06/01/2023
Em uma época tão conturbada como a que estamos atravessando, o homem se vê diante do desafio de interpretar símbolos do passado, capazes de identif**ar o seu presente e o seu futuro.
Como último livro da Bíblia, o Apocalipse se situa entre as obras mais enigmáticas da história universal, particularmente a religiosa.
Atribuída a João Evangelista, um dos apóstolos de Jesus, é fruto de seu exílio na ilha de Patmos, onde esteve cativo por ordem de Roma, expedida no reinado de Tito Flávio Domiciano, tendo sido torturado pelo sucessor, Valério, que o manteve prisioneiro da mencionada ilha. Entre a solidão e a saudade, João travou contato psíquico com entidades venerandas, que o levaram a descrever, em linguagem de época, episódios que marcariam a trajetória humana na Terra.
O forte simbolismo está muito vinculado ao conhecimento da cultura grega, onde João estivera em suas pregações na mocidade, delas retirando elementos para situar ocorrências no campo do Espírito. Dentre estas, os quatro cavaleiros do Apocalipse, referidos nos capítulos 6 e seguintes, a eles se referindo como sendo um branco, símbolo da pureza, da santidade, o segundo vermelho, a representar a guerra, o sangue derramado nas atrocidades periódicas do mundo, o terceiro possuiria a cor negra, refletindo a morte e as maldições, fechando a extraordinária captação psíquica com um cavalo amarelo, representante da destruição física, da putrefação.
Pestes, guerras, fome e morte não são novidades no cenário das nações. Em pouco mais de 3.500 anos de história para cá, já produzimos mais de 25 mil conflitos, de pequeno ou grande porte, derramando rios de sangue. Flagelos visitam o planeta de tempos em tempos, produzindo dor e luto, como bem poderia ser situada a atual pandemia de covid 19, a diminuir sua força ante as medidas sanitárias adotadas pelos governos mundiais. O espectro da fome ronda os passos de mais de um bilhão de seres humanos, não obstante as safras recordes anuais. E a morte está intimamente associada ao fim do ciclo biológico, para alguns representando o término de tudo, inclusive do existir, e para a grande maioria, é simples passagem pela aduana do cemitério, colocando o falecido a caminho de sua destinação espiritual, conforme tenha se portado na Terra.
Coube à escatologia examinar esses aspectos da finitude da existência humana e examinar os fundamentos dessas profecias, hoje muito utilizadas como pano de fundo para sustentação de um sacerdócio religioso remunerado, que o interpreta de acordo com suas conveniências de grupo.
O número sete, muito comum na cabala e tido como místico, impregna o texto do vidente de Patmos com muita recorrência, evidência indiscutível da influência do pensamento grego na interpretação de suas admiráveis experiências oníricas.
Importa extrair os marcos da notável profecia, buscando coar da letra o espírito que a vivif**a.
Os quatro cavaleiros rondam o mundo nesse momento, espalhando inquietação e pânico. O animal negro bem que poderia ser o petróleo, ainda principal combustível fóssil das maiores economias do orbe. O vermelho, adotado por ditaduras políticas e por grupos raivosos como cor predominante, retrataria esse momento de intolerância e fanatismo que invade as civilizações, arruinando em muitos lugares a possibilidade do diálogo fraterno. A montaria branca estaria representando o esforço das almas redimidas em soerguer o ser humano da apatia que ora amolece o caráter e apodrece a honra de muitos, que se deixam tragar pelas facilidades da época. E esse amarelo desbotado, que simbolizaria a decomposição dos costumes, a derrocada da ética e o aviltamento da dignidade, sufocada pela avalanche de corrupção e suborno que ora se espalha entre os viventes.
Acima da interpretação de João, importa situar Jesus Cristo como o alfa e o ômega da evolução planetária, porto seguro onde podemos ancorar o barco das nossas incertezas, refazendo caminhos e renovando atitudes.
Entre pangarés e asnos, alimárias e puros-sangues, deveremos priorizar a própria marcha pelo irrestrito cumprimento de deveres, diminuindo a volúpia por direitos.
Fé lúcida substituindo crença cega.
Ciência adotada para equacionar as leis que regem o mundo material. Ética religiosa praticada para nos forrar à tentação e à arrogância. Uma filosofia existencial centrada no bem e na prática do amor ao próximo.
Buscando iluminar as sombras teimosas da ignorância, observaremos como algumas interpretações se ajustam aos tempos modernos, reclamando esforço e luta, trabalho e abnegação para serem revertidas na sua ação danosa, destrutiva, conquanto essas forças, mesmo quando contrárias aos anseios humanos, são ferramentas com que a Divindade altera as paisagens terrestres, impulsionando as nações e os indivíduos para novos estágios de evolução.
Se tens alguma notícia desses textos em teu entendimento, busca o quanto antes o ajuste de teu proceder nas diretrizes morais do Cristo, evitando teu encontro com os quatro cavaleiros de teu apocalipse pessoal e, tomando o jumento nas portas de tua Jerusalém íntima, entra na cidade e liberta-te de tudo quanto ainda representa atraso e comodismo, preguiça e conivência com os pangarés morais desses dias líquidos.
Marta
Juazeiro, 06.01.2023