09/12/2025
Poema do Menino Jesus
(FERNANDO PESSOA)
Num meio-dia de fim de primavera
Eu tive um sonho como uma fotografia
Eu vi Jesus Cristo descer à Terra
Ele veio pela encosta de um monte
Mas era outra vez menino, a correr e a rolar-se pela erva
A arrancar flores para deitar fora, e a rir de modo
A ouvir-se de longe
Ele tinha fugido do céu
Era nosso demais pra fingir-se de Segunda pessoa da Trindade
Um dia que Deus estava dormindo
E o Espírito Santo andava a voar
Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três
Com o primeiro, ele fez com que ninguém soubesse
Que ele tinha fugido
Com o segundo, ele se criou eternamente humano e menino
E com o terceiro, ele criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras
Depois ele fugiu para o Sol e desceu
Pelo primeiro raio que apanhou
Hoje ele vive na minha aldeia, comigo
É uma criança bonita, de riso natural
Limpa o nariz com o braço direito, chapinha nas poças d'água
Colhe as flores, gosta delas, esquece
Atira pedras aos burros, colhe as frutas nos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães
Só porque sabe que eles não gostam
E que toda gente acha graça
Ele corre atrás das raparigas
Que levam as bilhas na cabeça e levanta-lhes a saia
A mim, ele me ensinou tudo
Ele me ensinou a olhar para as coisas
Ele me aponta todas as cores que há nas flores
E me mostra como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas
Damo-nos tão bem um com o outro na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro
Vivemos juntos os dois com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda
Ao anoitecer nós br**camos
As cinco pedrinhas no degrau da porta de casa
Graves, como convém a um Deus e a um poeta
Como se cada pedra fosse todo o Universo
E fosse por isso um perigo muito grande deixá-la cair no chão
Depois eu lhe conto histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível
Ele ri dos reis e dos que não são reis
E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios
Depois ele adormece e eu o levo no colo
Para dentro da minha casa, deito-o na minha cama
Despindo-o lentamente, como seguindo um ritual
Todo humano e todo materno até ele estar nu
Ele dorme dentro da minha alma
Às vezes ele acorda de noite, br**ca com meus sonhos
Vira uns de perna pro ar, põe uns por cima dos outros
E bate palmas, sozinho, sorrindo para o meu sonho
Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança
O mais pequeno, pega-me tu ao colo
Leva-me para dentro a tua casa
Deita-me na tua cama
Despe o meu ser, cansado e humano
Conta-me histórias caso eu acorde para eu tornar a adormecer
E dá-me sonhos teus para eu br**car...