01/01/2023
No primeiro dia do ano novo, o calendário dos santos se abre com a solenidade de Maria Santíssima, no mistério de sua maternidade divina. De fato, Ela é “a Virgem Mãe, Filha de seu Filho, humilde e mais sublime que toda criatura, objeto fixado por um eterno desígnio de amor”. Ela tem o direito de chamá-lo Filho, e Ele, Deus onipotente, chama-a, com toda verdade, Mãe!
Não importa que Nossa Senhora não tenha concebido a natureza divina enquanto tal, já que essa natureza divina subsiste no Verbo eternamente e é, por conseguinte, anterior à existência de Maria. Ela, porém, concebeu uma pessoa – como todas as demais mães –, e como essa pessoa, Jesus, não era humana, mas divina, segue-se logicamente que a Virgem Santíssima concebeu segundo a carne a pessoa divina de Cristo e é, portanto, real e verdadeiramente Mãe de Deus.
Toda a Tradição cristã, a partir dos tempos apostólicos, é uma proclamação contínua desta verdade mariológica fundamental. Nos dois primeiros séculos, os Padres ensinaram que Maria concebeu e deu à luz Deus. No terceiro século, começa o uso do termo que se tornou clássico: Theotokos, ou seja, Mãe de Deus.
No século IV, mesmo antes do Concílio de Éfeso, a expressão Mãe de Deus se tornara tão comum entre os cristãos, que incomodava o Imperador Juliano, o apóstata, que se lamentava de os cristãos não se cansarem nunca de chamar a Maria de Mãe de Deus. João de Antioquia aconselhava a seu amigo Nestório para não insistir demasiado em negar este título, a fim de evitar tumulto do povo. O próprio Alexandre de Hierápolis, cognominado de outro Nestório, reconhecia que a expressão Mãe de Deus estava em uso entre os cristãos desde muito tempo.
A exultação que os fiéis demonstraram quando a maternidade divina foi definida solenemente como dogma de fé, comprova, até a evidência, o quão profundamente estava radicada essa verdade fundamental na alma daqueles antigos cristãos. Por isso, no sentir do Pe. Terrien, “as definições dos concílios não introduziram um novo dogma, mas foram antes a sanção oficial da fé da Igreja, motivada pelas sacrílegas negações dos inovadores”.
Monsenhor João Clá Dias, 1997.