15/08/2026
CONTOS DO TERREIRO — CAPÍTULO 8 | OS QUE ESCOLHEM FICAR
Por duas sextas-feiras, os Contos do Terreiro f**aram em silêncio.
Não por falta de histórias. Pelo contrário.
Julho foi um mês intenso. Muito trabalho de santo, muita reestruturação, muita coisa acontecendo. Agosto chegou trazendo limpeza, movimento, renovação e novos caminhos.
E talvez esse silêncio tenha sido necessário.
Porque hoje eu não quero falar de quem foi embora.
Não quero falar de promessas quebradas, de pessoas que passaram pelo axé ou das histórias que f**aram para trás.
Uma amiga me disse algo que ficou ecoando dentro de mim:
“Pare de arrastar corrente. Não enalteça o passado. Vislumbre o futuro.”
E talvez seja exatamente isso.
O futuro está sendo construído.
Está sendo renovado por pessoas novas, por oportunidades, por aprendizados e, principalmente, por gente que chega sem prometer eternidade, mas que demonstra presença através das atitudes.
E é sobre uma dessas pessoas que quero falar hoje.
Uma menina que chegou ao axé primeiro como consulente. Buscou orientação, fez seus caminhos, veio de outra casa, carregava sua própria história e sua própria caminhada.
Com o tempo, sem planejamento e sem percebermos exatamente quando aconteceu, fomos nos tornando mãe e filha.
Vieram as conversas, as trocas, os aprendizados, os puxões de orelha, os acolhimentos e também aqueles momentos em que uma ensina e a outra ensina de volta.
Ela ainda é uma menina.
Ainda está começando sua caminhada.
Tem um potencial enorme, mas também tem suas dúvidas, suas dores, suas cobranças e aquela ansiedade de quem quer entender tudo antes mesmo de viver o processo.
Às vezes, exige demais de si mesma.
Às vezes, atravessa etapas porque quer chegar logo ao resultado.
E eu entendo.
Porque quando olho para ela, encontro um pouco de mim mesma aos 20 anos.
Encontro minhas dúvidas.
Minha ansiedade.
Minhas dores.
Minhas inseguranças.
As dificuldades pessoais, financeiras e, principalmente, as inquietações que a própria religiosidade pode trazer quando ainda estamos tentando entender quem somos dentro dela.
Talvez por isso eu consiga enxergar nela algo que, muitas vezes, ela ainda não consegue enxergar em si mesma.
Potencial.
Existem tantos caminhos possíveis para essa menina...
Tantas coisas que ela ainda pode aprender.
Tantas possibilidades de se transformar em uma mulher forte, consciente e dona da própria caminhada espiritual.
E eu desejo, sinceramente, que ela cresça.
Que amadureça.
Que descubra seu propósito sem pressa.
Que não tenha medo dos processos.
Que entenda que espiritualidade não se constrói em um dia, em uma obrigação ou em uma resposta pronta.
Constrói-se com tempo.
Com experiência.
Com humildade.
Com amor.
Com dedicação.
E, acima de tudo, com verdade.
Eu espero que essa menina se transforme em uma grande mulher.
E, se for escolha dela, que permaneça no axé.
Não porque eu precise que ela fique.
Mas porque um dia ela possa olhar para trás e perceber que encontrou aqui um lugar onde pôde crescer, aprender, errar, recomeçar e descobrir quem é.
Porque depois de quase 20 anos como zeladora espiritual, uma coisa eu aprendi:
filho de axé não é aquele que promete f**ar. É aquele que, mesmo podendo ir embora, escolhe continuar caminhando.
Não quero mais carregar correntes do passado.
Quero cuidar das sementes que estão sendo plantadas agora.
Porque o futuro do axé não está nas pessoas que partiram.
Está nas pessoas que estão chegando, aprendendo, se transformando e escolhendo f**ar.
E é nisso que eu quero acreditar.
Que amor, carinho, respeito e dedicação ainda são capazes de construir caminhos longos.
Esse é o meu Conto do Terreiro de hoje.
A história dos que não precisam prometer permanência.
Porque, quando existe verdade, a presença fala por si.
Axé para quem chegou.
Axé para quem está aprendendo.
E, principalmente, axé para quem escolhe f**ar. 🩵🌊