18/03/2026
São José, o homem dos sonhos
Amanhã, 19 de março, será o dia de São José, cuja presença nos evangelhos concentra–se nos dois primeiros capítulos de Mateus e no segundo de Lucas, isto é, nos relatos do nascimento e da infância de Cristo, que são muito diferentes entre si: os dois evangelistas destacam respectivamente as figuras de José e de Maria.
É o que escreve Giovanni Maria Vian, historiador e ex–diretor do jornal vaticano L'Osservatore Romano, no artigo a seguir:
Uma das figuras mais evanescentes (passageiro) dos evangelhos é a de José, que se acreditava ser o pai de Jesus, como Lucas anota na genealogia de Cristo. É, portanto, um pai aparente, cujo perfil é pouco mencionado. Mas justamente por isso é também um personagem fascinante, como o título do romance já sugere – A Sombra do Pai – que lhe foi dedicado há quase meio século pelo polonês Jan Dobraczyński.
Marginal, a figura de José é, no entanto, forte no imaginário coletivo, a ponto de sua data litúrgica de 19 de março atrair – em países de tradição católica como Itália e Espanha – o “dia dos pais”, relativamente recente e de origem profana.
O aniversário litúrgico de São José é suprimido como feriado na Itália desde 1977 e acaba sendo absorvido pelo “Dia dos Pais” de vieses comerciais. As origens da festividade cristã são obviamente muito mais antigas. Nos calendários o pai de Jesus é lembrado em dias diferentes, e a data de 19 de março já se encontra em alguns textos do século IX.
História de uma devoção
Mas a plena aceitação de José na cultura popular do Ocidente medieval foi difícil, como reconstruiu Paul Payan. A antiga crença da virgindade de Maria sugere à arte de representá-lo como alguém de idade avançada, sempre subalterno a Maria e a Jesus. Chegando a retratá-lo não apenas como carpinteiro, mas também envolvido em trabalhos domésticos, até mesmo lavando e pendurando roupas: um exemplo muito apreciado nos tempos mais recentes.
Pai especial mesmo nessas tarefas inéditas e guardião de uma família excepcional, José é um modelo de humildade difundido pelos franciscanos, que chamam os superiores dos seus conventos de custódios (protetores, guardiães). Mas noutro aspecto, presumivelmente desaparecido antes da pregação de Jesus, é também o último dos judeus, não raramente pintados no final da Idade Média com os sinais distintivos a eles impostos na realidade.
A devoção difunde–se depois na época moderna, com a festa de preceito decretada em 1621. Depois, em 1870, São José é declarado por Pio IX padroeiro da Igreja Católica, e padroeiro de trabalhadores pelo Papa Pacelli em 1955 – em evidente função anticomunista – e em 1989 é descrito justamente como “o guardião do redentor” por João Paulo II.
O Papa Francisco o celebra no documento Patris Corde de 2020 como “o homem que passa despercebido, o homem da presença cotidiana, discreta e escondida”. Francisco declarou muitas vezes que rezava a ele todos os dias e era seu devoto, tanto que o símbolo heráldico do santo – uma flor de nardo, segundo a tradição hispânica – figura em seu brasão, junto com o sol onde se destaca o monograma do nome de Jesus e da estrela que representa Maria.
Nos evangelhos
A presença de José nos evangelhos concentra–se nos dois primeiros capítulos de Mateus e no segundo de Lucas, isto é, nos relatos do nascimento e da infância de Cristo, que são muito diferentes entre si: os dois evangelistas destacam respectivamente as figuras de José e de Maria.
Simplificando questões debatidas desde a antiguidade, pode–se dizer que expressam pontos de vista complementares dos pais de Jesus. Para ambos os evangelistas, que também relatam genealogias quase inteiramente diferente, José é da linhagem real de Davi. Mas ele nunca fala, e enfrenta acontecimentos inesperados no silêncio.
Mateus
No relato de Mateus, ele é o homem dos sonhos, como o homônimo patriarca, filho de Jacó, cuja longa história fecha o livro de Gênesis. Em um sonho, um anjo tranquiliza José, “homem justo” transtornado pela gravidez repentina de Maria antes do casamento e que, sem acusá-la, quer repudiá-la em segredo: “O filho que nela há vem do Espírito Santo”.
Num sonho, um anjo ordena-lhe, nascido Jesus em Belém, que “pegue o menino e sua mãe” e fujam para o Egito, após a adoração dos Magos, para escapar do massacre ordenado por Herodes. Em sonho um anjo lhe diz novamente para retornar à terra de Israel, pois já estão mortos “aqueles que procuravam matar a criança”. Em sonho, um anjo finalmente o avisa para deixar a Judeia, onde “reinava Arquelau no lugar de seu pai Herodes”, e a “sagrada família” se estabelece em Nazaré, na Galileia.
Lucas
A perspectiva de Lucas é diferente, limita-se a nomear José, originário de Nazaré e que para o censo deve ir até Belém, nas montanhas da Judeia. Aqui ele e Maria acolhem a visita dos pastores que vieram adorar o salvador. Depois de circuncidar o menino, leva-o com Maria ao templo de Jerusalém, onde acontece o encontro com Simeão, “homem justo e piedoso que esperava a consolação de Israel”, e com uma idosa mulher, a profetisa Ana.
Por fim, de Nazaré os pais sobem todos os anos para a Páscoa até Jerusalém, onde acreditam tenha se perdido Jesus, então com doze anos. Depois de três dias, o encontram no templo conversando com os mestres: “Seu pai e eu, angustiados, procurávamos você” o repreende Maria. “Vocês não sabiam que eu tinha que cuidar das coisas de meu Pai?” responde o filho. “Mas eles não compreenderam”.
Exceto por essas histórias muito populares, Jesus no Evangelho de João é chamado de “filho de José” duas vezes (1,45 e 6,42). Mas na segunda vez a expressão tem um intuito polêmico em relação ao mestre de Nazaré que acabava de se apresentar como “o pão que desceu do céu” enviado de Deus: “Não é este Jesus, o filho de José? Não conhecemos seu pai e a mãe?” observam seus adversários.
Depois disso, José desaparece dos evangelhos.