12/11/2025
As Travessuras de Bará Lodê: Uma Lição de Fé e Obstinação
O ano era 1962. Com a morte de Mãe Antoninha de Iemanjá, líder do Batuque na vila São José, a comunidade sofreu uma perda irreparável. Entre a herança, Mãe Antoninha deixou um assentamento de Bará Lodê, o guardião do templo, com mais de cem anos, que deveria ser cuidado por um de seus filhos de santo.
Em uma reunião para a escolha do novo zelador, o jogo de búzios, jogado por José de Iemanjá, revelou a decisão do Orixá: Ademar de Xangô era o escolhido.
Ademar, que já possuía seu próprio Bará, temeu a responsabilidade e a manutenção do Orixá pelo resto da vida. Ignorando a decisão, ele se recusou a assumir a herança, afastando-se da casa de santo. Dentro da tradição Ijexá, o Bará Lodê não é despachado, ele escolhe o filho de santo que dará continuidade à sua permanência na terra — e desobedecer ao Orixá seria uma afronta.
Ademar seguiu irredutível. Contudo, na véspera do seu aniversário de Xangô, quando se preparava para uma grande festa, o Bará Lodê de Mãe Toninha resolveu visitá-lo. Aproveitando a ausência de trato, o Orixá "comeu" toda a bicharada separada para o sacrifício (32 quadrúpedes, 70 galos, 50 galinhas e pombos), e ainda trouxe seu compadre Ogum Avagã, que deu cabo da cachorrada.
Enfurecido, Ademar prometeu despachar o Bará. No dia seguinte, a caminho da casa de Mãe Toninha, ele sofreu um grave acidente de carro, que ele atribuiu à vingança do Lodê.
Mesmo convalescente, Ademar não desistiu. Recuperado, ele invadiu a casa de santo, pegou o assentamento do Bará e se dirigiu ao cemitério para despachá-lo. Lá, teve uma visão de Mãe Toninha, que o repreendeu e o agrediu por sua desobediência:
"Onde tua vais com este Bará Lodê, negro infeliz? Onde eu estou que não te levo junto?"
Aterrorizado, Ademar voltou correndo e depositou o Bará junto ao seu. Porém, o negro não se deu por vencido. Decidiu manter o Lodê "na seca," sem oferendas (achôro, ecó, frente), acreditando que a penúria enfraqueceria o Orixá.
O resultado dessa teimosia foi a chegada da miséria: os Filhos de Santo e clientes sumiram, e sua família o abandonou. Em sua desgraça, Ademar chegou a atear fogo na casa do Bará.
Uma noite, enquanto bebia e se lamentava, o Bará Lodê apareceu para ele em forma de um dos "companheiros" que havia se "acomodado" em sua casa. O Orixá revelou o motivo da escolha:
"Tu és obstinado... O mais belo é a tenacidade, porque ela revela que neste momento o homem não está mais só e a voz a que ele obedece é a do coração, a que está vindo do seu Orixá. É isso o que te diferencia dos demais homens."
Ademar, percebendo que sua teimosia era, na verdade, sua maior virtude, sua tenacidade, finalmente entendeu a lição. No dia seguinte, ele usou sua perícia como mestre de obras para construir uma bela e digna casa para os Orixás. Ele realizou um grande sacrifício (sete galos, três cabritos) e festejou, cumprindo com suas obrigações.
Em pouco tempo, o poder do Bará Lodê se manifestou: a clientela e os Filhos de Santo se multiplicaram, e sua mulher e filhos retornaram para um lar feliz. Ademar de Xangô, finalmente, aprendeu a importância da obediência e do zelo, honrando o Orixá que o escolheu para protegê-lo.
Texto original: Pai João Carlos Deodé