31/07/2025
CARTA ABERTA AO PADRE DANILO CÉSAR
Padre,
É de causar espanto , mas não surpresa que um homem que se diz servidor de Deus use o púlpito de sua paróquia para profanar a dor alheia e zombar da fé de milhões de brasileiros. Sua fala sobre a morte de Preta Gil revela, antes de qualquer coisa, uma alma mergulhada na arrogância e na intolerância, incapaz de respeitar aquilo que não compreende.
O senhor ironizou Gilberto Gil por ter feito uma oração aos orixás, perguntando onde estavam os orixás que “não ressuscitaram Preta Gil”. Pergunto eu, padre: quando morre um cristão, o seu Deus também falhou? Ou, nesses casos, a morte é seletivamente chamada de “vontade divina”? Dois pesos, duas medidas, não é mesmo?
A fé que o senhor tenta desmoralizar não se pauta pela ressurreição do corpo, mas sim pela continuidade do espírito. Nós, das religiões de matriz africana, não tememos a morte, pois sabemos que ninguém morre, apenas se encanta. Preta Gil não foi derrotada. Ela foi recebida em festa no Orun, acolhida por seus guias e ancestrais, ladeada por Oxum, Xangô e Yansã, por todos os orixás que o senhor ousou ridicularizar.
E não, ela não foi enterrada sozinha. Esteve cercada de amor, de Axé, de lágrimas e de fé, fé essa que se manifesta de formas que o seu fanatismo não é capaz de conceber. O pai de santo da Preta estava presente, seus irmãos de santo, e todos os que sabiam que seu corpo descansava, mas sua essência permanecia viva.
O senhor, com sua batina e púlpito, faz da morte uma arma e da fé alheia um inimigo. Isso não é evangelho. Isso é ego. Isso é ignorância. E é, acima de tudo, crime de intolerância religiosa, previsto em lei.
A sua palavra não é mais santa que a nossa. O seu Deus não é mais verdadeiro que o nosso. O seu altar não é mais sagrado que o nosso terreiro. E a sua dor não é mais legítima que a nossa saudade.
Sua postura envergonha o diálogo inter-religioso, envergonha o próprio Cristo que o senhor afirma seguir, aquele mesmo que andava entre prostitutas, leprosos e samaritanos, e que nunca fez escárnio de nenhuma fé.
Nós, filhos do Candomblé/ Umbanda, respondemos não com o silêncio que esperam de nós, mas com firmeza. Porque se Orixá permite, nós falamos. E hoje falamos com a voz de todos os nossos ancestrais: respeitem nossa fé. Respeitem nossos mortos. Respeitem nossas entidades.
Se o seu Deus é amor, comece a praticar o básico. Porque, ao contrário do que o senhor prega, quem julga, não salva. Quem odeia, não é luz. E quem zomba da dor alheia, precisa urgentemente se confessar com sua própria consciência.
Texto: Maria Padilha /