08/03/2026
Em meio a tantos noticiários ruins que invadem nossos corpos e mentes cotidianamente sem nenhuma permissibilidade, dilacerando nossa integridade e paz por gerar medos e angústias porque a sociedade tem fracassado em ser humana ao naturalizar barbáries e o machismo estrutural. Diante dos diversos tipos de violações dos direitos humanos contra às mulheres, em que cenas de violência são tomadas como naturais- seja um estupro coletivo, por socos desferidos por ex- companheiros, ou mesmo mulheres que são arrastadas quilômetros de distância por um carro por alguém que afirmava amá-la, desejo que o olhar seja tomado à partir de uma outra perspectiva. Que a transformação comece pelas rupturas da violência naturalizada e que possamos refletir sobre que tipo de sociedade estamos produzindo ao optar pelo silenciamento ou ausência de posicionamento
Este texto por sua vez não é um panfleto feminista ou uma cartilha, nem apontar sobre aquilo que já presenciamos todos os dias e a quase todo instante pelas redes sociais, pelo contrário, é um lembrete de que ainda é tempo de gerar transformação, que ainda é tempo de sermos empáticos e humanos, ao se solidarizar com o “peso” do que é ser mulher no Brasil e no mundo. Que possamos nos lembrar de quem nos amamentou, nos orientou nos primeiros passos, da rede de apoio e afetos, que produz marcas indeléveis na formação do nosso caráter humano (em sua maioria mulheres). Que possamos nos atentar a quem não teve tempo ou espaço para enfrentar as dores, angústias, choro e engasgos porque não podia ou não tinha tempo, mas que ainda assim resiste. Pois estas são às mulheres que perpassam por nossas vidas e que sempre virão aos nossos encontros no entremear da vida.
Que nesta data ao nos presentear com flores atentem-se ao que diz o Carlos Drummond de Andrade:
“…Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu…”
Dia 08 de Março e ainda resistimos como flores em. meio ao deserto, como flores de mandacaru que insistem e persistem em existir, porque o direito de viver também é nosso. Não se trata do que foi, mas o que o peso da data ainda é e do poder que ela emana, espalhando “pétalas de rosas” porque a barbárie não tem lugar onde a resistência gera transformação, pois as “pétalas de rosas da transformação” são como sementes que espalhadas geram frutos, em que o lugar da violência vai sendo substituído pelo da esperança conjunta e coletiva, sobretudo no Reino de Deus que é também um Reino de Justiça e Amor.
Mesmo que em muitas igrejas insistam na blasfêmia de que mulheres devem se comportar de certo modo e por certas roupas, e se subjugarem a relacionamentos abusivos e por muitas outras formas de agressão, este não é o caminho. O Reino de Deus é a maior prova de transformação humana e também social, é um caminho comunitário de partilhas, amor, trocas de afetos, sonhos, em que a vida se torna mais leve e menos pesarosa, não isenta de problemas e dores, mas sim de uma rede de apoio e cuidados, é sobre comunhão e compaixão. Não é sobre violência, passividade, injustiça, é sobre caminhos em que o amor não cede lugar a crueldade, é especialmente sobre mulheres, não estarmos sozinhas, pois ainda há espaços em que possamos nos sentirmos seguras, abraçadas, compreendidas, pois à igreja possui um papel crucial no enfrentamento aos assolamentos que veem acontecendo nos últimos tempos, conosco, com nossos corpos, vontades e a todos os tipos de violências apenas por sermos mulheres.
Desejo que nesta data de 08 de Março não se faça apenas como uma simbologia, ou mais uma data do calendário, mas que seja também uma ressalva do quanto que ainda precisamos caminhar e que nestes percursos redes de apoio e solidariedade sejam tecidas por homens, mulheres, crianças, jovens e velhos para aquelas que sofreram e sofrem, que nossos ouvidos estejam sempre dispostos a acolher, a sermos empáticos e que sejamos a esperança de alguém em um momento, espaço, em uma conversa; Que tenhamos tempo para ser seres humanos neste loucura de mundo que insiste em negar e naturalizar violências, e que, possamos nomear aquilo que nos incomoda, nossas dores, angústias e sofrimentos, que encontremos com comunidades que nos abracem e acreditem em nós, sem julgamentos, sem olhares tortos, e apenas, unicamente apenas com compaixão e humanidade... pois é assim que “as pétalas das rosas” vão fazendo seus caminhos e alçando voos de transformações e rupturas de violências.
*Myrelly Soares, membro da Mosaico IPI*