12/05/2026
Carta à Oxum,
Faz tempo que eu queria poder conversar com a senhora.
Não sei se lembras da última vez quando eu te pedi um amor como presente.
Creio que meu erro não foi ter pedido um amor. O equívoco foi ter me atropelado e não ter clamado para que o meu amor próprio fosse, antes, fortalecido.
Talvez assim eu entendesse que o que surgiu nem era amor, nem era presente. Éramos apenas duas carências querendo dar certo juntando seus erros.
Agora os caminhos me levam para o autocuidado. Uma pausa necessária para potencializar esse amor suave que mora em mim.
Hoje eu lhe peço sensibilidade para compreender quando o sentido for tudo menos amor.
Quero poder cuidar tão bem das minhas emoções que não mais deixe a carência controlar os meus afetos. Quero poder cuidar tão bem das minhas emoções que eu não sinta medo de não viver outro romance.
-Tá tudo bem. Não há nada de errado. Você não está só. A vida seguirá contigo junto aos seus.
Nunca entendi o motivo das pessoas determinarem que rapazes, que rapazes negros g**s, não podem ser sensíveis.
Eu sempre fui um menino negro gay sensível.
Gosto de rapazes negros g**s que sabem o quão sensíveis são.
Sensibilidade não é antônimo de agressividade. Os dois podem caminhar juntos - não existe um negativo e outro positivo, são complementares.
Ser sensível é compreender a potencialidade das suas emoções e sentimentos, onde eles se localizam e como se expressam.
Ser sensível é saber lidar com seus afetos e não ter medo de reconhecê-los como algo importante e significativo em sua vida.
Ser sensível não tem a ver com contraposição ao vigor, à agressividade ou qualquer característica dita “masculina”.
Ser sensível é não negligenciar o que se sente.
Dissera-me que rapazes negros g**s não herdaram amor dos seus ancestrais. Neles apenas florescem a força para a resistência. Suas vidas se resumiria a caminhar para resistir.
Alguém contou que a senhora se banha no rio e lava seus adereços em águas límpidas antes de olhar para outros.
Preciso que me ensines a olhar tão profundamente para mim que eu possa cuidar das minhas fragilidades e potências antes de me permitir acolher alguém.
Hoje descobri que não sabia lavar meus adereços.
Não pude cuidar do último amor que me atravessou. Como poderia se mal sei cuidar de mim?
Creio que o próximo amor precisa vir sereno, com verdade, sem egos inflados, nem desejo de disputa.
Gosto de gente incompleta que sabe da existência dum caminho para percorrer e deseja percorrer esse caminho junto. Não por ser mais fácil. Mas por ser menos doloroso. A acolhida honesta refrigera a alma, acalma.
O próximo amor precisa ter textura, maturidade e desejo de bem amar.
É pelo ideal de querer construir essa relação que ela pode florescer.
Estou cansado de gente pronta.
Ali de encontro à ancestralidade pode haver uma luz que nos direcione para esse amor capaz de fortalecer o encontro dessas almas.
Não quero um pai, não quero um filho, ainda que os colos sejam tão honestos que ser pai e ser filho sejam papéis que ambos irão gostar de exercer e de brincar.
Minha Yá Oxum, que daqui até o novo amor surgir eu já tenha aprendido a olhar com mais verdade para mim. Já tenha compreendido meus limites e, sobretudo, a dizer não.
Só a senhora, rio rebelde que percorre todo meu corpo, pode me orientar nesse processo de maturação.
Enquanto isso, Oxum dos meus amores, que eu possa ter sempre teu colo e teu afeto.
Não posso deixar de te olhar, de lavar teus enfeites e honrar essas Oxuns guardiões desse universo profundo das emoções e sentimentos.
Cuide do meu coração até eu poder encontrar encontrar alguém com que eu possa trocar cuidados.
Confesso, hoje a necessidade é maior de cuidar de alguém que possa cuidar bem de mim.
Òsun mo kí o!
Van Sena Omoloji
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