14/12/2025
LEALDADE
Fabrício Carpinejar
Aguentei massacres na infância: já fiquei trancado um turno inteiro no banheiro por represália dos colegas; já fui pendurado de cabeça para baixo no refeitório, ameaçado de ser arremessado; já tive minha calça de abrigo arriada no meio da sala de aula; já apanhei em corredor humano com tapas e chutes; já menti para a família que havia tropeçado ao surgir com um hematoma no rosto; já suportei ser ridicularizado com os apelidos mais terríveis, tendo que ouvir que os médicos se confundiram comigo no hospital, mantiveram a placenta e descartaram o feto; já atravessei a noite com febre em segredo; já perguntei a Deus por que minha trajetória precisava ser espinhosa; já fugi do recreio, para evitar chacotas; já experimentei festa de aniversário sem amigos para celebrar, arcando com o boicote da turma e os risinhos do dia seguinte: “como foi a comemoração?”. Ainda lutava contra um diagnóstico de retardo mental; ainda me rotulavam de “debiloide”; ainda falava errado, com a língua presa; ainda usava botas ortopédicas que ampliavam minha aparência de monstro — e todos sabiam que me aproximava pelos passos metálicos: “lá vem ele!”.
Estive plenamente no lugar do fracasso e da exclusão. Conheço o gosto salgado de minhas lágrimas e o amargo de meu sangue.
Mesmo assim, acordava toda manhã para enfrentar a escola. Não deixei de comparecer. Não mudei de instituição para recomeçar sem passado. Guardava uma esperança — tão solitária e tão pessoal — de que conseguiria padecer menos.
A minha única alegria era o Inter, o raro momento em que não sofria bullying. A torcida me tratava de igual a igual. Não me via como uma aberração no Beira-Rio. Estranhos me abraçavam e me erguiam no colo no instante do gol. Ninguém me enxergava diferente com a camisa vermelha. O escudo colorado me protegia dos rancores e me possibilitava a trégua de ser normal.
Meu time protagonizava os tempos dourados do tricampeonato brasileiro, com Falcão e Valdomiro. Ele vencia por mim, enquanto a rotina me derrotava. Por ele, eu senti pela primeira vez o que significava a felicidade: ela existia, eu não deveria desistir de procurar.
Hoje meu clube está mal, e estou bem: então vou carregá-lo. Cultivo profunda gratidão pelo punhado de contentamento que me ofereceu quando eu não contava com nenhum motivo para viver, quando me animou a resistir e sobreviver.
Para os outros, o futebol pode não ser tudo. Para mim, é minha essência.
Não sou colorado de fachada, de boutique. Não farei greve nem pararei de frequentar o estádio, seja na Série B, C ou D. Não torço só se ganhamos.
E não é hora de antecipar frustrações ou jogar a toalha. O que adianta vaiar ou xingar um plantel demolido emocionalmente? Talvez careça de um improvável elogio, de um inesperado apoio, de um surpreendente carinho — como eu naquela época, na mais absoluta rejeição.
Não temo pilhérias, gozações, cantorias. Por aquilo que passei, eu me encontro vacinado.
Qual era a minha chance de dar certo? Mínima. Como a do Inter de permanecer na primeira divisão.
Mas não me entrego até o último minuto, e me mostrarei presente e leal, qualquer que seja o resultado.
Minha coluna no jornal Zero Hora, GZH, última página, Porto Alegre (RS), 4/12/25: