01/06/2026
Eu só encontrei terreiro ruim...
Será?
Quando eu tinha terreiro, ouvi muitas vezes a mesma frase. “Nunca encontro uma casa boa.” “Só conheci pai de santo charlatão.” “Todo terreiro é problemático.” Eu nunca consegui comprar totalmente essa narrativa sem ouvir os dois lados da história.
Claro que existem terreiros ruins. Existem líderes despreparados, abusivos, egoístas. Isso é real e precisa ser falado. Muita gente saiu ferida de espaços espirituais e eu jamais vou diminuir essa dor. Só que, com o tempo, eu também comecei a perceber outra coisa.
Tinha gente que passava por dez casas diferentes e em todas o problema era sempre o mesmo. Toda regra era vista como opressão. Toda disciplina era chamada de manipulação. Todo ensinamento que contrariava os desejos da pessoa virava “controle espiritual”. E aí eu comecei a me perguntar se o problema estava realmente em todos os terreiros ou se existia uma dificuldade profunda de aceitar que espiritualidade séria exige limite, convivência e humildade.
Hoje existe uma ideia muito romantizada de “culto livre”. A pessoa aprende meia dúzia de fundamentos na internet, acende uma vela em casa e começa a acreditar que não precisa mais de comunidade, de orientação, de mais velho, de tradição, de chão. Como se ancestralidade fosse algo individualista. Como se Axé fosse uma experiência montada ao gosto do consumidor.
Só que os cultos de matriz africana sobreviveram porque existia coletividade. Sobreviveram porque existia transmissão de saberes, responsabilidade, hierarquia e convivência. Ninguém sustentou essas tradições sozinho dentro do próprio quarto fazendo o que dava na cabeça.
E eu digo isso com carinho, não como ataque.
A internet deu acesso à informação, mas também criou uma falsa sensação de autossuficiência espiritual. Tem gente que já não consegue mais distinguir se está ouvindo a própria ancestralidade, o próprio ego ou apenas aquilo que gostaria de ouvir (ou, o que geralmente acontece, um kiumba perurbando as ideias). Sem convivência, sem correção, sem espelho humano, a pessoa vai se fechando dentro das próprias certezas.
Eu conheci terreiros ruins. Mas também conheci casas lindas, sérias, humildes, dirigidas por pessoas honestas que carregavam décadas de fundamento, sacrifício e responsabilidade espiritual nas costas. O problema é que muita gente procura acolhimento, mas foge de qualquer ambiente que também cobre postura, disciplina e amadurecimento.
Que cobre RESPONSABILIDADE.
Nem toda rigidez é abuso. Nem toda hierarquia é opressão. Às vezes, o que dói não é o terreiro. É o confronto com partes da gente que ainda não aprenderam a viver o coletivo.
Espiritualidade verdadeira não existe sem pertencimento. Não existe sem troca. Não existe sem respeito aos que vieram antes.
Ancestralidade não é um spa místico para massagear o ego. É, antes de tudo, seriedade e compromisso.
Nelson da Capitinga
Ya Rosa d, Yemonja Ssagbá