Recife Cristão

Recife Cristão Leigo da Igreja Católica - Animado pelo Amor que vem de Deus Leigo Católico no Recife

HISTÓRIA DO JUVENATO DOM VITALParte 7 — No final, restou a fachadaQuando esta série começou, voltamos a um domingo chuvo...
17/06/2026

HISTÓRIA DO JUVENATO DOM VITAL

Parte 7 — No final, restou a fachada

Quando esta série começou, voltamos a um domingo chuvoso de 1919, dia do lançamento da pedra fundamental do Juvenato Dom Vital.

Naquele tempo, o Giriquiti era uma rua tranquila da Boa Vista, cercada por sítios, casas baixas, coqueiros e terrenos ainda pouco ocupados.

O Juvenato cresceu junto com o bairro.

Ao longo de décadas, acolheu crianças pobres, formou alunos, reuniu educadores, recebeu movimentos da Igreja, serviu à Arquidiocese e participou de momentos importantes da história do Recife.

Mas o prédio que testemunhou tudo isso não atravessaria o século XX intacto.

Após a saída de Dom Hélder Câmara, em 1985, a Arquidiocese passou por profundas mudanças. Diversas instituições, movimentos e serviços que funcionavam no casarão foram transferidos, encerrados ou reorganizados. Pouco a pouco, o antigo Juvenato perdeu o papel central que havia desempenhado durante décadas.

Em meados da década de 1990, o casarão foi demolido para dar lugar a um empreendimento comercial.
A destruição provocou repercussão e protestos. Protegido pela legislação municipal, o prédio deveria ter sido preservado.

No entanto, quando a poeira baixou, quase nada restava.

Sobreviveu apenas a fachada.

A mesma fachada que havia visto passar os gazeteiros do cônego Jerônimo Assunção.

A mesma fachada por onde passaram centenas de bispos, monsenhores, padres, freiras, religiosos, seminaristas, leigos e leigas a serviço da Igreja.

A mesma fachada que abrigou reuniões, pastorais, movimentos sociais e iniciativas que marcaram a vida da Arquidiocese de Olinda e Recife.

Hoje ela permanece escondida atrás de um shopping.

Para muitos, é apenas uma parede antiga.

Para outros, é um dos últimos vestígios de uma obra que ajudou a educar, acolher e transformar a vida de milhares de pessoas ao longo de quase um século.

E talvez seja justamente essa a missão que lhe resta: continuar lembrando uma história que a cidade não deveria esquecer.

(Acima, na imagem de 1996, resta de pé apenas a fachada do Juvenato, na vista interna da demolição).

PGS

História do Juvenato Dom VitalParte 6 — A segunda vida do casarãoQuando Dom Hélder Câmara assumiu a Arquidiocese de Olin...
16/06/2026

História do Juvenato Dom Vital

Parte 6 — A segunda vida do casarão

Quando Dom Hélder Câmara assumiu a Arquidiocese de Olinda e Recife, em abril de 1964, o velho Juvenato já não era mais a escola dos pobres criada pelo cônego Jerônimo Assunção.

Mas estava longe de ficar vazio.

Ao contrário.

O casarão da Rua do Giriquiti ganhou uma nova missão.

Dom Hélder implantou na Arquidiocese um modelo de gestão colegiada, distribuindo responsabilidades entre bispos, padres, religiosos e leigos. Nesse novo formato, o Juvenato tornou-se um dos principais centros de articulação das atividades da Igreja de Olinda e Recife.

Ali trabalhavam Dom José Lamartine Soares, bispo auxiliar, sacerdotes, religiosas, funcionários e dezenas de leigos e leigas envolvidos nas mais diversas ações pastorais e sociais.

Ao longo dos anos, passaram por suas salas organismos arquidiocesanos, movimentos de evangelização, serviços de assistência social, projetos comunitários, comissões, o Regional Nordeste 2 da CNBB e o Instituto de Teologia do Recife (ITER).

Todos os dias, muita gente entrava e saía daquele prédio.

O movimento era constante.

Se antes o Juvenato acolhera meninos pobres, agora ajudava a coordenar iniciativas que alcançavam milhares de pessoas em toda a Arquidiocese.

Foi também naquele endereço que se concentraram muitas das ações que deram repercussão nacional e internacional ao trabalho de Dom Hélder Câmara.

Durante os anos da ditadura militar, o nome da Arquidiocese de Olinda e Recife aparecia frequentemente nos jornais do Brasil e do exterior. As denúncias de violações dos direitos humanos, as críticas ao autoritarismo e a defesa dos mais pobres transformaram Dom Hélder numa das vozes mais conhecidas da Igreja Católica no mundo.

E o velho Juvenato estava no centro dessa história.

Nem sempre isso agradava aos governantes.

Nas décadas de 1970 e 1980, o prédio foi alvo de vigilância constante. Militares invadiram suas dependências em busca de documentos. Em outro episódio, grupos ligados à extrema-direita atacaram a fachada com tiros e pichações.

Mesmo assim, o casarão continuou funcionando.

Continuou recebendo reuniões, formando lideranças e servindo de ponto de encontro e articulação para pessoas que sonhavam com um país mais justo.

Em 1985, Dom Hélder deixou o governo da Arquidiocese.

Com sua saída, encerrava-se também uma das fases mais intensas da história do Juvenato Dom Vital.

O velho prédio da Rua do Giriquiti estava prestes a mudar mais uma vez.

História do Juvenato Dom VitalParte 5 — Os anos de ouro e o começo das mudançasOs primeiros vinte anos do Juvenato Dom V...
15/06/2026

História do Juvenato Dom Vital

Parte 5 — Os anos de ouro e o começo das mudanças

Os primeiros vinte anos do Juvenato Dom Vital foram os mais movimentados de sua história. Centenas de alunos e alunas passaram por seus cursos, oficinas e salas de aula. Ainda hoje, não é difícil encontrar antigos estudantes ou familiares que guardam lembranças daqueles tempos.

O Juvenato era conhecido muito além da Rua do Giriquiti.

Ficaram famosas as apresentações do coral, as declamações, as demonstrações de ginástica e os passeios dos alunos pela cidade. Em dias especiais, eles embarcavam nos bondes do Recife, vestindo suas fardas e, muitas vezes, acompanhados por bandas militares.

Nas procissões, festas religiosas e comemorações cívicas, os alunos do Juvenato estavam sempre presentes. Desfilavam em formação, refletindo os costumes e a disciplina valorizados naquela época.

Outro acontecimento aguardado pela cidade era a exposição anual dos trabalhos produzidos pelos estudantes. Realizada no final de cada ano, atraía visitantes interessados em conhecer o resultado das atividades desenvolvidas nas oficinas e cursos da instituição.

Foram mais de três décadas de funcionamento intenso, sempre sob a direção do cônego Jerônimo Assunção. Mesmo depois de sua transferência para o Rio de Janeiro, em 1921, Dom Sebastião Leme continuou acompanhando e apoiando a obra até sua morte, em 17 de outubro de 1942.

Mas o Recife estava mudando.

A partir da década de 1930, novas políticas educacionais ampliaram a presença do Estado no ensino. Grupos escolares foram criados, escolas particulares se multiplicaram e a própria sociedade passou a enxergar a educação de forma diferente.

Ao mesmo tempo, a cidade começou a afastar do centro justamente a população que havia dado origem ao Juvenato.

Com a criação da Liga Social Contra o Mocambo, em 1939, centenas de habitações populares foram demolidas em bairros como Boa Vista, Coelhos, Ilha do Leite, São José, Santo Antônio, Soledade e Santo Amaro. Muitas famílias foram empurradas para os morros e para áreas cada vez mais distantes.

Pouco a pouco, o público que durante décadas frequentara o Juvenato também se afastava.

Na década de 1950, a instituição já não tinha o mesmo movimento dos anos anteriores. Alguns cursos continuavam funcionando — entre eles o primário noturno, o curso para domésticas, bordado, corte e costura, artes decorativas, datilografia e desenho —, mas a frequência estava longe daquela registrada nos tempos de maior atividade.

O velho prédio da Rua do Giriquiti passou então a receber novas funções. Além das atividades educativas, tornou-se espaço para reuniões, encontros e eventos religiosos, civis e culturais.

No dia 17 de agosto de 1959, faleceu o cônego Jerônimo Assunção, fundador e diretor do Juvenato. Com ele encerrava-se um dos capítulos mais importantes da história da instituição.

No ano seguinte, o arcebispo Dom Carlos Coelho iniciou a transferência de alguns serviços da Arquidiocese para o prédio. Entre eles estava a gráfica arquidiocesana, instalada em uma das dependências do antigo Juvenato.

Aquela já era outra história.

(PGS)

Imagem: O Juvenato Dom Viital visto a partir do Hotel Central - Foto de Alexandre Berzin, 1935 / Acervo do Museu da Cidade do Recife

História do Juvenato Dom VitalParte 4Começa a funcionarDepois de quase dez anos de obras, o Juvenato Dom Vital foi inaug...
03/06/2026

História do Juvenato Dom Vital

Parte 4

Começa a funcionar

Depois de quase dez anos de obras, o Juvenato Dom Vital foi inaugurado em 27 de fevereiro de 1928.

Ainda havia serviços por concluir, mas o prédio já chamava atenção. Com três pavimentos e dois galpões nos fundos, era uma das maiores construções da região. Ali funcionavam salas de aula, dormitórios, oficinas e espaços destinados à formação dos meninos atendidos pela instituição.

O Recife que cercava o Juvenato era uma cidade em crescimento. Famílias chegavam do Interior fugindo das secas, da pobreza e da falta de oportunidades. Muitas se instalavam em mocambos, cortiços e habitações precárias espalhadas pelos bairros centrais.

As crianças começavam a trabalhar cedo. Vendiam jornais, engraxavam sapatos, carregavam mercadorias nos mercados e ajudavam nas pequenas oficinas da cidade. Frequentar uma escola era privilégio de poucos.

Foi nesse cenário que o Juvenato abriu suas portas.

Além das primeiras letras, os alunos aprendiam aritmética, geografia, desenho, datilografia, catecismo e atividades práticas voltadas para o trabalho. Havia também aulas de pintura, bordado e corte e costura.

A disciplina fazia parte da rotina. Os mais inquietos eram encaminhados para exercícios de ginástica no pátio, acompanhando o ritmo marcado pelo apito dos monitores.

Naquele tempo, a maioria da população brasileira ainda não sabia ler nem escrever. Entre as famílias pobres do Nordeste, a situação era ainda mais difícil. A assistência pública era limitada, e instituições religiosas assumiam boa parte do atendimento aos órfãos, abandonados e jovens em situação de vulnerabilidade.

O Juvenato Dom Vital nasceu dessa realidade.

Para alguns, era uma escola. Para outros, um abrigo. Para muitos meninos do Recife, foi a oportunidade de encontrar alimentação, estudo, orientação e um caminho possível para a vida adulta.

(PGS)

Recife

História do Juvenato Dom VitalParte 3 — Por que a Igreja criou o Juvenato?Quando a pedra fundamental do Juvenato Dom Vit...
02/06/2026

História do Juvenato Dom Vital

Parte 3 — Por que a Igreja criou o Juvenato?

Quando a pedra fundamental do Juvenato Dom Vital foi lançada, em 1919, a Igreja Católica vivia um momento de mudança.

Poucas décadas antes, a República havia separado Igreja e Estado. Os tempos eram outros. O Recife crescia, novas ideias circulavam pelas ruas, o ensino público era insuficiente e milhares de famílias pobres chegavam à capital em busca de sobrevivência.

A Igreja percebeu que precisava ocupar espaços que o poder público não conseguia atender. Um deles era a educação.

Enquanto colégios católicos surgiam para atender os filhos das famílias mais abastadas, também cresciam iniciativas voltadas para crianças e adolescentes pobres. Foi nesse contexto que nasceu a Escola de Gazeteiros da Matriz da Boa Vista, criada pelo Cônego Jerônimo Assunção (na foto).

Ali, meninos que passavam o dia vendendo jornais pelas ruas encontravam comida, orientação religiosa e as primeiras letras. O projeto cresceu rapidamente. A pequena escola já não comportava a quantidade de jovens que buscavam ajuda.

O Juvenato Dom Vital surgiu dessa experiência.

Mais do que um prédio, a instituição foi pensada como um espaço de acolhimento, educação e formação moral para meninos desassistidos. Além da alfabetização e do catecismo, ensinavam-se ofícios considerados úteis para a vida adulta e valorizava-se a disciplina, o trabalho e a convivência comunitária.

Para muitos daqueles jovens, filhos de trabalhadores pobres, retirantes e famílias sem recursos, o Juvenato representou uma oportunidade rara em uma cidade que crescia depressa, mas deixava muita gente para trás.

Foi assim que uma iniciativa criada dentro da Matriz da Boa Vista acabou se transformando em uma das obras sociais mais conhecidas do Recife católico.

Mas, como foi o começo do Juvenato Dom Vital?

(PGS)





























História do Juvenato Dom VitalParte 2 - A Boa Vista onde o Juvenato surgiu Em 1919, a Rua do Juvenato Dom Vital ainda se...
27/05/2026

História do Juvenato Dom Vital

Parte 2 - A Boa Vista onde o Juvenato surgiu

Em 1919, a Rua do Juvenato Dom Vital ainda se chamava Sebastião Lopes. Só mais tarde receberia o nome de Giriquiti, referência à vegetação que dominava aquela área da Boa Vista: o Abrus precatorius, planta de sementes vermelhas e pretas conhecida como olho-de-pombo.
O terreno do futuro Juvenato era uma área com 2.776 metros quadrados, com muitas árvores, situada entre algumas casas baixas, compridas e conjugadas, construídas em estilo português.

A pequena rua de 700 metros, começando na esquina da Rua Gervásio Pires e encerrando na Progresso, era uma área valorizada, onde morou prefeito, padres, advogados e médicos. Abrigava também, naquele tempo, uma padaria, serraria, tipografia e duas tabernas.

A Boa Vista de então era um verdadeiro canteiro de obras. Caminhos se transformavam em ruas e avenidas, becos se alargavam, alagados eram aterrados, novas casas e sobrados surgiam onde antes eram sítios. A cidade patriarcal, pobre e agrária começava a se transformar, mas conservando ainda, como até hoje, traços da monarquia e da escravatura, que haviam sido abolidas há 30 e 31 anos, respectivamente.

Era um cenário de muitos coqueiros, bondes a tração animal e elétricos circulando nas principais vias, homens de terno, mulheres de véu a caminho das muitas missas, a comunidade judaica reunida na Praça Maciel Pinheiro, antigos escravos e seus descendentes sobrevivendo dos mesmos trabalhos pesados de antes.

Mas, acima de tudo, aquele era um bairro católico. Havia igrejas nas principais ruas, que tocavam regularmente seus sinos antes e durante as missas, para marcar horários e anunciar celebrações e eventos.

Entre os sinos das igrejas, o crescimento da cidade e a chegada dos pobres do Interior, o Juvenato Dom Vital começava a surgir na Boa Vista. (PGS)






























História do Juvenato Dom VitalParte 1 — A pedra fundamental num domingo de chuva No domingo chuvoso de 29 de junho de 19...
26/05/2026

História do Juvenato Dom Vital

Parte 1 — A pedra fundamental num domingo de chuva

No domingo chuvoso de 29 de junho de 1919, o Recife assistiu ao lançamento da pedra fundamental do Juvenato Dom Vital. O prédio seria inaugurado nove anos depois, no número 48 da Rua do Giriquiti, na Boa Vista – Recife.

Hoje, resta apenas a velha fachada azul, escondida atrás de um shopping. Um prédio que marcou gerações e hoje quase passa despercebido.

Ao lado do então arcebispo de Olinda, Dom Sebastião Leme, naquele dia de São Pedro de 1919, estava o vigário da Boa Vista, o Cônego Jerônimo Assunção. Foram eles os responsáveis pelo nascimento do Juvenato.

Anos antes, o sacerdote já havia instalado uma escola para os gazeteiros da cidade em um salão da Matriz da Boa Vista, na Praça Maciel Pinheiro. Meninos e adolescentes passavam o dia vendendo jornais, perambulando pelas ruas e se envolvendo em arruaças.

À noite, iam para a igreja. Ali comiam, estudavam e rezavam.

Mas a Matriz ficou pequena para os desassistidos que chegavam à capital que se expandia aceleradamente. Eram filhos e netos da população vinda do Interior, atraída pelas reformas urbanas e pelo crescimento do Recife, tangida pelo fechamento dos engenhos de bangué e pelas tragédias rurais – secas, conflitos de terra, pobreza, surtos e epidemias.

O Recife crescia depressa. Em 1900, a cidade tinha 113 mil habitantes. Vinte anos depois, já eram 238 mil.

No meio daquela multidão em transformação, o Juvenato Dom Vital começava a surgir.

O que existia na Rua do Giriquiti naquele tempo?

(PGS)































São José: o justo silencioso que protegeu o Salvador19 de março é dia de São José, o homem justo, guardião da Sagrada Fa...
19/03/2026

São José: o justo silencioso que protegeu o Salvador

19 de março é dia de São José, o homem justo, guardião da Sagrada Família e exemplo de fé vivida no silêncio e no trabalho. Carpinteiro de Nazaré, ele acolheu Maria, protegeu Jesus e confiou plenamente nos desígnios de Deus.

Em Pernambuco, sua presença é forte: mais de 20 cidades o têm como padroeiro.

📍 Grande Recife: Abreu e Lima

📍 Sertão: Bodocó, Custódia, Dormentes, Ingazeira, São José do Belmonte e São José do Egito

📍 Agreste: Angelim, Bezerros, Brejo da Madre de Deus, Capoeiras, Feira Nova, Frei Miguelinho, Surubim, Venturosa e Vertentes

📍 Zona da Mata: Água Preta, Amaraji, Carpina, Chã Grande, Joaquim Nabuco, Rio Formoso e São José da Coroa Grande

Em muitas dessas cidades, hoje é feriado municipal, marcado por missas, procissões e manifestações de fé.

Que São José, patrono dos trabalhadores e das famílias, interceda por todos nós.

🙏 Viva São José!

São José, o homem dos sonhosAmanhã, 19 de março, será o dia de São José, cuja presença nos evangelhos concentra–se nos d...
18/03/2026

São José, o homem dos sonhos

Amanhã, 19 de março, será o dia de São José, cuja presença nos evangelhos concentra–se nos dois primeiros capítulos de Mateus e no segundo de Lucas, isto é, nos relatos do nascimento e da infância de Cristo, que são muito diferentes entre si: os dois evangelistas destacam respectivamente as figuras de José e de Maria.

É o que escreve Giovanni Maria Vian, historiador e ex–diretor do jornal vaticano L'Osservatore Romano, no artigo a seguir:

Uma das figuras mais evanescentes (passageiro) dos evangelhos é a de José, que se acreditava ser o pai de Jesus, como Lucas anota na genealogia de Cristo. É, portanto, um pai aparente, cujo perfil é pouco mencionado. Mas justamente por isso é também um personagem fascinante, como o título do romance já sugere – A Sombra do Pai – que lhe foi dedicado há quase meio século pelo polonês Jan Dobraczyński.
Marginal, a figura de José é, no entanto, forte no imaginário coletivo, a ponto de sua data litúrgica de 19 de março atrair – em países de tradição católica como Itália e Espanha – o “dia dos pais”, relativamente recente e de origem profana.
O aniversário litúrgico de São José é suprimido como feriado na Itália desde 1977 e acaba sendo absorvido pelo “Dia dos Pais” de vieses comerciais. As origens da festividade cristã são obviamente muito mais antigas. Nos calendários o pai de Jesus é lembrado em dias diferentes, e a data de 19 de março já se encontra em alguns textos do século IX.

História de uma devoção
Mas a plena aceitação de José na cultura popular do Ocidente medieval foi difícil, como reconstruiu Paul Payan. A antiga crença da virgindade de Maria sugere à arte de representá-lo como alguém de idade avançada, sempre subalterno a Maria e a Jesus. Chegando a retratá-lo não apenas como carpinteiro, mas também envolvido em trabalhos domésticos, até mesmo lavando e pendurando roupas: um exemplo muito apreciado nos tempos mais recentes.
Pai especial mesmo nessas tarefas inéditas e guardião de uma família excepcional, José é um modelo de humildade difundido pelos franciscanos, que chamam os superiores dos seus conventos de custódios (protetores, guardiães). Mas noutro aspecto, presumivelmente desaparecido antes da pregação de Jesus, é também o último dos judeus, não raramente pintados no final da Idade Média com os sinais distintivos a eles impostos na realidade.
A devoção difunde–se depois na época moderna, com a festa de preceito decretada em 1621. Depois, em 1870, São José é declarado por Pio IX padroeiro da Igreja Católica, e padroeiro de trabalhadores pelo Papa Pacelli em 1955 – em evidente função anticomunista – e em 1989 é descrito justamente como “o guardião do redentor” por João Paulo II.
O Papa Francisco o celebra no documento Patris Corde de 2020 como “o homem que passa despercebido, o homem da presença cotidiana, discreta e escondida”. Francisco declarou muitas vezes que rezava a ele todos os dias e era seu devoto, tanto que o símbolo heráldico do santo – uma flor de nardo, segundo a tradição hispânica – figura em seu brasão, junto com o sol onde se destaca o monograma do nome de Jesus e da estrela que representa Maria.

Nos evangelhos
A presença de José nos evangelhos concentra–se nos dois primeiros capítulos de Mateus e no segundo de Lucas, isto é, nos relatos do nascimento e da infância de Cristo, que são muito diferentes entre si: os dois evangelistas destacam respectivamente as figuras de José e de Maria.
Simplificando questões debatidas desde a antiguidade, pode–se dizer que expressam pontos de vista complementares dos pais de Jesus. Para ambos os evangelistas, que também relatam genealogias quase inteiramente diferente, José é da linhagem real de Davi. Mas ele nunca fala, e enfrenta acontecimentos inesperados no silêncio.

Mateus
No relato de Mateus, ele é o homem dos sonhos, como o homônimo patriarca, filho de Jacó, cuja longa história fecha o livro de Gênesis. Em um sonho, um anjo tranquiliza José, “homem justo” transtornado pela gravidez repentina de Maria antes do casamento e que, sem acusá-la, quer repudiá-la em segredo: “O filho que nela há vem do Espírito Santo”.
Num sonho, um anjo ordena-lhe, nascido Jesus em Belém, que “pegue o menino e sua mãe” e fujam para o Egito, após a adoração dos Magos, para escapar do massacre ordenado por Herodes. Em sonho um anjo lhe diz novamente para retornar à terra de Israel, pois já estão mortos “aqueles que procuravam matar a criança”. Em sonho, um anjo finalmente o avisa para deixar a Judeia, onde “reinava Arquelau no lugar de seu pai Herodes”, e a “sagrada família” se estabelece em Nazaré, na Galileia.

Lucas
A perspectiva de Lucas é diferente, limita-se a nomear José, originário de Nazaré e que para o censo deve ir até Belém, nas montanhas da Judeia. Aqui ele e Maria acolhem a visita dos pastores que vieram adorar o salvador. Depois de circuncidar o menino, leva-o com Maria ao templo de Jerusalém, onde acontece o encontro com Simeão, “homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel”, e com uma idosa mulher, a profetisa Ana.
Por fim, de Nazaré os pais sobem todos os anos para a Páscoa até Jerusalém, onde acreditam tenha se perdido Jesus, então com doze anos. Depois de três dias, o encontram no templo conversando com os mestres: “Seu pai e eu, angustiados, procurávamos você” o repreende Maria. “Vocês não sabiam que eu tinha que cuidar das coisas de meu Pai?” responde o filho. “Mas eles não compreenderam”.
Exceto por essas histórias muito populares, Jesus no Evangelho de João é chamado de “filho de José” duas vezes (1,45 e 6,42). Mas na segunda vez a expressão tem um intuito polêmico em relação ao mestre de Nazaré que acabava de se apresentar como “o pão que desceu do céu” enviado de Deus: “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e a mãe?” observam seus adversários.

Depois disso, José desaparece dos evangelhos.

Endereço

Recife, PE
50800120

Notificações

Seja o primeiro recebendo as novidades e nos deixe lhe enviar um e-mail quando Recife Cristão posta notícias e promoções. Seu endereço de e-mail não será usado com qualquer outro objetivo, e pode cancelar a inscrição em qualquer momento.

Entre Em Contato Com O Local De Adoração

Envie uma mensagem para Recife Cristão:

Atalhos

Compartilhar