18/08/2026
Missa da Esperança de 17/08/2026
Transcrição da Homilia do Padre Luís Maurício
“Meus irmãos e minhas irmãs, primeiro de tudo, a gente, como comunidade paroquial, a gente tem sempre a alegria de acolher as famílias que chegam até aqui para pedir a missa de sétimo dia, um mês, um ano, seja o tempo que for. Tempo é só uma nomenclatura nossa. Deus não tem tempo. Deus é eterno. Um dia para Deus é como mil anos, mil anos é como um dia, já diz o salmista.
O tempo que for, é tempo de celebrar a vida e trazer a vida diante de Deus, reconhecendo o que São Paulo nos diz, numa outra passagem bíblica que não está aqui hoje, não vimos hoje aqui, não escutamos. Que quer morramos, quer vivamos, pertencemos ao Senhor Jesus.
Talvez a nossa grande dificuldade, nós sabemos, existem, digamos assim, duas etapas das nossas dificuldades, eu diria assim, diante da realidade da morte: aquela que se apresenta de uma forma antropológica, humana. Todos nós nascemos e, quando nascemos, já estamos direcionados, orientados para a realidade da morte física e vamos morrendo aos poucos, e a ausência vai chegando aos poucos também na vida da gente, e que nós sentimos profundamente, nos entristecemos, tudo muito normal. Alguns podem até, adiante da própria vida e da vida de quem faleceu, ter um ato de decepção, porque gostaria tanto que fosse do seu jeito, da sua maneira, e não é.
Então, nós precisamos nos colocar, em primeiro lugar nesse lugar que é da fragilidade humana. É o lugar da fragilidade que todos nós experimentamos e que, pelas leis cósmicas, biológicas, físicas, químicas, não tem nada que possa nos assustar, que nós precisamos nos encaminhar para essa realidade.
O susto talvez que nos afronta, e aí eu acho que esse é muito sério e, biblicamente, ele é muito sério, é quando nós temos a pretensão de achar que as pessoas nos pertencem. E o pior ainda, quando nós achamos que nós temos o pertencimento de nós mesmos e que podemos fazer da nossa vida o que bem entendemos.
Eu acho que esse é o susto maior. Porque a gente vem de se deparar com a realidade da fragilidade do outro e, enxergando a fragilidade do outro, nós enxergamos também a nossa própria fragilidade e nem sempre nós estamos preparados para lidar com a fragilidade e, consequentemente, nem sempre nós estamos preparados para entender que a vida humana tem um pertencimento que é eterno.
E esse pertencimento diz respeito àquele que nos criou por amor, antes mesmo da criação de todas as coisas, diz São Paulo, na carta aos Efésios, capítulo 1, versículo 3: Deus já havia nos escolhidos para que nós fôssemos santos e imaculados no amor, a ponto de que quer morramos quer vivamos, pertençamos ao Senhor Jesus.
Quando nos falta, e nós vivemos num mundo onde essa falta se faz presente e isso se registra na vida de muitos de nós, quando nós temos essa falta da consciência psíquica de saber espiritual, de saber a quem nos pertencemos. Aí f**a difícil mesmo. Aí não tem jeito.
Porque aí a gente vai cavar de tudo quanto é jeito, tem gente até que diz, vai bater cabeça para tudo quanto é canto. E não vai encontrar respostas. Não vai encontrar mais do que respostas. Não vai encontrar sentido de vida.
E aí o desespero, a revolta, a tristeza acabrunhada, a depressão chega, as incompreensões, o vazio existencial que a ausência de uma pessoa pode nos trazer porque a gente não tem o substrato que a experiência da fé nos oferece.
E essa celebração, por isso eu dizia no início da celebração, que ninguém esteja aqui somente para assistir. Acho que, cada dia que passa, a gente vai compreendendo que a gente não vai na missa do sétimo dia de alguém só porque é vizinho. Não basta. Porque a missa do sétimo dia é uma experiência de uma memória afetiva que reside em Deus.
Por isso aqueles que aqui se encontram precisam estar respaldados de um sentimento interno, profundo, de credibilidade no amor de Deus. Porque se eu venho para a missa, para entregar a vida do meu amigo, do meu parente, do meu pai, da minha mãe, da minha sogra, do meu filho, entregar a quem?
Se muitas vezes nós não sabemos nem o amor definitivo de Deus para a vida de cada e única pessoa humana. Vamos entregar o que? Quem vai acolher? Se muitas vezes nós nem cremos. Então, a liturgia de hoje ela tem uma tomada de dizer, por isso que é belíssima a tanta primeira leitura da carta de São Paulo aos Coríntios que nos coloca nesse lugar da fragilidade, dizendo: nós sabemos que esta tenda que é o nosso corpo que é a nossa morada terrestre foi desfeita, vai ser desfeita, mas que nós recebemos diz São Paulo, a esperança de Paulo, na primeira leitura, nós recebemos uma habitação eterna.
Daqui a pouco quando eu for fazer a liturgia, presidir a liturgia eucarística, eu vou realizar um prefácio que vai dizer justamente isso que São Paulo também nos disse na primeira leitura, que para os que creem em Cristo, a vida não é arrancada, mas que o desfeito, o nosso corpo mortal - São Paulo chama aqui na primeira leitura - de que esta tenda, esta morada esse corpo mortal desfeito, Paulo e a liturgia diz, nos será dado nos céus um corpo imperecível, uma morada eterna.
E quando nós olhamos para o Evangelho, o Evangelho de São João — belíssimo o Evangelho de São João — porque é um fato concreto de uma família que também precisa revigorar o sentido da fé. Eu disse um susto. Eu queria traduzir um segundo susto, dizendo que é o susto de que daquele ou daquela da família, dessa ou daquela pessoa, que é apanhada pela realidade da morte, meio que de surpresa, porque ainda não compreendeu que a vida pertence a Deus.
E que, por causa disso, também Marta e Maria indagam, como todos nós indagamos. É comum, é normal, mas a nossa indagação, ela precisa ter desfecho, ela precisa ser finalizada, ela precisa adquirir sentido.
E diz o Evangelho, que muitos judeus tinham vindo visitar Marta e Maria e, quando ouviram dizer, que Jesus estava chegando, a ansiedade de Marta foi ao encontro de Jesus. Maria ficou sentada e, imediatamente Marta, como muitos de nós, também pensou: por que que meu irmão morreu? Por que que foi a minha mãe? Por que que era o meu melhor amigo? Por que que foi o meu filho, meu tio, esse meu parente? Indagação humana, afetiva.
Não tem como negar essas indagações, mas tem como recobrar o sentido de saber e de reconhecer, o único que pode, no mistério de Deus, trazer a cada um de nós, o alento necessário a consolação necessária, de que a vida não é arrancada e nem é perdida, mas de que a vida é única e singular.
A vida é única e singular. E de que a vida que foi iniciada no ato do amor de Deus, na nossa concepção terá um itinerário, tem um itinerário, e o itinerário é a eternidade do amor de Deus.
Por isso eu gosto simples de dizer, que nós nascemos de Deus que é amor. Nós sustentamos - embora a gente a gente faça caramba diante de Deus, achando que a gente pode tudo, que a vida é minha, eu faço o que eu bem tenho, o que eu quero, mas a vida é sustentada por Deus.
É muito simples, eu gosto também de falar nessa missa. Para de respirar ai? Quem se atreve a parar de respirar? Se isso não é o suficiente para você entender que a sua vida é o sopro divino. Se você não entendeu isso. Para de respirar.
De que nós somos sustentados por esse amor de Deus, e não tem um outro caminho, um outro itinerário - Deus não quer que tenhamos pelas nossas opções e pelas nossas decisões - não tenhamos outro caminho, se não a morada do amor aquela que é o próprio Deus.
Então, vamos abrir nosso coração nessa celebração. Eu sempre fico, como eu já disse: uma alegria cristã. Alegria cristã não é efusividade. Não é arranjos, digamos assim, de satisfações pessoais. A alegria cristã é uma atitude profunda de acalentar-se, porque se confia em Deus. Isso é que é a alegria para a vida cristã. É o acalento de saber que nós confiamos em Deus, e que por conta disso, nós temos sustentação. Custe o que custar. Sofra o que possamos sofrer. Vivamos o que a vida nos permite viver. Seja lá qual for a circunstância, mas nós mantemos, não obstante o coração que sofre, a dor se faz presente, as vezes quem sabe a falta de compreensão, de falta de entendimento. Tudo isso é possível.
Mas São Paulo também diz, na Carta aos Tessalonicenses, que nós não fiquemos tristes como quem não tem fé. Uma coisa é f**ar triste. Outra coisa é f**ar triste e ainda não ter fé. Aí desgraçou tudo. Aí perdeu-se o sentido de tudo, porque a gente não terá a bem-fazeja alegria de confiar no amor de Deus. Então, confiemos em Deus.
Eu agora experimento também a dor de vocês. Eu estou aqui experimentando a dor da minha ministra da Eucarística, que eu acompanhei nesses últimos seis meses, quase que todo dia, a Leila. É uma dor que chega e chega mesmo, mas a fé tem que nos dizer mais. A fé tem que ponderarmos a própria vida e colocarmos na direção do bem supremo que é o amor de Deus.
E finalizando, para que a gente entenda bem isso, São Paulo vai dizer ainda na carta, para nós no monstro do capítulo 8: Quem pode nos separar desse amor de Deus, a morte, a espada, a doença, nenhuma dessas ou outras circunstâncias podem nos separar do amor de Deus porque se Deus é por nós, quem será por nós.
Então, sigamos nesta celebração, renovando a nossa fé e experimentando o que São João também nos diz: “Não se perturbe o vosso coração, tende fé em Deus, tende fé em mim”, diz Jesus, no Evangelho de São João. Na casa do meu pai tem muitas moradas. Silenciamos alguns instantes.
Isso que eu falo não é uma intelecção. As vezes a inteligência nem alcança. Isso é um sentimento de fé. Ou se tem ou não se tem. E ponto final.
No dia do nosso batismo, essa vela grande, aqui na frente, chamada Círio da Páscoa, o Círio Pascal, que é acesa depois da bênção de uma fogueira, de um fogo santo, é aceso esse Círio como um sinal de Jesus ressuscitado no meio da comunidade de fé. Toda vez que a gente acende o Círio, é uma forma da gente dizer: Ele está no meio de nós.
No dia do nosso batismo, esse Círio esteve aceso. E, lá o Padre, o Diácono, o Bispo que te batizou, acendeu uma vela, que é o Círio, e entregou a você, através das mãos dos seus pais, dos seus padrinhos, dizendo: “recebe a luz do Cristo”. Nessa celebração, nós queremos fazer memória desse dia. Porque nós cremos que a luminosidade de Deus nos acompanha por toda a vida, a ponto de que um dia nós também possamos experimentar a visibilidade da luz que é Deus eternamente.
Por isso que no dia da encomendação do corpo, as famílias que chamam o Diácono, o Bispo, o Padre, para fazer a encomendação do corpo, lá a última palavra que é dita na celebração é, brilhe para Ele, para Ela, a luz de Cristo, a luz de Deus.
Então, a gente inicia a vida com a luz pelo batismo, e a nossa vida é definitivamente entregue a Deus com a luminosidade da fé. Para fazer memória disso, nós vamos todos f**ar de pé e, enquanto cantamos, eu vou acender uma nova vela no Círio da Páscoa e, depois de um candelabro de sete velas, sinal da plenitude da vida diante de Deus. Vamos acender e fazer a memória de todos os falecidos e a memória nossa. Cantemos.”