15/09/2025
DISCUTIR SEM BRIGAR
A visão não é apenas um ato físico dos olhos, mas também uma construção mental. O que enxergamos está profundamente ligado àquilo que sabemos, acreditamos e estamos preparados para perceber. Nossos olhos podem captar luz e formas, mas é a cognição que organiza essas informações e dá sentido a elas. Assim, em muitos contextos culturais, aquilo que uma sociedade não reconhece ou não possui categorias para interpretar, muitas vezes “não é visto”, mesmo estando diante dos olhos.
Octavio paz no livro O Labirinto da Solidão, menciona que os indígenas não viram as caravelas de Cristóvão Colombo, elas estavam ali fundiadas, mas eles não enxergaram porque não tinham cognição para ver o que não existia em sua cultura.
A antropologia e a psicologia cognitiva mostram que a percepção visual é moldada pela cultura. Povos diferentes desenvolvem maneiras distintas de nomear cores, identificar padrões e reconhecer símbolos. Por exemplo, culturas que possuem poucos termos para cores enxergam menos variações cromáticas do que aquelas que têm uma linguagem mais rica para descrevê-las. Não é que os olhos não percebam, mas a mente não encontra estrutura para diferenciar e fixar essas nuances.
Esse fenômeno também se aplica a situações históricas. Quando algo absolutamente novo surge diante de um povo — seja um objeto, uma tecnologia ou até um comportamento —, pode haver uma dificuldade inicial de percepção. O cérebro humano, acostumado a interpretar a realidade com base em experiências anteriores, tende a ignorar ou não reconhecer de imediato aquilo que não encontra lugar no repertório cultural. Nesse sentido, a cognição age como filtro: só vemos, de fato, o que conseguimos compreender.
A importância disso é enorme. Em nossos dias, compreender como a cultura molda a visão nos ajuda a perceber que não basta abrir os olhos, é preciso abrir a mente. Enxergar exige tanto dos sentidos quanto da capacidade de atribuir significado. Quando aprendemos novas linguagens, entramos em novos ambientes ou nos aproximamos de culturas diferentes, passamos a enxergar realidades que antes pareciam invisíveis. É como se o mundo fosse ficando mais nítido à medida que nossa mente se expande.
Por esse motivo não devemos brigar com pessoas que não nos entende, talvez eles só não consigam enxergar a vida do mesmo olhar que nós, por falta de cognição. Antes de tentarmos mostrar um projeto para um grupo de pessoas, primeiro devemos fornecer as lupas adequadas para que possam ver.
By: David Mouta