29/10/2025
AXÉ DE CARANGUEJO
Se eu não conseguir, por que você pode?
É engraçado ver como, dentro do axé, o povo adora bancar fiscal de pureza espiritual.
Se o médium da periferia começa a se destacar, a ganhar seguidor ou — ousadia suprema — cobrar pelo próprio tempo, o coro começa:
“Perdeu o fundamento!”
“Tá se vendendo!”
“Virou marmoteiro!”
Mas se for o pai de santo de teto de gesso, casa bancada pelos filhos, que envia convite com espumante, que odeia pobre, que coloca buffet no lugar da comida tradicional do batuque, aí é “tradição”, “sabedoria” e “humildade”.
Hipocrisia com incenso aceso.
A real é que o problema nunca foi o dinheiro — foi o medium não ser da elite religiosa.
O povo aceita cobrança, luxo e cachê quando vem embrulhado em porcelana e discurso manso e midiático.
Mas se o periférico faz o mesmo, vira destruidor de fundamento.
O mais irônico é ver quem mais grita “marmoteiro!” ser justamente quem não tem um palmo de brilho próprio.
Os anônimos do axé — os que ninguém chama, ninguém cita, ninguém lembra — vivem à espreita, esperando qualquer chance pra surfar na onda de quem tá em alta.
Não produzem, não inspiram, não movimentam nada… mas têm opinião pra tudo, e só é visto por estar sempre em um AFOFO.
Chamam o sucesso alheio de “perda de fundamento”, quando o que eles perderam mesmo foi relevância.
São os urubus do sagrado: não brilham, mas aparecem assim que sentem o cheiro de comida.
Falam de humildade, mas vivem babando nos “pais e mães de teto de gesso” que cobram o triplo, trocam a comida do santo por alaminuta e fazem marketing com sorriso de quem nunca suou.
E quando o médium do povo, aquele que veio da lama, decide valorizar o próprio axé, o mundo desaba.
Porque ver um pobre se valorizando é praticamente um absurdo.
O axé pode tudo — menos fazer o periférico ter voz, respeito e boleto pago.
A verdade é que o batuqueiro que viraliza assusta mais que qualquer entidade.
Mostra que o sagrado também é trabalho, que fé e valor podem coexistir, e que o brilho não pede bênção pra ninguém.
O problema não é o médium cobrar.
O problema é ele ter parado de pedir permissão pra existir.
A África no Brasil - A Raiz da Ancestralidade