14/08/2024
Sabejé corô umnlá, orô umnlá
Certamente, se você mora em Salvador, na região metropolitana ou no recôncavo baiano, durante o mês de agosto já deve ter visto a cena de uma pessoa com um balaio na cabeça e com muitas palhas saindo desse balaio. Dentro do balaio sempre tem pipocas, chamadas no candomblé de flores de Azoany/Omolu/Obaluaiyê, e por vezes, dentro do balaio também tem imagens desse mesmo orixá que se apresenta coberto de palhas ou, a depender do sincretismo, com a imagem de São Lázaro.
Também, há quase duas décadas que todo ano no dia 16 do mês de agosto acontece pelas ruas de Salvador a Caminhada Azoany com saída marcada no Pelourinho e seguindo em cortejo até a Igreja de São Lázaro na Federação. A caminhada é fruto de uma promessa há quase 40 anos atrás de um antigo morador do Pelourinho chamado Seu Martins e que através de Albino Apolinário da Associação Alzira do Conforto ganhou os ares de festa tradicional. Abro um adendo para informar a quem resolver acompanhar a Caminhada que ainda hoje é possível ver Seu Martins seguir com o seu tradicional balaio na cabeça, do alto dos seus mais de 70 anos de idade.
Como os dois parágrafos acima tem nuances sincréticas e ligações entre Omolu e São Lázaro como também do Candomblé com a Igreja, creio eu a pertinência de um parágrafo para explicar que o sincretismo religioso foi uma das diversas táticas utilizadas pelos negros escravizados para manter viva a estratégia montada para a manutenção da tradição religiosa do candomblé e se estabeleceu após o entendimento acerca dos sermões sobre os santos católicos e a interconexão da história e/ou imagem do santo com a tradição de determinado Orixá, por isso São Lázaro foi sincretizado com Omolu. Essa foi a forma encontrada pelos negros que sem a dignidade da humanidade e coisificados pelos brancos que foram a época, para mim ainda o são – mas isso é debate para os outros próximos 500 anos – encontraram para poderem fazer as suas oferendas sem serem hostilizados por seus escravizadores ou donos conforme se inscreve nos códigos de Leis Filipinas daquele período ao classifica-los como bens semoventes.
O mês de agosto é o mês do Sabejé de Omolu. O Sabejé é um ato de humildade e remonta à continuidade da vida onde uma pessoa de Oyá/Iansã percorre as ruas da cidade com um balaio na cabeça contendo as flores da cura de Omolu (pipoca), onde todo e qualquer cidadão pode colocar uma contribuição em dinheiro como agradecimento pela vida e caso deseje, eu sugiro sempre fazê-lo, pode pegar um punhado de flores de Omolu para comer ou jogar sobre o próprio corpo. O dinheiro não é o capital ou a compra, muito pelo contrário, é o desprendimento e a compreensão. É a troca energética e a gratidão por quem nos garante a vida e a lida do cotidiano para a sua sobrevivência. É o saber investir no que realmente vale a pena no mundo.
Mais do que isso, o Sabejé que é realizado sempre no mês de agosto, representa também a submissão e o sacrifício em nome do orixá no entanto muitas pessoas não sabem que antigamente muitos filhos de orixá (santo) saiam as ruas para pedir dinheiro para poder fazer o olubajé que é uma das festas do candomblé com maior colaboração externa e representa um banquete para todos os Orixás e seres humanos.
Cabe situar que no candomblé o Orixá Omolu é a própria terra, tudo Ele dá e tudo Ele recebe de volta, durante todo o ano, toda a vida, toda a eternidade e existência.
Da terra, do pó, do barro nós viemos e para lá voltaremos, é nela que pisamos cotidianamente e somente através dela garantimos a nossa segurança material em todos os sentidos. Nesse mesma terra é onde produzimos todo o nosso alimento e encontramos as riquezas do mundo. Daí regar a terra é ter sempre os caminhos abertos e com flores por isso é que as pessoas do candomblé passam uma vasilha com água pela cabeça e e seguida jogam a água na rua antes de sair de casa, para que desse modo os nossos melhores pensamentos possam servir de boas sementes para o mundo e em uníssono com a terra possam “abrir os caminhos” e fazer germinar os melhores pensamentos e energias para alimentar o universo com amor, equilíbrio, paz e principalmente Axé, a energia vital que nos move.
O SABEJÉ é um ato de amor e solidariedade, é a continuidade de um processo muito antigo e que remonta a criação da terra daí a cantiga “sabejé corô umnlá, orô umnlá” a nos relembrar a importância e necessidade das trocas energéticas do planeta TERRA. A tradução da antiga cantiga do yorubá para o português nos diz: pelo amor de Olodumare (Deus) ajude e faça uma troca pela continuidade do que já vem (existe) muito antes de nós e da nossa própria existência e deve continuar muito depois de nós partirmos.
O mês de agosto não é mês de desgosto, mas o momento de fazermos as nossas reflexões e deixarmos as nossas esmolas (doações) para o mundo por amor a Omolu, ou se acharem melhor, à própria Terra.
Daí uma reflexão, em sua reforma íntima o que você pretende trocar para ajudar a garantir a cura e a existência do mundo?
*Ogan de Ewá do Ilê Axé Oxumarê, historiador e mestrando em Desenvolvimento e Gestão Social pela Faculdade de Administração da UFBA