me manteve lúcida.
Por muitas vezes estive
A beira de me tornar
um fantasma desgarrado,
O medo das sombras do abismo
Tentaram se apoderar de mim,
Mas ela segurou minha mão.
Dama da Noite me ensinou tudo.
Me contou os segredos das cartas,
Das estrelas e das fases da lua.
Me transformou em alguem
Como ela,
Uma Bruxa,
Ou como dizem agora
"Uma Pombagira".
Dama da Noite
Me deu armas para lutar
e prosseguir.
Helena é a Dama da Noite original,
Ela é aquela que é dona
Deste sagrado nome.
Mas ela me tornou também
uma Dama da Noite.
Me tornou família.
Alguns chamam isso
De falange, e dizem
que sou falangeira.
O termo se adequa sim,
Eu no âmbito dos espíritos
ainda sou Eliza,
Mas nos terreiros eu sou
Dama da Noite.
Porém nenhuma nós falangeiras
É como a primeira,
Ninguém é como
a verdadeira Dama da Noite.
Naquela noite ela não pôde
me salvar,
Mas em muitas outras
ela me salvou.
Eu a amo e a respeito,
Eu sou dela.

A última vez que a vi foi
Ontem mesmo, já amanhecendo,
Após ter passado a noite
Incorporada em meu cavalo,
A festa acabou e eu ja ia indo
Embora, estava distraída
Ouvindo dentro de minha
Mente o costumeiro som
"Creck", coisa que me
Faz lembrar daquela noite.
Mas fiquei surpresa
quando na entrada
do terreiro a vi parada fumando
Um cigarro.
Era linda, os cabelos negros
Como petróleo caindo sobre
As costas nuas do vestido
Frente única.
Ela me olhou sorrindo
Com os olhos.

💄 — Vai tudo bem Eliza? Como você está, meu bem? Faz dias que não a vejo.
👱 — Vai tudo bem minha querida. Ando trabalhando muito, sabe como é.
💄 — Mulheres desesperadas por homens, homens desesperados por dinheiro, mães querendo a liberdade dos filhos presos, doentes querendo cura e blábláblá blábláblá...
👱 — O de sempre.
💄 — Deus sabe que nós somos santas Eliza, fazemos milagres.
👱 — Milagre de bruxa não é milagre, é obra do Satânica.

Nós duas demos risada
Do absurdo da coisa?

👱 — ️Vamos, Dama da Noite?
💄 — Vamos,.Dama da Noite.

De mãos dadas
Fomos embora para
O lugar dos espíritos,
A morada das moças
como nós.
Mas a qualquer hora
Voltamos para cá,
Basta chamar.

👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄
Felipe Caprini, Contos das Muitas Marias
Segunda Temporada — Conto 2
👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄👄🍸💄

Créditos Felipe Caprini

🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋A última noite foi a coisaMais tenebrosa que já vi.Estávamos todos nós no becoDa Pedra Furada, as mesasNa ru...
01/03/2021

🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋
A última noite foi a coisa
Mais tenebrosa que já vi.
Estávamos todos nós no beco
Da Pedra Furada, as mesas
Na rua, Nega Zefa no barril
De cerveja, a viola e o pandeiro
Dando aquele samba pra
Dar paz na madrugada.
Foi ai que aquele menino
Chiquinho do Churra
Entrou no beco gritando
👦 — Eles tão subindo o morro! Sete Facadas e os negos, tão subindo!

O samba parou, silêncio.
Então ela deu uma gargalhada.
💋 — Simbora meu povo! Quem tem pi***la, carregue! Quem tem faca, afie! Se eles tão subindo... eu to descendo.

Ela sempre foi certa nas coisas,
Mas o tempo foi cruel.
Estava sessentona
E mais maluca que nunca.
Depois que Zé foi nas águas de Oxalá,
O morro ficou sendo dela.
A policia estava um "nem-te-ligo"
Pro morro, afinal so quem morava
Lá era gente pobre.
Era Navalha que protegia
Toda aquela gente.
Foi ai que ela me chamou de canto
E disse nos cochichos:

💋 — Você sabe o que Sete Facadas quer, mas eu não vou dar. Você pegue aquele troço e suma pra dentro do mato, se acontecer o pior tu leve aquilo pra Rosa.

Assenti, não ousava
Contrariar Navalha,
Mesmo que tivesse naquele
momento a certeza
Que ela estava completamente
louca.
A Rosa que ela falava
Era Dona Rosa Vermelha,
Morta a mais de trinta anos.
Bom, sem questionar
Corri com meus cambitos
Finos de moleque até
O barraco dela, levantei as
Tabuas do assoalho do quarto
E peguei a caixa de madeira.
Devia ter ido embora do morro,
Me escondido no mato,
Mas quando sai pela porta
Do barraco ouvi lá na baixada
O som da bala comendo solta
E me distrai,
Feito um id**ta fiquei parado
Olhando lá pra baixo,
Para as vielas escuras da qual
Via os coriscos vermelhos
das balas correndo pra todo lado.

🗡 — Passa essa caixa pra cá.

Senti o gelado do cano da pi***la
Encostar no meu pescoço.
Olhei pelo canto dos olhos
E o vi, era Sete Facadas.
Não tinha alternativa,
ou dava por bem ou ele
Atirava em mim e pagava
A caixa de qualquer jeito.
Ergui o braço pra ele apanhar
Mas então ouvi o disparo
E ele caiu ajoelhado.
Olhei para frente e lá vinha
Maria Navalha com a pi***la
Erguida na mão.

💋 — Ta bem Moreno? Ele te furou?
👦 — To Bem. Ele morreu? — olhei para o homem no chão.
💋 — Quem dera. Ande, vamos! Temos de ir até Rosa.

Não consegui me mexer,
O que vi me deixou
Muito assustado.
A camisa de Navalha estava
cheia de buracos minando sangue.
Contei por cima pelo menos
Onze furos.

👦 — A-a se-se-senhora...
💋 — Isso não é nada, vamos rapido!

Me puxando pelo braço
Nos subimos a viela e entramos
No matagal,
Corriamos a toda velocidade
E eu a toda hora olhando
Para os ferimentos no corpo dela,
E a cada segundo eu via
Menos sangue saindo dos furos,
Até que não vi mais furos na pele,
Os buracos do tecido revelavam
Por baixo da camisa uma pele
Limpa e imaculada.
Continuamos correndo como
Loucos, agora já por entre
As árvores, até que
Me revoltei e parei.

👦 — Dona Navalha o que está acontecendo? Como seus ferimentos se curaram? E do que estamos fugindo?

Navalha olhou tras e apontou
Para as árvores distantes.

💋 — Ela, estamos fugindo dela.

Olhei para trás e vi
Algo branco, era como
um lençol branco flutando
Por entre as árvores
E vindo na nossa direção.

👦 — Que diabo é aquilo?
💋 — Não importa. Vá Moreno, vá que eu vou f**ar pra segurar ela. Ande! Vá!

Olhei para o rosto de Navalha
E me espantei, estava nova,
Era como uma moça
na casa dos vinte anos.
Corri dali segurando a caixa,
Corri por mais de meia hora
Até chegar na estrada.
Corria sem pensar nas coisas
Que tinham acontecido
Pra não embaralhar a cuca.
Ja não podia correr mais,
Mas andava rápido.
Cheguei até aquela encruzilhada
Perto da ponte,
Ali Navalha havia dito
Que trinta anos antes não era
Rua e sim um terreno
Com um enorme casarão,
Que bem em cima da encruzilhada
Ficava o antigo cabaré da cidade.
Fui no meio da encruzilhada,
Lugar muito escuro
Iluminado por uma lua fraca.
Sabia que era maluquice,
Sabia sim, mas Navalha
Deu ordem de fazer aquilo,
Então fiz o que ela queria.
Respirei fundo e mesmo
Me achando bem um diota
Fechei os olhos e falei:

👦 — Rosa Vermelha, eu trouxe a caixa, Navalha mandou lhe dar.

Senti um vento gelado
E um arrepio do lado esquerdo
Do corpo.
Abri os olhos e no ato
Meus joelhos começaram
a bater um no outro
Do tanto que eu tremi.
Ela estava a cerca de
Vinte metros, vinha na
Minha direção,
Mas ela não andava,
A barra de sua saia
Estava a um palmo do
Chão e ela vinha deslizando
No ar.

👦 — A-ave Maria cheia de graça, o senhor é convosco, bendi... ai meu Jesus o que é isso...
🌹 — Está rezando porque? Não foi você que me chamou?
👦 — Fo-fo-foi sim... A ca-ca-ca...
🌹 — Caixa? Veio me dar a caixa?
👦 — Si-si-sim...
🌹 — Então me dê.

Ela se aproximou mais,
A pele era branca translucida,
O vestido vermelho vivo
E o cabelo negro revoavam
Mesmo sem vento forte.
Que medo meu Deus,
Aquilo era coisa do outro
Mundo.
Quando ela esticou o
Braço para apanhar
a caixa eu larguei
A caixa no chão
Virei as costas
E corri, corri muito,
Sentia o corpo tremendo
E a umidade nas pernas,
Te digo que me mijei todo
Na frente daquele diabo.
Eu corria rezando o
Pai nosso e a Ave Maria,
O Credo, a Salve Rainha,
Até da oração do São Bento
Eu me lembrei.
Aquilo não era normal,
Mas eu vi sim Rosa Vermelha.
Corri de volta pelo mato
O suor frio escorrendo pela testa,
Fui pela trilha
Até chegar no ponto onde
Havia deixado Navalha,
Mas lá não havia ninguém.
Corri de volta pro morro
E fui pra casa dela,
Mas também não tinha ninguém.
Desci o morro até a baixada
E ali foi que meu coração gelou.
Na curva do Assussena tinha
Uma monte de gente parada,
Muitos chorando.
A policia tava lá, guarda montada,
E o povo dizia a eles pra não
Levarem o corpo dela,
Que era da nossa família.
Mas dela quem?
Perguntei a Dona Zena,
Que era a dona da quitanda
E que tinha visto tudo
Da janela de casa,
Perguntei a ela
Quem era a pessoa morta lá
Em baixo e ela disse
"Mataram Navalha".
Corri até o corpo dela,
E estava lá, o peito cheio
De buracos de bala.
Zé do Coco tava junto
A policia explicando qualquer
Coisa que não entendi,
Assim que os guardas se foram
Eu perguntei:

👦— Quem matou ela?
🧔🏻 — Foi o Sete Facadas. Ela atirou nele, matou o desgraçado bem ali na praça, mas ele antes de morrer descarregou tres pi***las nela.
👦 — Mas como na praça? Ela atirou nele lá em cima, na porta do barraco dela! Eu vi!

Zé do Coco me olhou como se
Eu fosse doido.

🧔🏻 — Moreno, Navalha não subiu o morro. Do que é que tu ta falando?
👦 — Ela me mandou ir na casa dela, e eu fui. Então o Sete Facadas apareceu lá, ela também, e atirou nele.
🧔🏻 — Se anda bebendo demais Moreno. Eu vi a hora que lhe mandou ir na casa dela, e em seguida ela desceu o morro com o bando. Assim que desceu foi baleada. Voce ta vendo fantasma é Moreno? Ande, vamos levar o corpo dela lá pra cima, era nossa amiga, vamo enterrar ela lá no pico.

Fui ajudar a carregar
o corpo, Mas todo momento
Meu pensamento tava longe.
Se ela morreu lá em baixo,
Quem foi que correu comigo
pelo mato?
Será que eu tava mesmo doido?
Enterramos ela no pico
Do morro do lado de uma
Pedra que ela gostava de f**ar
Sentada olhando o mar.
Houve muita tristeza aqueles dias.
Evitei contar minha história
A qualquer pessoa,
Tinha medo de me mandarem
Pro sanatório da carioca,
Então eu mesmo me convenci
Que tudo fora um sonho,
Que nao tinha visto Navalha
Após a morte,
Que não tinha corrido com ela
Pro meio do mato,
Que não tinha levado a caixa
Pro fantasma na encruzilhada.

Os anos passaram,
Os anos não perdoam.
E eu nunca esqueci dela,
Toda vida o pensamento
Ficou nela.
Quando tinha por volta de
Quarenta anos houve um
Surto de doença da caixa do peito
E eu fui contaminado.
Eu fiquei doente do pulmão.
Era coisa muito difícil de curar.
Pra não contagiar o resto
Do morro eu me isolei lá
Na casa mais alta,
No barraco de Navalha.
A tosse era muito forte
E me arrancava sangue pela boca.
Estava fraco e não conseguia
Mais andar.
Porém uma noite alguém
Bateu na porta do barraco
E eu de supetão levantei,
Nem percebi que não estava
Mais fraco e nem tossindo.
Abri a porta e vi um homem
De pele preta bem escura
Com bigodinho aparado na regua
E vestindo paletó branco e
Chapéu Panamá.

👦— Pois não?
🃏 — É tu que é o Moreno?
👦 — Sou eu sim senhor. E o senhor quem é?
🃏 — Eu sou Zé.
👦 — Zé da onde meu senhor?
🃏 — Sou Zé Pelintra. Venha Moreno tem alguém lá querendo falar contigo.

Olhei por cima do ombro
daquele senhor e vi ela
Ao longe sentada na pedra,
Maria Navalha com os cabelos
esvoaçando ao vento.
Fiz menção de me virar,
Queria voltar ao quarto
E pegar meu chapeu antes
De ir, afinal ela era uma
senhora muito distinta
E não era boa educação
Aparecer sem chapeu,
Mas Zé Pelintra me segurou
Pelo braço.

🃏 — Não filho, não olhe la dentro. Deixe o que esta lá para o povo enterrar. Venha, agora você é um dos nossos, você vem com a gente.

Sai com ele pela porta
E quando dei por mim
Estava bem vestido,
Tinha minha camisa listrada
E um bom chapéu na cabeça.
Me acheguei a dona Navalha
E ela sorriu enquanto
Apertava minha mão.

👦 — Eu entreguei a caixa dona Navalha, eu fiz o que a senhora mandou.
💋 — Eu sei Moreno, e lhe agradeço muito. Agora vamos embora.
👦 — Vamos pra onde?
💋 — Malandro se arranja em qualquer lugar. Vamos caçar um canto pra fazer um pagode até o sol raiar...

Então nós tres descemos
o morro.
Durante a descida encontramos
Um bocado dos nossos,
Maria do Cais, Zé Pretinho,
Zé da Brilhantina, Zé de Légua,
Zé Pereira e outros.
No fim éramos muitos.
Fizemos nosso pagode aquela
Noite, e em todas as outras noites.
Ate os dia de hoje estamos por ai
Ao som do pandeiro, no samba
De roda, as vezes em praça,
As vezes em fundo de quintal,
As vezes no jongo e muitas
Vezes dentro de uns terreiros.

Créditos:
🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋
Felipe Caprini, Contos das Muitas Marias
Segunda Temporada — Conto 1
🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋🌹🍷💋

Endereço

Rio De Janeiro, RJ
21

Notificações

Seja o primeiro recebendo as novidades e nos deixe lhe enviar um e-mail quando Guerreiros da Malandragem posta notícias e promoções. Seu endereço de e-mail não será usado com qualquer outro objetivo, e pode cancelar a inscrição em qualquer momento.

Compartilhar