02/01/2018
Igreja ou "desigrejados"?
A igreja cristã surgiu como movimento leigo, a partir dos ensinos de Jesus e da vinda do Espírito Santo (atos 2), e assim permaneceu até o século 4. Nesse período, sempre que havia um problema a resolver, a igreja convocava um concílio; este ao tratar da questão em particular, que o havia motivado, incorporava a solução adotada como princípio de sua confissão de fé.
A partir do século 4, contudo, a igreja foi cooptada pelo clericalismo e pelo estado Romano, quando o Cristianismo tornou-se a religião oficial do estado. A consequência é que ela perdeu a independência frente aos poderes constituídos.
Assim , já faz muito tempo que a igreja e a institucionalização se confundem. Esse quadro parece irreversível, se não o é de fato. A cada época, cristãos são incomodados com a institucionalização que ultrapassa seu propósito legal frente aos poderes constituídos.
O surgimento de milhares de denominação evangélicas, o poderio apostólico de igrejas e seitas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas (São chamadas denominações históricas as igrejas batistas, presbiterianas, metodistas, congregacionais e luteranas), a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas e de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais. Tudo isso tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada.
Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé, mas outros querem abandonar apenas a igreja e manter a fé, querem ser cristãos, mas sem igreja. Muitos desses estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma comunidade. Porém, existem aqueles que, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo "desigrejado". ou seja, de sairmos da igreja para poder encontrar Deus.Viraram um movimento que cresce a cada dia. são os desigrejados.
Em linhas gerais, os desigrejados defendem os seguintes pontos:
1- Cristo não deixou nenhuma forma de igreja organizada e institucional.
2- A igreja verdadeira não tem templos, cultos regulares aos domingos, tesouraria, hierarquia, dízimos, rol de membros, seminários, etc.
3- De acordo com Jesus, onde estiverem dois ou três que creem nele, ali está a igreja, pois Cristo está com eles, conforme prometeu em Mateus 18. Assim se dois ou três amigos se encontrarem numa lanchonete ou pizzaria sexta a noite para falar sobre espiritualidade ou coisa do tipo, ali é uma igreja de Cristo, não sendo necessário absolutamente mais nada, como ir ao culto dominical ou pertencer a uma comunidade organizada.
4- A igreja, como organização humana, tem falhado e caído em muitos erros, pecados e escândalos e prestado um desserviço ao evangelho.
A igreja Cristã novo Israel concorda com vários pontos defendidos pelos desigrejados. Infelizmente, eles estão certos quanto ao fato de que muitos evangélicos confundem a igreja organizada com a igreja de Cristo e têm lutado com unhas e dentes para defender sua denominação, mesmo quando essa não representa genuinamente os valores da igreja de Cristo. Concordamos também que a igreja de Cristo não precisa de templos construídos nem de todo o aparato necessário para sua manutenção. Ela, na verdade, substituiu de forma vigorosa nos quatros primeiros séculos se reunindo em casas, cavernas, vales, campos. Os templos cristãos só foram edificados após a descriminalização do cristianismo pelo imperador constantino, no século 4.
É verdade que Jesus não deixou uma igreja institucionalizada aqui neste mundo. Porém, ele disse algumas coisas sobre a igreja que levaram seus discípulos a se organizarem em comunidades ainda no período apostólico, muito antes de Constantino.
1 - Jesus disse aos discípulos que sua igreja seria edificada sobre a declaração de Pedro, que ele era o Cristo, o filho do Deus vivo (Mt 16:15-19). A igreja foi fundada sobre essa pedra, que é a verdade sobre a pessoa de Jesus, (cf. 1Pe 2:4-8). O que se desviar dessa verdade - a divindade e exclusividade da pessoa de Cristo - não é igreja cristã. Não é de admirar que os apóstolos estivessem prontos a rejeitar os livres-pensadores de sua época, que queriam dar outra interpretação à pessoa e obra de Cristo. As igrejas forma instruídas pelos apóstolos a rejeitar os livres pensadores, como: os gnósticos e judaizantes, libertinos desobedientes, os seguidores de Balaão e os nicolaítas (cf 2Jo 10; Rm 16:17; 1co 5:11; 2Ts 3:6; 3:14; Tt 3:10; Jd 4; Ap 2:14; 2:6,15). É praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registradas nas escrituras, sem sermos igreja, onde somos ensinados, corrigidos,admoestados, advertidos e onde os que se desviam da verdade apostólica são rejeitados.
2 - A declaração de Jesus acima, de que a sua igreja se ergue sobre a confissão acerca da sua pessoa, mostra a ligação estreita, orgânica e indissolúvel entre Cristo e a sua igreja. Em outra passagem, ele ilustrou essa relação com a figura da videira e seus galhos (Jo 15). Essa união foi muito bem compreendida pelos seus discípulos, que a compararam a relação entre a cabeça e o corpo (Ef 1:22-23).
3 - Jesus determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo, que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia ordenado (Mt 28:19-20). Os discípulos entenderam isso muito bem. Eles organizaram os convertidos em igrejas, os quias eram batizados e instruídos no ensino apostólico. Estabeleceram líderes espirituais sobre essas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6:1-6; 14:23). Definiram claramente o perfil desses líderes e suas funções, que iam desde o governo espiritual das comunidades até a oração pelos enfermos (1Tm 3:1-13; Tt 1:5-9; Tg 5:14).
4 - Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e quias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1 Tm 3:1; 5:17,19; Tt 1:5; Fp1:1; 1Tm 3:8,12; 5:9; 4:14). O exemplo mais antigo que temos dessa organização é a reunião dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém para tratar de um caso de doutrina, ou seja, a inclusão dos gentios na igreja e as condições para que houvesse comunhão com os judeus convertidos (At 15:1-6). Que ficou conhecido como o "concílio de Jerusalém" foi levada para ser obedecida nas demais igrejas (At 16:4), mostrando que havia desde cedo uma rede hierárquica entra as igrejas apostólicas, poucos anos depois do Pentecostes e muitos anos antes de Constantino.
5 - Jesus também determinou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memoria dele ( Lc 22:14-20). Os apóstolos seguiram a ordem e reuniam-se regularmente para celebrar a ceia ( At 2:42; 20:7; 1Co 10:16).
A passagem que os desigrejados usam - "onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles" (Mt 18:20) - foi proferida por Jesus no contexto da igreja organizada. Estes dois ou três que ele menciona são os dois ou três que vão tentar ganhar o irmão faltoso e reconduzi-lo à comunhão da igreja (Mt 18:16). Ou seja, são os que estão agindo para preservar a pureza da igreja como corpo, e não dois ou três que se separam dos demais.
Para concluir o raciocínio, vale lembrar que nós não temos ilusões quanto ao estado atual da igreja. Ela é imperfeita e continuará assim. A teologia Cristã clássica não deixa dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente, enquanto aguarda a vinda do Senhor Jesus, ocasião em que se tornará igreja triunfante. Ao mesmo tempo, ensina que não podemos ser cristão sem ela. Que apesar de tudo precisamos um dos outros, precisamos da pregação da palavra, da disciplina e dos sacramentos, da comunhão de irmãos e dos cultos regulares.
Cristianismo sem igreja é outra religião.
A igreja é a comunidade da graça, comunidade terapêutica, agência de transformação social, sinal histórico do reino de Deus, instrumentalizada pelo Espírito Santo enquanto serve incondicionalmente a Jesus Cristo, Rei dos reis, Senhor dos senhores, a quem seja glória eternamente, amém.
Paulo de carvalho
Teólogo e Sociólogo
Bibliografia:Kivitz, Ed. outra espiritualidade.
Kivitz, Ed. vivendo com propósitos.
Nicodemus, augustus, o ateísmo Cristão.