Igreja do Criador - IDC

Igreja do Criador - IDC Dogma: em cada homem há uma centelha de Deus.

03/09/2026
02/09/2026

Seu Juracy era a vergonha do bairro.

Todo mundo sabia.

Homem de 58 anos, magro, barba desgrenhada, dentes amarelados, roupa sempre a mesma: camisa xadrez desbotada, calça jeans puída, chinelo de dedo rachado.

Morava num cômodo atrás do Bar do Zeca, na esquina da rua principal. Não era bem um aluguel. Era um favor. O Zeca deixava ele dormir ali em troca de varrer o salão de vez em quando.

E Juracy bebia.

Bebia todo dia. Desde que o sol nascia até o bar fechar. Cachaça barata. Cerveja quente. O que aparecesse.

Sentava na mesma mesa de canto, sozinho, olhando pra rua, falando sozinho às vezes. As pessoas passavam, desviavam o olhar, apressavam o passo.

Eu mesma fiz isso dezenas de vezes.

Meu nome é Clarice. Moro há 12 anos nesse bairro. Conheço o Juracy desde que cheguei. E sempre pensei a mesma coisa que todo mundo pensava:

"Coitado. Largou a vida pra beber."

Minha família inteira pensava assim.

Meu marido, quando passava de carro na frente do bar e via o Juracy cambaleando, balançava a cabeça:

— Olha ali. O dia inteiro no mesmo lugar. Que desperdício de vida.

Meu filho Matheus, 19 anos, ria com os amigos:

— Aquele bêbado da esquina é lenda viva, mãe. Dizem que ele bebe desde os 15.

Eu concordava. Ria junto. Fazia comentários. Julguei o Juracy mil vezes sem saber de nada da vida dele.

Até aquela sexta-feira.

Matheus tinha saído com os amigos pra comemorar o aniversário de um colega de faculdade. Festa numa casa de chácara, cerveja liberada, música alta, aquele clima de "a gente é jovem e nada pode dar errado".

Ele tinha levado meu carro. Prometi que ia buscar na hora que ligasse. Mas passou da meia-noite e nada.

Liguei. Ele atendeu falando alto, rindo, música no fundo:

— Mããããe, tá tudo bem! To indo já!

— Matheus, você bebeu?

— Só umas cervejinhas, mãe. Eu dirijo bem.

Meu sangue gelou.

— Matheus, NÃO entra nesse carro! Eu vou te buscar!

— Relaxa, mãe! Eu to bem! Tchau!

E desligou.

Peguei a chave da moto do meu marido, acordei ele desesperada:

— Carlos, o Matheus bebeu e vai dirigir!

Saímos voando. Coração na boca. Celular no viva-voz, ligando pro Matheus sem parar. Ele não atendia.

Enquanto isso, Matheus já tinha saído da festa.

Tava tonto, mas "se achando", como ele mesmo contou depois. Entrou no carro, ligou o motor, ajustou o retrovisor. Amigos tentaram segurar:

— Cara, deixa teu pai buscar!

— Tá de boa, tá de boa — ele insistia, língua meio presa.

E saiu.

Ele desceu a rua da chácara, pegou a avenida, entrou no bairro. Tudo meio embaçado, reflexos lentos, mas "controlado" na cabeça dele.

Foi quando parou no sinal da esquina do Bar do Zeca.

Quase 1h da manhã. Rua vazia. Bar já fechado, mas a luz do poste acesa.

E lá estava Juracy.

Sentado na calçada, encostado no muro, garrafa de cerveja vazia ao lado, olhos semicerrados.

Matheus não ligou. Ia acelerar assim que o sinal abrisse.

Mas Juracy levantou.

Cambaleando, segurando no muro, cambaleando de novo. E começou a andar em direção ao carro.


Matheus abriu o vidro, irritado:

— Ô, velho, sai da frente!

Juracy chegou perto, apoiou a mão no capô do carro, olhou pro Matheus com aqueles olhos vermelhos de quem bebe faz décadas, e disse, arrastando as palavras:

— Ocê tá bebado, menino.

Matheus riu, nervoso:

— Eu? Você que tá bêbado, velho! Sai da frente!

Juracy balançou a cabeça. E, num movimento inesperado, enfiou a mão pela janela e arrancou a chave do carro.

— Ô! — Matheus gritou. — Me devolve isso!

— Não — Juracy disse, firme, segurando a chave com força. — Ocê num vai dirigir hoje.

Matheus abriu a porta, tentou descer pra pegar a chave de volta. Juracy recuou, quase caiu, mas continuou segurando.

— Velho maluco! Me dá a chave!

— Num dô não. Ocê vai matar alguém. Ou vai morrer. Eu num vo deixar.

Matheus empurrou Juracy de leve. O velho cambaleou, mas não largou a chave. Os dois começaram a discutir ali, no meio da rua vazia, sob o poste.

— Quem você pensa que é, seu bêbado?!

— Eu sou ninguém, menino. Mas ocê num vai passar por mim hoje.

Durou uns 3 minutos. Empurra-empurra. Matheus tentando arrancar a chave. Juracy resistindo, bêbado mas firme como uma trava.

E então, o barulho.

Um carro em alta velocidade, descendo a rua paralela, descontrolado. Motor acelerado, pneu cantando.

Matheus e Juracy pararam de brigar e olharam.

O carro — um Gol prata — atravessou o cruzamento sem frear. Passou pelo sinal vermelho, derrapou, subiu na calçada e bateu exatamente no poste onde o carro do Matheus ESTARIA se ele tivesse saído no sinal.

O estrondo foi brutal.

Vidro estilhado. Lataria amassada. Fumaça subindo. Motorista desacordado no volante.

Matheus ficou paralisado. A chave do carro ainda na mão do Juracy.

O velho olhou pro acidente. Olhou pro Matheus. E disse, voz rouca:

— Cê ia tá ali, menino. Cê ia tá morto.

Matheus caiu sentado na guia da calçada, tremendo.

Foi quando eu e meu marido chegamos, desesperados. Vimos o acidente, a ambulância chegando, a confusão. E Matheus sentado na calçada, vivo, chorando, com Juracy sentado do lado dele em silêncio.

Corri, abracei meu filho, ele tava em choque:

— Mãe... eu ia tá ali... eu IA ESTAR ALI...

Carlos olhou pro Juracy, que segurava a chave do carro ainda, olhar cansado, mas sereno.

— Foi o senhor que segurou ele?

Juracy acenou que sim, devagar.

— Eu num deixo ninguém dirigir bebido. Nunca deixei. Nunca vô deixar.

Meu marido estendeu a mão. Juracy apertou. As duas mãos tremiam.

— O senhor... salvou meu filho.

Juracy deu um sorriso torto, dentes amarelos, hálito forte de álcool:

— Deus que salvou. Eu só tava no lugar.

Nos dias seguintes, não consegui parar de pensar.

Fui até o Bar do Zeca. Sentei com o dono. Perguntei sobre o Juracy.

Zeca suspirou fundo:

— Dona Clarice, o Juracy perdeu a esposa e a filha de 16 anos num acidente de carro. Motorista bêbado. Bateu de frente. As duas morreram na hora. Isso foi há 25 anos.

Senti um soco no estômago.

— Ele nunca se recuperou. Começou a beber pra esquecer. Mas sabe o que ele faz? Toda noite, ele f**a ali na frente do bar. E se vê alguém bêbado pegando carro, ele impede. De todo jeito possível. Já tomou soco, já foi xingado, já foi ameaçado. Mas ele não deixa. Nunca.


— Por quê? — perguntei, com a voz embargada.

— Porque ele diz que, se ele não conseguiu salvar a família dele, pelo menos vai salvar a família dos outros.

Comecei a chorar ali mesmo.

O Zeca continuou:

— A gente ri dele. Chama de bêbado, de inútil. Mas quantos filhos desse bairro tão vivos hoje porque o Juracy segurou chave, discutiu, atrasou, irritou? Eu perdi a conta.

Voltei pra casa. Contei tudo pro Carlos, pro Matheus.

Matheus chorou. Muito. E no dia seguinte, foi até o bar.

Juracy tava lá. Mesma mesa. Mesma roupa. Mesma cerveja.

Matheus sentou do lado dele. Não disse nada por um tempo. Só ficou ali.

Até que falou, voz baixa:

— Desculpa por ter te empurrado. E... obrigado. Obrigado por não ter me deixado ir.

Juracy olhou pro garoto. E pela primeira vez, sorriu sem ironia.

— Cê tem uma mãe que te ama, menino. Num faz ela chorar igual a minha chorou.

Matheus acenou que sim, engolindo seco.

Desde aquele dia, meu filho para no bar toda semana. Leva comida. Senta com o Juracy. Conversa. Às vezes só f**a em silêncio.

E sempre que alguém no bairro fala mal do "beberrão da esquina", Matheus corta na hora:

— Esse homem salvou minha vida. E provavelmente a sua também, se você soubesse.

Tem gente que Deus coloca no lugar certo na hora certa.

E nem sempre essa pessoa parece um anjo.

Às vezes ela cheira a álcool, cambaleia, é motivo de piada.

Mas quando a tragédia desce a rua descontrolada, é ela quem segura a chave, discute, atrasa, irrita.

E salva.

Porque Deus não escolhe pela aparência.

Ele escolhe pela disposição de estar ali quando ninguém mais está.

O Juracy continua bebendo. Continua no bar. Continua sendo chamado de "coitado".

Mas pra mim, pro meu marido e pro meu filho, ele é herói.

E toda vez que passo na frente do Bar do Zeca e o vejo sentado ali, aceno.

Ele acena de volta.

E eu sei:

Deus usa quem Ele quer.

Até o "pior" do bairro pra segurar o pior que ainda não aconteceu.

🕊️ “O pássaro que desvia de uma pedra não perde tempo questionando as intenções de quem a atirou.”Porque o pássaro enten...
19/02/2026

🕊️ “O pássaro que desvia de uma pedra não perde tempo questionando as intenções de quem a atirou.”

Porque o pássaro entende algo que muitos humanos não entendem.

A pedra não foi atirada para ensinar.

Não foi um aviso.

Não foi uma brincadeira.

Foi atirada para matar.

E quando erra o alvo…

O pássaro não volta.

Não confronta o agressor.

Não pousa num galho se perguntando:

“Por que alguém faria isso comigo?”

Simplesmente voa para longe.

Porque, para ele, a sobrevivência é mais importante do que a compreensão.

Um propósito vale mais do que um desfecho.

A vida vale mais do que explicações.

Os humanos, por outro lado, são estranhos.

Somos desviados por uma pedra…

e então nos sentamos para analisar a mão que a atirou.

Queremos razões.

Queremos desculpas. Queremos conversar.

Queremos ser compreendidos por pessoas que já demonstraram não se importar se vivemos ou morremos.

Então, fazemos uma pausa. Sangramos lentamente.

Revivemos cenas.

Investigamos a traição.

Dissecamos o desrespeito.

Estudamos a psicologia daqueles que já tentaram nos destruir.

Enquanto isso…
a próxima pedra já está sendo levantada.

O pássaro não faz isso.

Ele compreende uma lei brutal da natureza:

👉 Se algo tentou te destruir e falhou, isso não é um convite ao diálogo.

👉 É um sinal claro para seguir em frente.

Porque as intenções não mudam os resultados.

Pedras não explicam nada.

A gravidade não negocia.

E aqueles que tentaram te ferir não f**am impunes só porque falharam.

Às vezes, Deus, a vida ou o destino não eliminam o inimigo.

Apenas atenuam o impacto.

A pedra passa.

O vento muda.

Não há tempo.

Você sobrevive.

Não para construir um tribunal em sua mente…
mas para deixar o campo de batalha.

O pássaro que sobrevive não se torna um filósofo.

Ele se torna mais rápido.
Voa mais alto.

Torna-se mais difícil de pegar.

Muda de altitude.

Muda de direção.

Muda de ambiente.

Não desperdiça seu último fôlego exigindo explicações de pessoas perigosas.

Há pessoas em sua vida que já revelaram suas intenções:

Seu ciúme foi evidente.

Sua amargura foi evidente.

Sua manipulação foi evidente.

Seu silêncio foi evidente.

Sua traição foi evidente.

Seu desrespeito foi evidente.

Eles falharam.

E você ainda está aqui.

Não porque eles sejam bons…
mas porque você se moveu, Deus interveio ou a vida interveio.

Sua sobrevivência não prova a inocência deles.

Isso prova que o perigo estava próximo.

A questão não é:

❌ “Por que atiraram a pedra?”

A verdadeira questão é:
✅ “Por que ainda estou aqui parado onde as pedras continuam voando?”

O pássaro que desvia de uma pedra não discute. Ele se afasta.

Ele valoriza a respiração mais do que as respostas.

A direção mais do que a discussão.

A vida mais do que a clareza.

E é por isso que…
ele continua vivo.

》Anthony Hopkins não encontrava nenhum livro em Londres. Então sentou-se num banco de metro.No início dos anos 70, Hopki...
07/02/2026

》Anthony Hopkins não encontrava nenhum livro em Londres. Então sentou-se num banco de metro.

No início dos anos 70, Hopkins tinha acabado de receber um papel num filme chamado A Garota de Petrovka, adaptado de um romance do jornalista e escritor George Feifer.

Como qualquer ator sério, queria ler o livro original. Passou um dia inteiro percorrendo livrarias pela famosa Charing Cross Road de Londres.

Nada, nada. O livro não estava aparecendo em lugar nenhum.

Frustrado e exausto, Hopkins entrou na estação de metrô de Leicester Square para voltar para casa.

E então viu algo num banco.

Alguém deixou um livro para trás.

Ele apanhou-o. Ele virou-o.

A garota de Petrovka.

O mesmo livro que procurei o dia todo, abandonado num banco do metro.

Hopkins não queria acreditar. Leu-o para casa, leu-o e notou algo estranho. As margens estavam cheias de notas manuscritas em tinta vermelha. Anotações. Alguém tinha marcado o livro todo com cuidado.

Não deu muita importância. Ele usou essas notas para entender melhor o seu personagem, preparou-se para o papel e guardou essa coincidência como uma daquelas raridades da vida.

Dois anos depois, Hopkins viajou para Viena, onde o filme estava sendo filmado.

Um dia, no estúdio, ele foi apresentado a um visitante.

George Feifer. O autor do livro.

Falaram do filme, dos personagens, da história. E então Feifer disse algo que deixou Hopkins gelado.

“Não tenho mais um exemplar do meu próprio livro”, comentou Feifer. “Emprestei minha cópia pessoal a um amigo anos atrás. Tinha todas as minhas anotações nas margens. Perdeu-a no metro de Londres. Nunca mais a vi.”

Hopkins ficou com a pele arrebentada.

“Eu encontrei uma cópia”, disse devagar. “Em um banco do metro. Está cheia de notas manuscritas”.

Feifer olhou para ele sem acreditar

Hopkins recuperou o livro e entregou-o ao autor.

Feifer ficou pálido.

Era o seu exemplar. A letra dele. Suas anotações. O livro pessoal que eu tinha perdido anos atrás... e que tinha acabado em um banco de metro logo quando Anthony Hopkins, o ator que mais precisava, sentou-se ali.

Numa cidade imensa. Entre milhares de ruas. Entre centenas de estações.

O livro certo. O banco certo. Hora certa.

George Feifer recuperou o seu livro perdido. E Anthony Hopkins levou uma história que contaria para toda a vida.

Carl Jung chamou-lhe sincronicidade: a ideia de que certas coincidências com sentido não são puro acaso, mas sim parte de um padrão mais profundo.

Hopkins sempre se sentiu fascinado por essa ideia. E há momentos em que tudo o que resta é ser surpreendido.

Talvez tenha sido sorte. Talvez tenha sido o destino. Talvez o universo piscando o olho em silêncio.

Ou talvez, apenas talvez, alguns livros foram feitos para encontrar seus leitores.

E algumas histórias foram feitas para serem contadas.

Fonte: A Vanguarda ("Sincronicidades: meras coincidências ou um sinal de que você está no caminho certo? ", 13/09/2020)

07/02/2026

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