24/12/2020
NATAL PARADOXAL
Como está difícil desejar um feliz Natal em 2020!
É justamente em meio ao paradoxo que a mensagem do evangelho escolheu habitar desde seu início. Como sempre gosta de lembrar Leonardo Boff nesta época de fraternidade transparente: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino.” O Deus menino é o paradoxo na existência retirando toda lógica aceitável. O Natal do cristianismo causa o mais profundo paradoxo, quando os céus desejam a terra. O poder do universo prefere a simplicidade nazarena. O etéreo opta pelo natural. O imortal faz a rota que perpassa pela morte. O juiz toma seu lugar na cadeira do réu. O dono do ouro e da prata prefere a leveza de carregar apenas o suficiente. O homem que deve falar escolhe ouvir, uma mulher. O nascimento do Reino num estábulo. Sua completa instauração numa madrugada nada apoteótica.
Como se não bastasse o paradoxo de guerra, que hoje se encontra o mundo, em que lado a lado seguem enlutados e sobreviventes – os que choram e os que jubilam – no Brasil voltamos a dar números aos desempregados, a ouvir a terrível expressão - abaixo da linha da pobreza, a constatar aumento desesperador de pedintes e ambulantes nas ruas, a continuar a contagem de corpos abatidos, sem ou com farda, de cor preta... Há algum tempo não sentia minha alma tão divida, meus sentimentos tão paradoxais. Chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram nunca esteve em tão pouco espaço de tempo, e não errarei se disser que em 2020, essa ordem do evangelho deve funcionar concomitantemente.
Como está difícil! PARADOXAL viver esses tempos tão difíceis e com a lembrança de uma mensagem que inaugura novos tempos: “O povo que andava em trevas viu grande luz,...”
Andar nas trevas vendo a luz. Quanto paradoxo!
Que o menino PARADOXAL de Nazaré nos ajude a caminhar, chorar, nos alegrar, optando sempre pelo que gera leveza na alma, por mais PARADOXAL que pareça.