20/04/2024
Dia 19 de abril: O “dia do índio” e o “seu depois” após a invasão!
O Brasil, apesar de sua rica diversidade cultural, enfrenta sérios problemas de discriminação, notadamente em relação à raça, orientação sexual e identidade de gênero. Existe, também, um acentuado preconceito de classe e de pessoas social e economicamente mais pobres, por parte da elite dominante.
Os povos indígenas, os originários de nosso território brasileiro, juntamente com o povo negro, são os que mais sofreram (ainda sofrem) os impactos das discriminações e das narrativas distorcidas e pejorativas. Por todo lugar, em nosso país, reverberam as narrativas contra os indígenas e, muitas vezes, reforçadas por diversos políticos. Sem falar na imposição de uma prática religiosa estranha aos povos originários por alguns missionários, de diferentes credos religiosos. Eles ignoram completamente as singularidades espiritual, culturais e existencial. Tais fatores nocivos são condicionados por uma lógica arrogante e de uma postura excludente colonialista europeia.
Devemos descolonizar nossa história:
Fomos induzidos a acreditar que a história do Brasil começou com o “descobrimento do Brasil”, em 1500. O que na verdade foi uma outra fase da história brasileira, a partir da invasão europeia portuguesa. A nossa história passa a ser contada e imposta pela ótica do invasor, do conquistador e do colonizador. Ignorando ideologicamente, por completo, o saber, a história e a riqueza cultural dos povos originários, que há muito tempo já ocupavam o território brasileiro.
Desde então, começa a saga dos povos originários da nossa terra. Eles resistiram ferrenhamente ao extermínio e à expulsão de seus territórios. Da mesma forma, lutaram, deram a vida, e ainda hoje lutam, de forma incansável pelo sagrado direito de reconquistar (demarcar) os seus territórios tradicionais, garantir e preservar suas culturas.
Não podemos, porém, pensar os indígenas somente na selva. Eles estão também no espaço urbano. Tanto os aldeados nos territórios, quanto os urbanizados merecem o pleno acesso às políticas públicas, à educação e à inclusão digital, de forma diferenciada. Ou seja, adaptadas a cada cultura e etnia.
Atualmente, são vários os “povos originários ressurgidos e resistentes”, embora historicamente reduzidos, mas não vencidos.
Há, desta forma, uma enorme dívida a ser paga aos povos originários brasileiros, latino-americanos e caribenhos. Eles são os hóspedes originários destas terras que lhes estão sendo subtraídas, invadidas e roubadas de forma avassaladora pelos grandes representantes do capital. São eles: os madeireiros, os garimpeiros do ouro, os conglomerados da mineração e os setores do agronegócio. Estes grupos foram, também, os criadores do Marco temporal. É um Projeto Lei, que que lesa a preservação das florestas e o direito dos povos originários, relativo à demarcação de territórios. Nega toda demarcação após o ano da promulgação da Constituição Cidadã, em 1988.
O Marco Temporal já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e, atualmente, está sob a análise do STF (Supremo Tribunal Federal).
Oxalá que 19 de abril, “dia do índio”, seja muito além de pintar, caracterizar pessoas ou alunos nas escolas. Possamos refletir criticamente. Repaginar a nossa história e dar um basta a todo tipo de preconceito, que é um sério obstáculo para toda e qualquer inclusão. Seja um memorial das lutas, da resistência e ao fortalecimento da esperança dos povos indígenas, tendo em vistas um novo amanhã.
Ouçamos a voz dos povos originários da terra. Aprendamos com eles, que são os verdadeiros mestres no auscultar e na convivência harmônica com a mãe natureza!
Oxalá que o depois dos povos originários seja moldado solidariamente no nosso hoje. O almejado futuro o seja gestado e florido por diferentes mãos, pés, corações e mentes na diversidade das culturas, etnias e territórios. Ah, que não faltem luzes e cores entrelaçadas. Formem, assim, um grande e radiante arco íris, em que o amor, a justiça, a igualdade, a paz dancem e alegremente se abracem!
Nova Iguaçu, mês dos povos originários da terra, 2024.
Ass. Padre Jorge Paim.
Grupo Elos Quilombolas