28/05/2026
Olá pessoal, sou o Babá Olutoju Léo, da Casa Quirambò e venho trazendo um assunto pertinente para reflexão, seja no seguimento de Ifá, Divindade e Ancestralidade. Que é a Retidão.
A Retidão e o Bom Caráter:
A retidão é um dos pilares mais profundos do caráter humano. Ela significa agir de acordo com a justiça (justo), a moral e a verdade, mantendo uma conduta firme e íntegra, mesmo quando ninguém está olhando.
A palavra vem de "reto": aquilo que não se desvia, que segue uma linha direta. Na vida, a retidão é a bússola que impede você de se desviar para caminhos fáceis, porém desonestos.
Filosofias ancestrais e tradições como o culto aos Ancestrais, Divindades e o Ifá, a retidão está intimamente ligada ao conceito de Iwa-Pele/Rere (o bom caráter).
É a certeza de que nossas ações presentes moldam nosso destino (Ori) e trazem o equilíbrio necessário para a vida.
A retidão não é apenas "seguir regras". Ela vai além.
Uma pessoa reta não diz uma coisa e faz outra. Há uma coerência profunda em suas atitudes.
É fazer o que é certo porque é o certo a se fazer, e não para obter vantagens, aplausos ou evitar punições.
Resistência às tentações é a força moral de recusar o caminho mais fácil (como uma mentira ou um suborno) para preservar a paz de espírito e a dignidade.
Você vai a uma padaria, paga com uma nota de 20 reais e o atendente, distraído, lhe dá o troco como se você tivesse pago com uma nota de 50. A retidão faz você apontar o erro imediatamente e devolver o dinheiro excedente, sabendo que aquele prejuízo pesaria no bolso do trabalhador.
Um projeto em equipe, seu chefe elogia exclusivamente você por uma ideia. Agir com retidão é dizer: "Gratidão, mas essa ideia foi do meu colega, eu apenas ajudei a executá-la".
Você promete ajudar um amigo a se mudar no sábado de manhã. Na sexta à noite, surge um convite para uma festa incrível. A retidão faz você honrar o compromisso assumido com o amigo, colocando a lealdade acima do prazer momentâneo.
Em vez de inventar uma mentira confortável para justificar um erro ou a ausência em um compromisso, a pessoa reta assume a responsabilidade e diz a verdade, respeitando a inteligência e o sentimento do outro.
Encontrar uma carteira perdida na rua cheia de dinheiro e documentos, e mover mundos para localizar o dono sem tocar em um único centavo.
Não furar a fila do trânsito ou do mercado quando ninguém está fiscalizando, simplesmente porque você reconhece o direito do outro que chegou antes. A seguir, compartilho uma passagem de Orunmilá para reflexão.
O Itan: Orunmilá e Iwa (O Caráter)
No princípio dos tempos, Iwa era uma mulher de beleza extraordinária, mas que possuía um temperamento misterioso e exigia respeito absoluto. Ela era a própria personificação do caráter e da conduta correta.
Orunmilá, o grandioso eloqüente testemunha do destino, desejava prosperidade, reconhecimento e evolução espiritual. Ao consultar o oráculo, foi-lhe dito que para alcançar tudo o que almejava na Terra, ele não deveria buscar ouro, búzios ou poder; ele precisava se casar com Iwa e mantê-la ao seu lado para sempre.
Sabendo disso, Orunmilá a procurou e a pediu em casamento. Iwa aceitou, mas impôs uma condição estrita:
"Eu viverei com você, Orunmilá, e lhe darei toda a estrutura e axé. Mas você jamais poderá gritar comigo, me maltratar ou me expor ao ridículo. Se você perder a paciência e me tratar mal, eu irei embora e você nunca mais me verá."
Orunmilá concordou e, durante muito tempo, os dois viveram em perfeita harmonia. Sob a influência de Iwa, a casa de Orunmilá prosperou abundantemente. Ele se tornou respeitado, sábio e procurado por todos. A presença dela trazia uma retidão invisível que organizava toda a sua vida.
Contudo, o tempo passou e o dia a dia trouxe os seus te**es. Um dia, Orunmilá voltou para casa extremamente cansado, faminto e estressado após um longo dia de atendimentos e obrigações. Ao chegar, a comida não estava pronta e as coisas não estavam no lugar que ele desejava.
Tomado pela impaciência do momento, Orunmilá esqueceu seu pacto. Ele gritou com Iwa, reclamou asperamente e a tratou com grosseria perante os outros.
Iwa não discutiu. Ela recolheu seus panos em silêncio e, enquanto Orunmilá ainda esbravejava, ela saiu pela porta da frente e desapareceu no mundo.
Quase imediatamente, a energia da casa mudou. A sorte de Orunmilá começou a minguar, a confusão se instalou e a paz desapareceu. Ele percebeu o erro gravíssimo que havia cometido: ao expulsar Iwa de sua vida por um momento de ira, ele havia perdido sua própria retidão e equilíbrio.
Desesperado, Orunmilá vestiu suas roupas brancas, pegou seu Opá Orere (o cajado de Ifá) e saiu pelo mundo à procura de sua esposa. Ele viajou por reinos, cidades e florestas, perguntando a todos: "Vocês viram Iwa? Onde está Iwa?"
Depois de muito sacrifício, provações e demonstrações de verdadeiro arrependimento, Orunmilá finalmente a encontrou escondida no Orun (o plano espiritual). Ele implorou de joelhos para que ela voltasse para sua casa.
Iwa olhou para ele com compaixão, mas respondeu:
"Eu não posso voltar a viver fisicamente com você da mesma forma, Orunmilá. Mas o seu arrependimento e o seu esforço para me encontrar mostram que você compreendeu o meu valor. De agora em diante, eu não habitarei apenas a sua casa; se você mantiver sua conduta reta, eu habitarei o seu interior."
Esta passagem fundamenta a máxima de Ifá que diz: "Suuru ni baba iwa" (A paciência é o pai do bom caráter).
Este caminho nos ensina que a retidão (Iwa-Pele) é uma conquista diária e frágil. Basta um momento de descontrole, de arrogância ou de quebra de valores para que ela "vá embora" de nossas vidas, levando consigo a nossa paz e a nossa prosperidade espiritual.
Buscar a retidão, assim como Orunmilá fez, exige caminhar com paciência, reconhecer os próprios erros e lapidar o próprio comportamento até que o bom caráter não seja apenas algo que tentamos demonstrar, mas sim a nossa própria essência.
"A retidão é como a raiz de uma árvore frondosa: ninguém a vê, mas é ela que sustenta a árvore de pé diante das maiores tempestades."
Por Babá Olutọju Léo.