10/10/2023
Carta aos irmãos evangélicos sobre a questão entre Israel e Palestina
Irmãos, tenho observado, sempre que surgem as notícias sobre conflitos entre povos árabes e o chamado "estado de Israel", que vocês são muito rápidos para falarem em "orar pela paz de Israel".
Orar pela paz de Israel é louvável, mas me pergunto porque também não orar pela paz da Palestina?
Será por que as notícias que vemos é dos chamados "terroristas" do Hamas atacarem Israel? Mas não sei se vocês sabem que antes de 1967, no território que hoje é Israel, viviam muitos Palestinos que foram expulsos, mortos e desapropriados por guerrilheiros (e terroristas?) israelenses?
Sim, irmãos, hoje o território que os Israelitas dizem a eles pertencer, antes de 1964 era habitados por pais, mães, filhos, pessoas como eu e você, que viviam em paz. Árabes e Judeus viviam em paz naquele lugar.
Mas a ganância e o medo humano não têm limites. Após a segunda guerra mundial, países europeus querendo aumentar o seu poder econômico, militar e político, perceberam que tinham que ter uma porta de acesso no Oriente, mas como fazer isso?
Eles encontraram a oportunidade ideal na questão judaica. Todos sabemos dos milhares de judeus mortos nos horrores do holocausto na segunda guerra mundial. Apelando para isso e para a crença religiosa de que Deus teria prometido certos territórios a Israel, inventaram que Israel deveria ter um Estado na Palestina.
Para concretizar essa ideia eles investiram dinheiro e proporcionam apoio militar para os judeus, equipando-os para guerrear contra os Palestinos. A história foi que nesta guerra, Israel conseguiu sair vitorioso e adquirir boa parte dos territórios que hoje pertencem ao que chamamos de "Israel".
Mas não bastasse isso, não conformado com os territórios já conquistados na guerra dos seis dias, Israel adotou uma tática nefasta: inserir famílias israelenses em territórios palestinos, e, sob o pretexto de defendê-las, colocou exércitos nestes territórios. Com esta estratégia eles continuaram aumentando o seu território enquanto famílias palestinas eram mortas e ficavam sem lar, tendo que se refugiar e se expremer num pequeno território que conhecemos como "Faixa de Gaza".
Agora se imagine se você é um palestino, uma palestina, você vivia em paz em sua terra, lhe tiram desta terra, você não tem mais lar, nação, seus parentes morrem, seu filho, sua esposa morrem, como você ficaria nesta situação?
Muitos se resignaram, mas outros não aceitaram, e, por mais que não seja uma atitude triste, sem capacidade militar, muitas pessoas, com a esperança de retomar o lugar onde viviam, suas terras, viu na guerrilha a única chance de combater as pessoas que fizeram isso com eles. Surgiu daí o Hamas.
Sim, irmãos, Israel não é inocente nessa história, os EUA, a Europa não são inocentes, eles são responsáveis pelo sangue de Palestinos e Judeus mortos e inseridos no meio deste conflito político e econômico.
Mas, com tudo isso, vocês me dizem: é triste irmão Mizael, mas são as promessas de Deus, Deus prometeu que Israel viveria para sempre, Deus prometeu que os judeus voltariam para os seus territórios, Deus prometeu que Israel reconhecerá Jesus como salvador e depois disso, Deus instaurará seu Reino para todo o sempre.
Sim, irmãos e irmãs, eu também ouvi essa história. Eu fui ensinado nela desde a minha infância. Sei que é a história que vocês ouvem aos domingos em suas igrejas, por meio de seus pastores e pastoras.
Eu não estou aqui para condená-los, dizer que são maus. Eles não têm culpa, nenhum brasileiro evangélico tem culpa nessa história. Nós recebemos esta teologia dos americanos, recebemos essa teologia dos EUA. Sim, o movimento evangélico brasileiro, em sua esmagadora maioria, foi fruto do trabalho de missionários americanos que não somente trouxeram a mensagem de que Jesus é salvador, mas de que Israel era uma nação especial. E sinto vos dizer irmãos e irmãs, essa não é uma teologia saudável e verdadeiramente cristã.
Essa teologia dizia e diz que os EUA tinham um papel especial no mundo juntamente com Israel e nós, tão ansiosos por uma palavra de salvação não aceitamos somente Jesus, mas também os EUA e Israel.
Sim irmãos, a bíblia afirma que Deus prometeu trazer os judeus de volta à Jerusalém, mas isso já tinha acontecido antes de Jesus nascer. Por decreto de Ciro os judeus voltam à Israel. Pronto, a promessa se cumpriu. Depois vem Jesus e, para o cristão, a partir de Jesus a salvação é universal. Jesus busca começar a mensagem de restauração universal por meio de Israel, mas é rejeitado. Com esta rejeição a mensagem se volta para todos aqueles que o recebem, é por isso que nosso irmão, o apóstolo Paulo diz: "em Jesus não há judeu, nem grego..." (Gl 3.28). Sim, em Jesus não há mais nenhuma nação ou povo especial diante de Deus, nem mesmo Israel.
Mas vocês ainda devem ter uma última duvida: o apocalipse e o livro de Daniel, não é? "Irmão Mizael, o apocalipse fala de Israel, de 12 mil de cada tribo. Sim, fala, mas junto à estes estão também pessoas de todas as nações, não há nada de especial em Israel aí (cf. Ap. 7.1-17). Mas e o livro de Daniel, irmão? Como ficam as setenta semanas? Ora, irmãos, como já disse, esta teologia foi inventada nos EUA na época em que surgia um nacionalismo exacerbado das pessoas que viviam ali. Essas pessoas inventaram um malabarismo teológico para inserir seu nacionalismo e a importância de Israel na história universal. As setenta semanas se referem à um período da restauração de Israel naquela época e já aconteceu.
Tudo isso que falei não foi para lhes entristecer e decepcionar, mas para lhes trazer boas novas de Jesus. É possível continuar crendo em Jesus, vivendo a fé em sua mais alta dimensão sem precisar aceitar Israel e os EUA. Abandonar a teologia que coloca Israel em um lugar especial não é o fim do mundo e sim a abertura para uma nova compreensão da mensagem de Jesus no qual não "há judeu nem grego", é a abertura para a mensagem de que ele veio para dar vida com abundancia (Jo 10.10), a mensagem que ele está ao lado daqueles que que sofrem como Palestinos e Judeus hoje em dia.
Por isso, irmãos, oremos pela paz de Israel, mas oremos pela paz da Palestina. Que estas duas nações possam voltar a conviver juntas em irmandade e comunhão e que para eles se cumpra o versículo que diz que "o lobo conviverá com o cordeiro e o leopardo repousará junto ao cabrito. O bezerro, o leão e o novilho gordo se alimentarão juntos pelo campo; e uma criança os guiará." (Is 11.6).
Mizael Pinto de Souza