08/02/2026
O auê da ‘Auê’
Quando você leu o título deste texto ou você entendeu tudo, ou você não entendeu nada. Tudo depende do quão envolvido você está ou esteve na internet nos últimos dias. Resumo, para quem não acompanhou: o grupo Coletivo Candieiro, que entre outras características tenta impulsionar sua música por meio de um resgate e ênfase da cultura brasileira e seus aspectos, lançou um novo projeto chamado ‘O grande banquete’, composto e construído olhando para Lucas 14, no episódio da parábola contada por Jesus da grande ceia. No repertório deste projeto há a música ‘Auê (a Fé ganhou)’, que gerou enorme controvérsia entre cristãos das redes sociais, por conta de um trecho específico de sua letra e também por conta da performance no palco, no apresentar da mesma. O ponto é: um conteúdo que ficou ambíguo para alguns (ambíguo entre algo de teor cristão, mas ao mesmo tempo sincrético, possivelmente misturando elementos de outras religiões de matrizes africanas). Enfim, é isto. Não vou me estender aqui, porque todo o mais do assunto pode ser conferido ou revisto na internet, para quem se interessar, mas sigo abaixo em pontos que creio serem importantes para o assunto.
Acompanhei um pouco sobre o episódio dos dois lados: do lado dos que acham esta música um problema, por verem nela ambiguidade e sincretismo, e do lado dos que acham que está tudo ok, por se tratar apenas de uma questão de dificuldade de compreensão e interpretação de texto dos que rejeitam a mesma. Buscando a Bíblia, ponderei que há coisas mais profundas em questão, do que as que estão mais em evidência na superfície desta discussão. E isto preocupa, quando empobrece toda esta conversa...
No meu ver, tudo isto não é apenas uma questão de saber interpretar textos, poesias e afins. Não é apenas também sobre um grupo, se ele é cristão ou desviante da fé (até porque, mesmo cristãos, falham). Não é apenas sobre linguística e cultura, até porque elas podem ser relevantes e de grande proveito para o reino, ou não. Afinal, as mesmas vogais formam palavras que estão para os brasileiros, para os índios e para os que vão a terreiros de outras religiões. Não é sobre quais instrumentos ou estilos de músicas são sacros, ou não. Não é apenas sobre o papel da arte e dos artistas, e suas provocações. Não é apenas sobre inclusão, sobre a condição social, sobre lutas, ideologias e questões políticas, sociais e raciais. Não é apenas sobre como chamamos popularmente nomes comuns da nossa cultura. Não é apenas sobre uma visão turva de se ver (ou não ver) a prática da fé no nosso país, um país tão vasto e diverso, aliás. De tanto que vi e ouvi, concluí que restringir a discussão a apenas uma ou algumas destas vertentes só produz leituras rasas e limitadas, e que no final tiram o nosso foco do que realmente importa. Se somos cristãos de verdade, a Bíblia é o nosso centro, e se ela é o centro, lembramos: é sempre sobre a glória de Deus. E a glória de Deus não se reduz a aspectos e vertentes isoladas, mas a glória de Deus sempre é algo do conjunto. Temos que lembrar disto...
E, se vamos falar de conjunto, entre outras possíveis coisas creio que ainda faltou algo ao grupo que lançou esta música: a mentalidade cristã de cuidado à consciência do próximo. Para pessoas tão pensantes e inteligentes que são, com tanto trânsito cultural, eles deveriam, enquanto grupo que se afirma cristão, terem tido uma curadoria apropriada sobre o que compor, e o que não. No mínimo, por uma questão de consciência (para não citar outras coisas). A meu ver, eles só zelaram, sim, pela consciência deles de estarem bem com esta letra, e assim seguirem adiante. Mas, e quanto aos que haveriam de ouvir a música? Como receberiam? E aqueles que, ao ouví-la, conseguem claramente identificar uma linguagem da letra e direcionamento rumo ao que viveram terrivelmente numa vida pregressa, numa outra religião, numa realidade de trevas? Isto importa? O simples fato de transitar entre elementos que, para eles, diretamente vinculam a um passado que desejam esquecer? Foi de cuidado para com eles? Foi de glorificação para Deus? Olha, por mais que se quisessem usar e abusar do arcabouço cultural brasileiro, a glória de Deus define limites. Ainda mais para um país como o nosso, com um substrato cultural construído por meio de uma infinitude de influências e, muito sincrético sim, por sinal. Se impor quanto ao que se quer dizer, fazer, provocar ou comunicar, desconsiderando a consciência do outro, é antibíblico, é pecado. Reproduz falta de amor ao próximo, só visa o próprio interesse e por consequência, não glorifica a Deus. O conjunto, foi comprometido. Mas, por que fizeram isto? Foi por hype? Se foi, deu certo. ‘Hypou’, mas não glorificou a Deus. No conjunto, não foi o que poderia - e que deveria - ser. Causou foi auê!
Pr Leandro